domingo, 8 de novembro de 2009

Entre o saci e as bruxas



Por B. F. Teixeira"

"A bruxa vem aí/E não vem sozinha/Vem na base do Saci”. A clássica marchinha mostra essas duas criaturas mágicas do folclore em convivência harmoniosa. Nos últimos anos, porém, esses dois seres mágicos são os protagonistas de uma verdadeira guerra cultural. Tudo por causa de uma data. Dia 31 de outubro.

De um lado dessa batalha, o Halloween. Como o próprio nome deixa claro, não tem origem em nossa cultura. O dia das bruxas. Uma festa dos países de cultura anglo-saxã (Irlanda, Canadá, EUA) que é cada vez mais comemorada em nosso país.

Do outro lado o “Dia do Saci”. Símbolo da resistência cultural nacional. Nacionalistas culturais, (Sociedade de caçadores/observadores de SACIs) que já contam até com o apoio de um senador, Aldo Rebelo (PC do B/SP), querem expulsar as bruxas americanas e dedicar o dia todo à lenda nacional.

Nessa luta, como em todas as outras, a resistência é o lado mais fraco. Alguns dos fatores para essa diferença de poder são, obviamente, o poderio econômico americano e sua indústria cultural que por meio de Hollywood exporta seus costumes e sua cultura para todos os lugares do mundo. Inclusive o Halloween, inclusive para o Brasil. Contudo, muitos esquecem é que esse não é o único fator. A diferença de poder entre o saci e as bruxas reside também na forma com a qual cada um dos povos se relaciona com o seu folclore.

Para os anglo-saxões seu folclore é como um imenso baú de recursos de onde autores podem retirar elementos para suas histórias e altera-los a sua vontade. É isso que aconteceu com o mundo mágico dos bruxos de Harry Potter ou com os Vampiros de Crepúsculo ou de Anne Rice. As lendas anglo-saxãs estão em um constante reaproveitamento e reciclagem e, portanto, sempre atualizadas e nas mentes das pessoas.

Enquanto para nós as lendas já são histórias contadas. Terminadas. Fiéis a suas raízes, mas estagnadas. Nossas lendas continuam ligadas a um Brasil rural, enquanto agora a maioria de nossa população é urbana. Fazer trança em crina de cavalo é uma travessura que não se encaixa no Brasil de hoje. O saci precisa de novas travessuras.

Não me entendam mal, nessa luta, estou do lado da resistência cultural, só acho que a estratégia de batalha é errada. As lendas não vivem de festas, políticas culturais ou de projeto de lei, mas sim de histórias.

sábado, 31 de outubro de 2009

Síndrome de Wendy

por B. F. Teixeira

Ele goza. Eu não.

Ele sai de cima de mim. Vira-se de barriga pra cima. Coloca o antebraço em cima da testa. Emite um suspiro bobo de prazer.

Eu baixo os braços rente ao corpo e olho para o relógio: 11h30. Tudo – se é que posso chamar de tudo – entre nós começou às 11h15. Dou uma longa inspirada de tédio. Não devia, mas resolvo perguntar:

“Quantos anos você tem?”

16”.

Eu jamais devia fazer uma pergunta cuja resposta eu não queira ouvir. No fundo da minha mente, um ruído: eu atingindo o fundo do poço.

Ele me olha e sorri com o olhar de realização de quem acabou de passar de fase em um jogo de Playstation. E eu, eu sou o bônus.

“Você quer outra? Quer dizer, vocês podem... aquela coisa de orgasmos múltiplos e tal...”

Pelo menos é prestativo.

“Não”.

"Tem certeza?”.

“Sim. Estou indo já”.

Levanto. Começo a me vestir.

“A gente se vê por aí”

“É... a gente se vê...”

Abro a porta. Súbito estou envolta novamente pela festa. Adolescentes bebendo e dançando por todo o lugar. Preciso achar a minha adolescente. Dou um giro em busca de minha sobrinha. Não encontro. Encontro apenas um pequeno grupo de garotas bêbadas ao redor de uma batida de frutas.

“Do que é essa batida?”

“Pêssego”

“Que seja”

Tomo a batida no gargalo da garrafa Pet. As meninas já tomaram quase tudo mesmo. Enquanto o líquido doce desce, desejo que a vodka estivesse pura, para que queimasse minha garganta. Afinal, já atingi o fundo do poço mesmo...

Saio da casa. Lá fora, encostada em meu carro está minha sobrinha. Pergunto-me o que aconteceu. Com certeza brigou com o namorado... Deve tê-lo visto olhando para outra.

“O que aconteceu?”

“Você ainda pergunta?”

“Não devia perguntar?”

“Você não devia trepar com meu namorado!”

Puta que pariu! A coisa é pior do que eu pensava. É verdade o que dizem sobre as coisas sempre poderem piorar. Não sei o que dizer, então, olho para o chão e dou outra golada na batida desejando, mais uma vez, que não fosse tão doce.

“Eu não sabia”

“Você devia me trazer na festa. Não entrar e dar pra qualquer um. Especialmente quando esse qualquer um é meu namorado! Olhe ao seu redor, você vê alguém da sua idade? Vê o quanto está sendo ridícula?”

Sentir-se patética, saber que é patética, é uma coisa. Agora, ouvir isso da boca de sua sobrinha de dezesseis anos é muito pior.

“Desculpe”

“Não

Ela se levanta e começa a andar.

“Onde você vai?”

“Embora”

“Entra no carro. Eu te levo”.

“Não quero mais nada de você. Vou a pé”

“Ah! Você vai andar a Zona Sul inteira?”

“Eu vou de ônibus”

“Larga de ser teimosa e entra no carro!”

Como eu vim parar nessa situação ridícula? Como uma mulher como eu se submete a uma coisa dessas?

* * * * *

Os dias terminam como começam. È o que sempre diz minha mãe. Um dia que começa errado não pode terminar certo. Não adianta tentar conserta-lo. Um dia, para ser bom, deve começar bom. Simples assim. E hoje começou comigo e com Jonhattan na cafeteria. Ele estava quieto. Fumando. Totalmente quieto. Absolutamente quieto. Achei estranho. Jonhattan falava bastante. Quase sempre sobre si mesmo. É um daqueles tipos egóicos que gosta de falar sobre o que acha, o que faz, o que compra – é até um pouco superficial. Na verdade, bastante superficial. Mas, é melhor do que aqueles tipos calados, de olhar perdido, que se pensam como profundos.

Ele alternava entre tragadas e goles no café expresso longo. Acompanhava a fumaça com o olhar. Eu sabia que havia algo errado. Havia algo que ele queria me dizer. Por isso, havia me convidado para tomar café. Goles e tragadas eram apenas meios para protelar.

“Algum problema”, arrisquei perguntar. Se tinha que acontecer, que acontecesse logo.

“Na verdade, tem”.

“Qual é?”

“Eu simplesmente não te quero mais”.

Filho da puta! Ele acha que é assim. Me paga um capuccino, cita REM e está tudo acabado.

“Assim? Só isso?”

“É”

Filho da puta!

E foi assim. Realmente foi assim.

Nós terminamos o café, pagamos a conta – na verdade, ele pagou – levantamos e seguimos caminhos separados. Andei até a minha casa, ele até a dele. Passei em uma padaria para comprar cigarros. O dia transcorreu enquanto eu fumava deitada. Observando a fumaça subir, se espalhar e sumir. A história da minha vida amorosa

Num determinado momento, já há muito havia perdido a noção do tempo, o telefone toca:

“Tia, preciso de uma carona. Preciso que alguém me leve a uma festa”

* * * * *

Ela entra no carro emburrada e bate a porta com força, fazendo pirraça, fazendo birra. Não tem mais idade para isso, mas no momento, quem sou eu para criticar.

“Você não deveria foder com o meu namorado”

Mas fodi.

“Você não deveria entrar na festa”

Mas entrei.

“Você não deveria se comportar como uma adolescente”

Mas, às vezes, me comporto. Sim, eu, às vezes, mulher mais do que feita, me comporto como uma estúpida adolescente.

“Você não devia beber tanto”.

Mas, eu bebo. Faz parte do comportar-se como adolescente.

Minha sobrinha é como toda a adolescente. Um momento de esperteza e, quem sabe até iluminação, ilhado por um mar de escrotice. Uma verdadeira pentelha.

“Tem essa tal de lei seca”

Puta que pariu!

O policial acena para que eu pare. Enquanto paro o carro, imagino o que vou dizer ao poço de estabilidade, segurança e responsabilidade familiar que é minha irmã. Nenhuma idéia boa o bastante me ocorre. Talvez, porque não existam idéias boas a serem tidas nesses momentos.

“Documento, por favor”

“Ela está bêbada”

Biscatinha, quer mesmo andar a zona sul inteira.

“Documento, por favor” – o guarda ignora como uma brincadeira adolescente

“Não, é sério, ela está bêbada”

Dessa vez, a biscatinha é mais convincente.

“É.....”

Ela quer mesmo ir andando. Subestimei o comprometimento com o meio ambiente da nova geração.

“A senhora sabe que eu devia prender você e o veículo...”

Espero que a pentelha interrompa o policial com um “Você não pode deixá-la ir”. Mas, não.

“... mas, há um hotel há duas esquinas daqui. Se as senhoras ficarem por lá, pela noite, não oferecendo risco a vida de mais ninguém e nem a de vocês, por mim, está tudo certo”.

Me pergunto se ele me achou bonita ou se ganha um por fora do hotel. Se me achou bonita, já gastei minha dose vadia por hoje.

“Ta bom”, sem opções, concordo.

“Eu acompanho as senhoritas”

O guarda entra em seu carro e nos guia lentamente até o hotel. Nos deixa lá, cumprimenta e volta para o seu posto. Realmente, não queria nada de mim. Deve ter um acordo com o dono do hotel. Descemos no hotel e a pentelha volta logo a disparar:

“Achei que você ia dar pra ele pra conseguir se livrar dessa”.

Palavras de minha irmã vêem a minha mente: você só é contra os tapinhas na criação de crianças por que não as tem. Ela está certa. Se Luana fosse minha filha agora, acertaria ela com um belo tapa na boca. Com as costas da mão. Na esperança de que o solitário que porto cortasse seus lábios.

Entramos no hotel em passos rápidos para escapar da fria garoa da madrugada paulistana. Minha adolescente na frente, eu atrás.

Vou direto ao balcão enquanto a jovem fica examinando o saguão de entrada. Pequeno. Um balcão. À esquerda, seis poltronas viradas uma em direção as outras, um monumento à época em que as pessoas ainda conversavam em saguões de hotel, um monumento à época em que as pessoas ainda conversavam. E próximo a escada, em um suporte daqueles baratos, a máquina que tornou todas as conversas de saguão de hotel obsoletas: a TV.

“Um quarto para duas, por favor”.

“Ah nos temos o 207”. , ele coloca a chave sobre o balcão enquanto pede meus dados pessoais.

Começo a preencher a ficha e ,só então, ela percebe a verdade terrível.

“Eu não quero ficar no mesmo quarto que você”.

“Eu não vou pagar quartos diferentes”

“Então vou ligar para minha mãe vir me buscar”. Tira o celular da bolsa.

Arranco-o de suas mãos num segundo e atiro-o contra parede. Os componentes sofisticados e minúsculos separam-se e quebram-se facilmente. Giro-me em sua direção, com o dedo em riste. Grito:

“Chega! Chega de querer foder comigo! Chega de bancar a pentelha! Eu não estuprei ninguém! Ele quis me comer! Ele quis me comer!”

Seus olhos marejam. Ela pega a chave de sobre o balcão e sobe correndo as escadas.

Não vou atrás.

Do saguão, escuto a porta do quarto bater.

Olho para o rosto perplexo do atendente do hotel.

“Adolescentes”.

Ele ri um sorriso amarelo. Pensando, provavelmente, nas peças de celular que terá de limpar do chão.

Vou até as cadeiras onde outrora grandes diálogos devem ter sido travados, grandes amores devem ter nascido, grandes causos devem ter sido contados. Sento ali e penso. Afundo meu corpo na poltrona e projeto minha mente sobre o que fazer.

Eu não vou dormir em uma poltrona nem tão confortável. Depois de toda essa confusão com a polícia, nem estou mais tão bêbada assim. Não vou pagar outro quarto, meu cartão de crédito está estourado. Não vou tentar favores sexuais, minha cota de vadia também está estourada. Só me resta uma alternativa. Eu paguei por um quarto duplo e vou usar a minha parte. Ele vai ser um quarto duplo.

Levanto-me decidida. Ponho-me a subir a escada até encontrar o 207. Bato na porta.

“Vá embora, Tia”

“Eu paguei por isso, tenho direito de usar”.

“Fica pelo meu celular que você quebrou”.

“Vou te dar outro telefone, mas agora preciso que você abra a porta, preciso dormir”

“Não. Durma aí fora”.

“Você não está sendo madura o bastante para sua idade”.

“Olha quem fala? Olha quem fala? A mulher que vai em festa e transa com adolescentes”.

“É isso mesmo! E se você não quiser terminar como eu, é melhor começar a crescer agora! É melhor começar a tomar suas atitudes adultas já! Que tal começar por abrir a porra dessa porta!”.

Silêncio.

Um incômodo silêncio recai sobre os dois lados da porta. Coloco minhas costas sobre a porta e vou descendo lentamente, até sentar-me no chão. Já sem esperanças. Imaginando como seria o sono na poltrona do saguão, quanto teria que pagar por ele ou com o que teria que pagar por ele.

Súbito a porta se abre.

“Entra”

Entro olhando para o quarto nem tão bem arrumado e para as paredes nem tão bem pintadas. Pensando se não fui muito dura com ela ou comigo.

“A cama maior é minha”

Tudo bem. Eu concordo.

Deito em minha cama e ela não é tão confortável assim. Penso que a outra também não deve ser.

Um estranho silêncio toma conta do ambiente. Luana apaga as luzes. O silêncio que antecede o sono toma conta do ambiente, nos duas deitadas, uma em cada cama, o silêncio, porém, é quebrado por Luana:

“Como ele é”?

“Quem?”

“Meu namorado”

“Você o conhece melhor que eu”

“Na cama. Na cama só você o conhece”

“Ele era virgem?”

“Sim”.

“Parecia mesmo”.

“Então, como ele é?”

“Virgem. Perdido. Não é dos melhores, mas é prestativo, ao menos”.

As duas riem.

“E o....”

"E o, o que?”

“O pinto dele”.

“O que quer saber sobre o pinto dele?”

“É grande ou pequeno?”

“É pequeno. Mas, vai dizer que você não sabia?”.

“Eu sabia. Eu sentia quando dávamos uns catos mais nervosos. Parecia um pequeno botão de rosa me cutucando”.

As duas gargalham.

“Você não perdeu muita coisa. O cara come qualquer vadia, goza rápido e tem o pau pequeno”.

As gargalhadas aumentam.

“No final, eu vou ter que acabar te agradecendo”.

Mais gargalhadas.

Respiro fundo. Olho para o teto nem tão bem pintado. Respiro fundo. Procuro por ar. Deixo o silêncio reinar por alguns minutos.

“Sabe, você está certa sobre uma coisa. Eu vou procurar um terapeuta. Não posso continuar assim... devo sofrer de alguma forma de complexo de Peter Pan... ou melhor, de Wendy....”.

Rio.

“O que você acha?”

Sem resposta.

Minha adolescente adormeceu. Levanto. Observo. Ela dorme com uma expressão feliz no rosto. Cubro-a com o lençol nem tão macio. Volto a minha cama. Talvez, minha mãe estivesse errada, um dia poderia terminar diferente do que começara. Um dia que começara ruim podia terminar bem.

Olho no relógio: 00: 47.

Viro de bruços na cama nem tão confortável, não mais desejando que minha mãe esteja errada.

Pelo menos não por hoje.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Frações de “Mea Culpa” no Pessimismo em Torno da Política Brasileira


por Denis Barbosa Cacique

A incômoda sensação de impotência frente aos problemas do Brasil é um sentimento cada vez mais comum. Sua proliferação está relacionada a uma série de fatores, em especial, ao aparente fracasso de ideais como democracia e liberdade, dentre outros. O que acontece é que, por hábito, nos fiamos em algumas idéias de modo irrestrito e irrefletido. São muitas as razões pelas quais fazemos isso. Pode ocorrer, por exemplo, de considerarmos uma afirmação como sendo verdadeira simplesmente por ela ter sido feita por uma autoridade, como um professor ou um pastor, por exemplo. Há diversos outros motivos pelos quais agimos assim, mas não vem ao caso analisá-los aqui. O fato é que estamos cada vez mais céticos quanto ao nosso poder de transformar o Brasil por meio desses ideais. Pensemos em sobre como isso acontece.

Esse mal-estar da impotência frente aos problemas da humanidade possui muitas formas. No mais das vezes, ele se nos apresenta sob o aspecto da desesperança. Neste caso, é como se caminhássemos há muito tempo por uma longuíssima trilha, mas, sem termos conseguido chegar aonde queríamos, começássemos a questionar o caminho escolhido. Analogia à parte, não se trata, é claro, de uma desesperança generalizada. Todos nós sabemos que a esperança é fundamental para a vida. Quando nos alimentamos, por exemplo, o fazemos com a expectativa de que o alimento saciará nossa fome e nutrirá nosso corpo. Neste caso, a esperança, chamada ali de “expectativa”, é muito bem fundamentada: durante toda a vida, experimentamos a cessação da fome e a nutrição do corpo se seguirem ao ato da alimentação; e isso faz com que esperemos efeitos semelhantes sempre que nos alimentarmos. Noutros casos, no entanto, nossa experiência de vida vem nos mostrar que ter esperança em certas coisas é tolice. É o caso da política, pensada , aqui, como a administração institucionalizada das cidades, dos estados e da nação brasileira como um todo.

Contra a nossa esperança, pesam fatos como a absolvição de Edmar Moreira, o “deputado do castelo” da acusação de uso indevido de verba indenizatória em benefício próprio. Dá-se o mesmo no caso da afirmação do também deputado, Sérgio Moraes, de querer que a opinião pública se lixe. Isso sem falar dos mais de 600 atos secretos que movimentaram um sistema de nepotismo que beneficiou amigos e parentes de senadores durante os últimos quinze anos. Acusado de autorizar alguns desses atos, uns dos quais para a contratação de seus parentes, José Sarney foi absolvido integralmente pelo Conselho de Ética. No Senado, a discussão em torno do caso foi marcada por violentos bate-bocas. Num deles, Fernando Collor disse a Pedro Simon: “antes de citar o meu nome desta tribuna, vossa excelência engula, digira, e faça dela [a tribuna] o uso que julgar conveniente”. Noutra discussão, Renan Calheiros e Tasso Jereissatti baixaram ainda mais o nível. Acusando-se mutuamente de corrupção, esbravejaram coisas do tipo: “não aponte esse dedo sujo para cima de mim”. Diante do clima de guerra instaurado no Senado, Demóstenes Torres realizou um discurso no qual sintetizou muito bem a imagem dos políticos junto à maioria da população brasileira. Nesse discurso, afirmou: “chegamos a um ponto extraordinariamente baixo”. E questionou: “para que existe o Senado Federal? Para que existe o Congresso Nacional? Somos um bando de “fouchés” [oportunistas], figuras menores (...) que vêm aqui com o único objetivo do enriquecimento pessoal e não para defender os interesses da sociedade (...). Não foi o Senado que apodreceu (...). Foram os Senadores que apodreceram, alguns deles, que não têm condição de honrar esse nome, que não têm condição e nem espírito... (...) Sem espírito público não se pode sentar numa cadeira dessa [do Senado]”.

Mas o pior de tudo não é a falta de espírito público dos políticos. Passadas pouco mais de duas décadas da derrocada do governo militar, já faz um bom tempo que é o povo que elege seus representantes políticos. Graças à democracia e à liberdade, é, na verdade, sobre nós que recaem a culpa e a pena pelos crimes que os políticos cometem. Nesse sentido, o sentimento de desesperança nada mais é do que a percepção crítica da nossa incapacidade de melhorar o país mediante o exercício da democracia e da liberdade.

...Se um dia readquiriremos a confiança na política? É difícil prever. Mas talvez esse mal-estar nos faça bem,a começar pela instauração, em nossas mentes, da dúvida sobre em que consiste, exatamente, nossa “mea culpa”.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Como Superar o Choque de Gerações



por Denis Barbosa Cacique

Eu nunca serei realmente bom em muitas das coisas em que meu pai é perito. Mesmo quando eu passar dos cinqüenta e tiver agrisalhado os cabelos, ainda serei inepto para o vocabulário e os segredos da mecânica automobilística, para as longas e cansativas viagens feitas atrás do volante dum Opala marrom, para os cuidados mínimos da jardinagem, para a sabedoria despretensiosa do trabalho no campo, para a força exigida pela construção civil e para a inventividade empregada em pequenos, porém valiosos, reparos residenciais. Faz alguns anos, ele escalava uma árvore e descascava laranjas lá em cima. Isso, sem romper a casca, machucar a fruta ou se desequilibrar. Ele não temia a altura. E o vento seco e cortante tiritando as folhas das arvores de Lagoinha, pequeno vilarejo do município de Salinas, situado na região norte do estado de Minas Gerais, não lhe infligia o menor tremor. Quanto a mim, com ou sem vento, em Campinas ou em Salinas, não subo em árvores, menos ainda com uma lâmina entre os dentes e meia dúzia de laranjas numa dobra da camisa. Em resumo, embora bastante parecidos no acanhamento mal disfarçado e na esguiez do corpo, meu pai e eu somos bastante diferentes em quase tudo o mais. Somos dois universos regidos cada um por suas próprias leis naturais, não obstante possuirmos sangue e trejeitos iguais. Eis, portanto, um choque de gerações? De modo algum.

A existência de diferenças entre gerações é inevitável. Não bastasse o fato de que cada pessoa é, com rigor, um indivíduo psicológica e geneticamente singular, há de se considerar ainda que a sociedade atual, globalizada, informatizada, de livre mercado e industrial, encontra na correnteza cada vez mais rápida das mudanças seu modelo peculiar de reprodução. É por meio de pequenas e sucessivas transformações ocorridas no interior de si mesma que a sociedade contemporânea segue adiante. Não é por acaso, portanto, que as ultimas décadas testemunharam significativas transformações de valores morais, de desejos de consumo, de deveres e de direitos, de habilidades e técnicas de produção, de moda, e de conhecimento sobre o mundo e os seres humanos. Nada mais natural, portanto, que as gerações atuais sejam radicalmente diferentes umas das outras. Tanto é que a noção contemporânea de geração sofreu um achatamento se comparada ao que significava até pouco tempo atrás. Mudou a noção de tempo. Já não se calcula mais que entre uma geração e outra haja 25 anos, e sim assustadores dois ou três. Uma prova? A geração Twiter considera a geração Skype ultrapassada, e esta, por sua vez, pensa o mesmo com relação à galera do Messenger, software que aperfeiçoou o empoeirado ICQ, que havia sido uma revolução se comparado às sempre lotadas, pouco seguras e totalmente desprovidas de privacidade salas de bate-papo. No Brasil, entre uma ponta e outra da evolução e popularização dessas formas de conversação pela Internet há, certamente, não mais do que 15 anos. E, no entanto, o número de micro-gerações de internautas no interior dessa década e meia talvez já se aproxime de 10. Como têm de conviver essas gerações entre as quais até mesmo a grafia da onomatopéia do riso mudou radicalmente?

Às vezes, eu lamento o fato de não poder falar com meu pai por meio do Messenger, mas isso não nos impede a conversa. Não raramente, passamos longos minutos ao telefone repetindo assuntos e frases decoradas. O tema quase sempre não importa. Noutras vezes, ainda melhores, nos falamos pessoalmente, durante uma caminhada pelo pátio dum leilão de veículos, que freqüentamos sob o pretexto de fazer um bom negócio. Mas estamos sempre duros, eis a verdade. E o nosso único bom negócio, tenho de admitir, é encontrarmos um ao outro sob o Sol agradável das manhãs de Sábado. Nesses momentos, ele pode até lamentar minha absoluta ignorância quanto a carburadores ou sobre virabrequins, mas ainda assim continuo sendo convidado para acompanhá-lo em leilões. Minha ignorância é a deixa para que ele se aproxime e me explique pela enésima vez o subir e descer dos pistões e a função das velas de quatro pontas. Eu não entendo muita coisa. Mas ele explica o que for preciso, sempre que for preciso, como se fosse a primeira vez. E se meu carro morre de repente, no meio do caminho, depois da meia noite, ele atende ao telefone disposto e, poucos minutos depois, prestativo, aparece com uma caixa de ferramentas e faz o bicho funcionar.

Renato Russo tinha toda razão quando cantava que, embora os filhos se queixem da incompreensão dos pais, eles mesmos, por sua vez, não entendem os pais. O problema real nos conflitos entre pais e filhos, entre uma geração e outra e entre as pessoas em geral quase nunca se deve à mera existência de diferenças. Numa calçada, a mera presença de um desnível não provoca por si só um tropeço. Para que o acidente aconteça, é preciso pressupor outras coisas, em especial a desatenção do transeunte. Mas um sujeito atento tira proveito do desnível, faz dele degrau, e dá um passo adiante. Semelhantemente, é assim que deve ser entre os pais e filhos que não se dão bem, sob alegação do famigerado choque de geração. É bem verdade que os desníveis são inevitáveis, mas os tropeços não o são. As famílias seriam muito mais felizes se seus membros tivessem, ao menos por um instante, a grandeza de abandonar suas próprias convicções em benefício do ponto de vista alheio. Esse simples gesto de grandeza é capaz de verdadeiros milagres. Ele evitaria guerras, eu acredito. E por que, então, não reataria o maravilhoso laço entre pais e filhos, visível já nos primeiros meses de gestação, na feição abobalhada de um pai que acaricia a barriga da mãe ou espreita de modo risível as imagens confusas de uma ecografia?

As diferenças entre pais e filhos quase sempre são inevitáveis. Eles se frustram mutuamente e é natural que seja assim. Filhos de palmeirenses se tornam corintianos. Alguns pais que curtem carros têm filhos que preferem bicicletas. Pais pagodeiros descobrem que seus filhos ouvem Pink Floyd e The Doors no mp3. Pais conservadores às vezes têm filhos homossexuais. Não raramente, filhos protestantes têm pais espíritas. A vida é assim. A liberdade pessoal leva cada um aonde quer. Por conta disso, os pais e filhos que desejam verdadeiramente ser felizes precisam se esforçar por abdicar do amor próprio que lhes impede validar os pontos de vistas um do outro. E os filhos, principalmente, precisam compreender com urgência o simples fato de que pais são singulares. Nem sempre é possível esperar o desaparecimento das diferenças para aproveitá-los bem. A vida é fugaz. Conheço pessoas que se tornaram órfãs muito cedo, assim como conheço pais que perderam filhos que mal haviam deixado a adolescência ou sequer chegado nela. E aí? Rostos pálidos e frios não sorriem. E o tempo nunca volta. A memória ajuda, mas contanto que tenha o que lembrar.

Eu desejo aos pais, filhos e filhas que prestigiam o Caism Notícias uma longa caminhada por cima dos degraus das gerações.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

O Circulo dos Terapeutas


No post anterior, Bruno havia proposto a seguinte troca: eu escreveria um conto e ele um filosofema simples.

Pois bem, minha parte foi feita. Eis meu conto:


O CIRCULO DOS TERAPEUTAS


por Denis Barbosa Cacique

Dr. Roberto da Conceição Martins, ou simplesmente “Beto”, não fazia parte do grupo de pessoas que se metem na especialização em psiquiatria movidos pela louvável convicção moral quanto ao dever de ajudar aos outros. Nem ele, nem eu. Ainda que fosse o caso, a ilusão teria durado muito pouco, talvez não mais que um semestre. Convicções morais não costumam resistir ao escrutínio filosófico que precisa ser promovido pelos desbravadores da mente humana, sobretudo os mais jovens deles. O pior cego, ensina o provérbio, é aquele que não quer ver. Mas Beto e eu víamos o bastante. Nossa única convicção moral tinha os olhos voltados para dentro e fitava nossas próprias dores, jamais as do mundo. Tínhamos, então, uma tola esperança de que um dia encontraríamos cura, talvez num livro velho e empoeirado da biblioteca da faculdade de ciências médicas. Mas a cura definitiva só vem amanhã, sempre amanhã, ou depois de depois de amanhã, nos livros das próximas edições, ad infinitum. Pois o tal livro, real apenas por entre as brumas da esperança, parece ainda não ter sido escrito, e, quiçá, sequer terá nascido o seu iluminado autor. É claro que demora certo tempo até que se comece a desconfiar que, por trás das brumas da esperança, nada há além de um gigantesco espelho convexo. Beto e eu, por exemplo, ainda não tínhamos considerado seriamente essa possibilidade quando ingressamos no curso de psiquiatria movidos pela necessidade urgente de salvação. A salvação haveria de ser sofistica. E a psiquiatria é sofisticada. Um leva ao outro. Xeque-mate! Futuro do pretérito. Futuro condicional. Mas a salvação é como a verdade de Drummond, cuja porta estava aberta, mas só deixava passar meia pessoa de cada vez:

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

Além de colegas no curso de medicina, Beto e eu morávamos no mesmo lugar, uma república construída nos arredores da Unicamp e na qual ainda moravam outros tantos alunos. O pequeno prédio tinha três andares, com quartos e banheiros individuais, mas com uma lavanderia e um refeitório coletivos. As refeições estavam incluídas no aluguel dos quartos. Já as roupas, lavávamos nós mesmos, contanto que encontrássemos ao menos uma das três lavadoras disponível. Eu costumo lembrar e, às vezes, até mesmo sonhar, não sei ao certo o porquê, com os desenhos que se formavam por meio da união dos azulejos da lavanderia. Minha imaginação bem que poderia ser capaz de produzir diversos outros objetos com tamanha fidedignidade. Alguns deles certamente seriam muito mais interessantes do que aqueles azulejos. Que tal as circunferências irregulares de Beatriz, demarcando as periferias em torno de seus bicos rijos, porém macios, e com sabor de perfume caro? Mas ela, a memória, insiste em me mostrar o desenho dos azulejos, em especial uma imitação grosseira da pintura de Michelangelo no teto da Capela Sistina, a qual retrata Deus e Adão com os braços estendidos um em direção ao outro.

Entre goles de vodka, enquanto esperávamos as máquinas encerrarem seu chacoalhar entediante, Beto aponto para o azulejo e disse de um jeito mole e cômico:

“Eis aí o sonho de todo homem.”

“Adão nu?” - perguntei-lhe sem conter o riso.

“Não.” – respondeu ele – “Adão nu é o sonho de alguns homens, de fato, mas não o de todos eles. Eu, por exemplo, prefiro a nudez parcial da enfermeira Deborah, suada sobre a mesa do consultório, grunhindo com os olhos, espalhando os formulários pelo chão, e olhando apavorada vez ou outra para a porta meramente encostada do ambulatório. Á, se alguém sabe de nós, estamos fritos. Mas é tão bom. E eu a amo.”

“Aonde você quer chegar, misturando Deus, Adão e Deborah?”

“Eu teria ido direto ao ponto, não fosse sua incontrolável mania de socar piadas em tudo. É difícil ter uma conversa séria com você, sabia?”

“Sim. Sabia. Sempre soube. O álcool agrava um pouco essa tendência, mas a predisposição para a idiotice me é totalmente natural, embora às vezes passe do ponto e, às vezes, despercebida. Mas você dizia, apontando para os azulejos, que esse é o sonho de todo homem. Aonde quer chegar com isso?”

“Á, sim, idiota. Deus e Adão, a um centímetro de tocarem seus indicadores, representam a salvação para toda humanidade, o remédio para grande parte das nossas angústias. É isso.”

Mais vodka. As máquinas continuavam chacoalhando. Entrou uma moça. Botou suas roupas na ultima lavadora disponível e saiu apressada, prevendo, certamente, que os bêbados lhe importunariam. Beto continuou:

“Não sei como lhe explicar. Na verdade, talvez não seja preciso. Você sabe do que estou falando, só que me quer ver travar a língua, para depois me denunciar numa roda de amigos. É assim que você arruma assuntos, constrangendo aos outros. Mas tudo bem. Eu não me importo. Não tenho vaidades.”

“Á, sim, você tem. Não seja cínico. É o sujeito mais vaidoso que conheço. Beira o feminino, até. Anda sempre engomado aonde quer que vá. Engraxa os sapatos diariamente. Faz a barba todas as manhãs. Não fica mais de três semanas sem aparar o cabelo. E tem sempre esse hálito exagerado de menta, exceto quando toma uns goles, é claro.”

“Elas gostam da menta, cara. Já te disse. E gostam também de sapatos lustrados, suéteres macios e cheirosos, barba feita, cabelos penteados e unhas aparadas. Você bem sabe que é difícil manter a higiene quando se está metido num maldito plantão de 24 horas. Ó, pobres doentes do transtorno obsessivo compulsivo. Se soubessem que lhes toco os ombros com as mesmas mãos de carícias de um sexo recente, e que não há torneiras entre um e outro, me agarrariam o pescoço com toda força e me lançariam ao chão num só golpe. Eu desmaiaria com o impacto da cabeça no piso recém encerado do hospital, e mesmo assim eles manteriam o estrangulamento até que meu corpo estrebuchasse sob eles, e um fio de saliva, tendo fugido por entre meus lábios, lhes tocasse de leve um polegar. Então eles levantariam enlouquecidos e correriam pelos corredores do hospital até encontrarem um banheiro onde pudessem se meter. Lá dentro, lavariam e secariam as mãos por quase uma hora, até que se acabassem o sabonete líquido e os papeis toalhas. Então eles abririam a porta do banheiro e, tranquilamente, tomariam o caminho de volta até o balcão do ambulatório. Mas estariam descamisados, porque suas camisetas, sujas nos ombros do esperma do doutor, tirariam do corpo com nojo e, segurando-as com as pontas dos dedos, jogariam no chão do banheiro. Aí, então, eles chegariam seminus ao balcão do ambulatório e aguardariam ser atendidos por um terapeuta que tenha feito voto de castidade.”

“Fique tranqüilo quanto a isso, Beto. Eles sequer desconfiam que você tem bolas. Se as pessoas se dessem conta da humanidade dos terapeutas, abandonariam profundamente desiludidos os tratamentos, e dariam um jeito de conseguir receitas falsas para comprar as drogas de que precisam. Para que a terapia funcione, é preciso acreditar que o médico possui algo de sobre humano. É realmente preciso endeusá-lo para acreditar que, numa consulta de 15 minutos, ele daria conta dos problemas que as pessoas arrastam durante toda a vida.”

“Então você quer dizer que somos todos picaretas?”

“Não exatamente, cara. Somos ensinados que a doença mental tem um componente biológico que responde a tratamento médico, assim como um diabetes ou uma doença cardíaca. Muitas vezes, porém, a situação não é direta e a medicação não é o problema. Que remédio cura a saudade de alguém que se foi, por exemplo? Na maioria das vezes, Beto, a vida é que é o problema. E é aí que os terapeutas conseguem seu suado dinheirinho, esticando inutilmente um tratamento por longos anos, fazendo o cliente acreditar que sentar o cu no divã uma vez por semana irá mudar para melhor o sabor da vida. Mas tudo não passa de uma enganação. Dá-se um jeito, com as palavras, de mudar o ponto de vista das pessoas. E funciona. Um dia elas aparecem sorridentes no consultório e pedem alta. Aí o terapeuta estica o tratamento por mais uns meses, sob a alegação de que o tratamento não pode ser interrompido abruptamente, e não pode mesmo, e libera o cliente das seções de sofismas, falácias e retóricas. O cara está feliz, é o que importa. Lembra do Cypher, do Matrix? Ele fez um pacto com os agentes da Matrix. Ele trairia seus colegas do mundo real caso os agentes fizessem dele um homem rico e famoso dentro do mundo ilusório da Matrix. De que importa saber a verdade se ela não traz felicidade? Feliz daquele que sabe aquietar o pensamento, e ser, desse modo, feliz, alimentando-se diariamente de um banquete de terabites.”

Fez silêncio por uns minutos. Uma das máquinas completou a lavagem. Era a minha. Girei os botões. Programei para centrifugar e voltei a beber. Beto retomou, enfim, seu raciocínio:

“Também estão felizes as pessoas que acreditam nisso.” – disse ele apontando para os azulejos – “Poucas respostas solucionam a angústia humana como o faz o cristianismo. A angústia humana, você bem sabe, o medo da morte, as saudades, os arrependimentos, as privações, as frustrações sentimentais e a fragilidade do corpo.”

“Mas o cristianismo tem seus problemas.” – contestei – “Aliás, para mim, toda manifestação de fé tem seus problemas. Sempre é possível apontar uma contradição ou outra, ou ainda uma verdade que se desfaz com os avanços do saber. A chuva não tem nada a ver com o martelo de Thor, por exemplo. E, além disso, depois que agente se acostuma à metodologia científica, fica quase impossível ter fé. Agente fica mais exigente. Passa a requerer testes estatísticos. E busca por provas, além de referências em teses e em artigos. Mas não há experimentos envolvendo grupos duplos cegos, a fim de verificar a eficiência da sagrada eucaristia. Aliás, para quê ela serve mesmo?”

“Não importa o porquê agora. O fato é que você parece não ter lido David Hume. Até a ciência empírica se assenta, em ultima instância, nos alicerces da fé. A diferença é meramente probabilística. Você deveria considerar ao menos um pouco a filosofia humeana.” – foi a vez da máquina do Beto interromper a lavagem. Ele a programou para centrifugar e recomeçou sua explanação de onde havia parado – “Veja, a idéia de Deus como origem ultima de tudo que existe é, a meu ver, a melhor explicação que temos para a origem do universo. As teorias do Big Bang e da Evolução Natural são apenas formulações metafóricas sofisticadas do criacionismo. O problema é que eu não sou cristão. E essa pintura nos azulejos, embora eu reconheça nela a salvação para as angústias da humanidade, é apenas meia verdade para mim. Muitos dos meus pacientes são cristãos. E, às vezes, parte dos seus tratamentos consiste em fazê-los se apegar à fé e aguardar pacientemente os seus efeitos possivelmente placebo. Enfim, eis uma meia salvação, porque ela salva meus pacientes, mas não a mim. É como aquele poema de Drummond sobre a verdade, conhece?”

“Não.” – lhe disse resignado.

“Mas deveria.” – censurou, ele.

“Beto, você é o bêbado mais pedante que eu conheço! O mais lúcido também. Pro inferno sua erudição e sua lucidez inabalável. Pro inferno!”

“Não basta que eu fale mole e troque os “esses” pelos “zes”?” – ele me perguntou entre gargalhadas.

“Não. Eu quero vê-lo tropeçar nas idéias e dar de cara com o chão. E que fique aí esticado, beirando o coma alcoólico, encharcado pela própria urina, com um pé descalço, a camisa pra fora da calça, o cabelo despenteado, a barba por fazer, e as barras da calça sujas de lama. Eu quero que você me dê uma boa piada. Basta à sua filosofia amadora e entediante!

Poucos dias depois daquela conversa de bar, mas travada fora de bar, encontrei Beto aos berros na mesma lavanderia. Estirado no chão e com a cabeça encostada desconfortavelmente na parede, ao invés de uma poça de urina, havia sob ele uma mancha crescente do sangue que escorria timidamente do seu pulso esquerdo. O corte era raso demais para matá-lo. Mas profundo o bastante para causar-lhe dor e impressionar o aglomerado de curiosos que se formou rapidamente à sua volta. E ele gritava, fazendo com que o hálito de menta misturada com álcool e marijuana saltasse de sua boca e contaminasse o ambiente com o fedor adocicado dos corações partidos. Ele implorava que o salvassem, que chamassem Deborah, que ela visse que ele não podia viver sem sua amada. Era uma cena ridícula, de um sujeito que, caso quisesse, de fato, dar cabo de si, faria como tantos outros alunos de medicina, trancando-se num banheiro do hospital e anestesiando-se em excesso, até a morte. Mas uma coisa era certa, Beto havia encontrado sua salvação no curso de psiquiatria, mas não nos livros, e sim na enfermeira que, tendo entrado em seu consultório, mal fechava a porta atrás de si e lhe despia os seios e o sexo, e se lhe entregava sobre a mesa como café da tarde. E ele estava disposto a morrer por ela, embora, na prática, fosse incapaz a fazê-lo. Na tarde daquele mesmo dia, antes de arranhar o pulso com um bisturi esterilizado, tentou, em vão, subir na caixa d’água da faculdade para ameaçar se jogar de lá de cima. Já a caminho do hospital e com o sangramento do pulso contido, ele me confessou, entre risos e soluço de choro, que não havia conseguido alcançar a escada externa da caixa d’água:

“Quando muito” – dizia ele – “tocava o primeiro degrau da escada, mas sem conseguir me agarrar a ela. Eu sou um fraco.”

Tenho dificuldades para definir uma posição moral sobre o suicídio. Meu trabalho é evitar que ele aconteça, desmotivando aqueles pacientes depressivos que fixam a idéia da morte na imaginação, e assim eu tento fazer. Às vezes tenho sucesso, noutras, não. Certa vez, um sujeito procurou atendimento porque havia ganhado na loteria, mas isso tinha feito com que sua vida virasse às avessas. Antes que fosse premiado com a fortuna repentina, ele estava passando por uma séria crise no casamento. Beirava já a separação. E seu filho, um pré-adolescente de gênio difícil, se afastava cada vez mais dele, chegando ao ponto de chamá-lo pelo primeiro nome, ao invés de chamá-lo de “pai”. Mas o dinheiro mudou tudo. O sujeito se viu, de repente, casado com uma mulher carinhosa e disposta a tudo na cama. Seu filho também mudou o jeito de ser, da água para o vinho. Ia até mesmo presenteá-lo com um poema de autoria própria quando encontrou, no fundo de casa, uma mansão à beira mar, meu cliente pendurado pelo pescoço. Eu recebi a notícia com naturalidade. A fortuna repentina removeu as poucas coisas que, embora penosas, davam sentido à sua vida. Todo mundo quer significado e sentido em suas vidas. Isso requer a possibilidade de fazer escolhas, agir e buscar projetos de uma forma que dê à vida um sentido de propósito e de mérito. Mas, quando não há limites nem restrições àquilo que se pode fazer, então não pode haver conquista, nem senso de realização, e nem, portanto, sentido em viver. Desse modo, Richard Norman matou meu cliente, e eu me dei por satisfeito com a hipótese da perda de sentido, sem remorso pela morte, nem condenando seu laço apertado na corda de nylon trançada. Albert Camus dizia que só existe um problema filosófico realmente sério, o suicídio. O problema, ao que me parece, requer que decidamos se a vida merece ou não ser vivida. Eu não sei a resposta. E, ainda que soubesse, certamente não teria coragem de lançar-me do topo da caixa d’água da faculdade de medicina. Sou tão fraco quanto meu amigo. Meus dedos apenas resvalariam o primeiro degrau e eu logo desistiria, aliviado, de cruzar o rio Estige a nado e sem moedas nos olhos. De qualquer modo, estou longe de definir uma posição quanto ao suicídio. Como pode? Vai ver é assim que me mantenho vivo e confortado. A ignorância é uma proteção. Viva à ignorância e ao medo e à preguiça de saber. Eu digo aos meus pacientes o que precisa ser dito. Soa esquisito. Mas a sisudez e o avental branco os convencem. Faço-lhes minha única real contribuição para a cura, receito uma dose generosa de um antidepressivo eficiente e caro. Não há qualquer segredo nisso. Dane-se a verdade. O juramento de Hipócrates segue imaculado, emoldurado na parede do meu consultório. Mas que verdade? Não há salvação no curso de psiquiatria, a não ser Deborah, que se comoveu com o sangue de Beto e, poucos meses depois, casou-se com ele. A salvação é resignar-se. Eis a verdade.

“Só meia verdade.” – me disse Beto, ao mesmo tempo em que entrava sorridente pela porta do meu consultório. Já fazia muitos anos desde os tempos de faculdade. E a pequena cicatriz no pulso esquerdo ele escondia usando uma camisa de manga comprida. Malha importada, roupa de grife, de muito bom gosto e extremamente cara – “Você não vai sair desse inferno de lugar enquanto não encontrar a verdade inteira, meu caro!”

O inferninho de lugar é uma saleta asquerosa onde eu atendo meus clientes, muito deles de graça, no Centro de Campinas. Fica espremida no 5º andar de um prédio espremido entre outros tantos prédios da Av. Dr. Campos Salles, pela qual carros e transeuntes se espremem uns aos outros até contornarem o antigo fórum, situado na Praça Guilherme de Almeida, largo de engraxates idosos e de desempregados que usam bonés e que levam sempre consigo uma pastinha com vários currículos muito mal redigidos; tendo contornado o fórum, desembocam na Av. Dr. Francisco Glicério ou na Rua José Paulino, e daí para o diabo que os carregue. Eu gosto de lá, da saleta, da praça, da avenida, do burburinho e do suor da cidade. Passo horas debruçado na janela, fitando o ir e vir da multidão que se arrasta pela calçada estreita. Os, chineses, de uns anos para cá, tomaram conta de todo o quarteirão. Todos os comércios são deles. E todos os comércios deles são iguais, lojas de R$ 1,99 nas quais qualquer porcaria made in China custa pelo menos R$ 2,99. Eu entro por uma portinha discreta entre duas dessas lojinhas e subo os cinco andares degrau por degrau. Não há elevador. O prédio é velho e escuro. No mesmo piso do meu consultório, mas um pouco à esquerda, uma meretriz de meia idade e pernas grossas atende seus clientes. Seu urro exagerado não atravessa as paredes grossas que separam nossas salas, mas as contornam, saindo por uma janela e entrando por outra enquanto eu fito os transeuntes e um pombo que vem cagar sobre eles, equilibrando-se no fio de alta tensão que passa a alguns metros abaixo do meu andar. Ele acerta o ombro de um office-boy que andava apressado na calçada, mas que pára a fim de conferir a merda esbranquiçada no seu ombro. Uma moça sai do meu prédio, desvia do office-boy, e atravessa a avenida fora da faixa de pedestre. Sua cintura fina, nádegas arrebitadas e pernas cumpridas despertam a atenção dos homens e a inveja das mulheres na calçada. Um desses homens se distrai com ela. Quando dá por si, quase tromba com o office-boy, ainda parado sob a minha janela, limpando a merda da camisa. O homem que havia se distraído com a moça consegue desviar do office-boy, mas acaba trombando com uma senhora que vinha no sentido contrário da calçada. Cai uma sacola de laranjas. As frutas saem rolando pela calçada, perigosamente ameaçadas pelos passos da turba. A turba é indiferente. Duas laranjas são chutadas para longe. O sujeito se agacha no meio da multidão e vai colhendo tantas frutas quanto pode. Quase lhe pisam a mão. Entrega para a senhora as pouco mais de meia dúzia de laranjas que conseguiu recuperar e lha diz alguma coisa, se desculpando, talvez, pelo esbarrão, e também por não ter dado conta de pegar todas as laranjas. É uma boa senhora. Não guarda rancores. Ela fuça em uma das outras sacolas que carrega consigo e tira de lá um lírio, que coloca cuidadosamente no bolso da camisa do sujeito que a ajudara. O homem agradece e se desculpa novamente. É o que suponho. Não posso ouvi-los daqui de cima. Depois disso, cada um retoma seu caminho. A senhora toma o sentido da Rua José Paulino. O office-boy, perdi de vista. A moça formosa atravessou a praça e desceu pela Av. Dr. Francisco Glicério. Já o sujeito generoso entra pela porta do meu prédio e começa a subir as escadas. É Beto. Psiquiatras são seres humanos. E, enquanto tais, às vezes têm de se ajeitar no divã para ajustar uma frouxidão qualquer nos parafusos da mente. Beto vem aqui tratar um transtorno obsessivo compulsivo evidente há muito tempo em suas idiossincrasias perfeccionistas.

Meu velho amigo me conta que se tornou um médico de sucesso. Tem um consultório no Cambuí, bairro nobre da cidade, onde atende a nata da sociedade campineira. Cobra caro, mas todos pagam sem se queixar. Na vida pessoal também vai bem. Tendo se casado com a enfermeira que amava, continua vivendo com ela Estão esperando a primeira netinha, filha precoce do seu filho mais velho, de apenas dezesseis anos.

Ele retira o lírio do bolso e o deposita sobre minha mesa – “ganhei de uma moça a quem ajudei agora há pouco” – ele diz.

“Mas era uma velha.” – eu contesto.

“É verdade. Era. Mas de quê importa? Eis o lírio, que não é menos lírio só por causa da idade de quem mo deu.”

“Mas e o transtorno?” – pergunto-lhe mudando o assunto.

“É um transtorninho mínimo. Não se preocupe. Meu pulso jamais sentirá novamente o corte da navalha. Dói.” – Diz, ele, erguendo o braço esquerdo e exibindo um Rolex de um dourado hipnotizante. Depois ele volta a pegar o lírio e o deposita no bolso, momento durante o qual é possível perceber um leve tremor de mão, causado, muito provavelmente, pelo medicamento que lhe estou receitando. Médicos não podem receitar a si mesmos, mas podem, facilmente, contar com a colaboração irresponsável de amigos médicos para se drogarem até o ponto de confundirem lagartixa com jacaré. Não era o nosso caso, no entanto. Beto fazia questão da dose mínima necessária, definindo, às vezes, ele mesmo, quantos miligramas diários eu lhe receitaria. Além da droga, ele me visita a fim de contar vantagem, chacoalhando seu relógio de ouro a poucos centímetros da minha cara. Mas minha cara é sínica. Vejo o Rolex com um olhar rápido e desdenhoso. Não quero dar-lhe o prazer da minha admiração. Para mim, pouco importam a barba sempre tão bem aparada, a roupa engomada e o hálito de menta. Toda a minha admiração já está em uso. Poucos minutos antes que Beto se ajeitasse no meu divã de couro sintético, esteve no meu consultório, Beatriz. Ele não a conhece. É a gerente de uma loja de perfumes aqui do Centro. Jovem, negra e alta. Formidável. Depois da segunda consulta, transamos como bestas por todos os poucos cantos desta saleta. Fizemos inveja à velha meretriz. E assim tem sido há mais de dois anos. Encontrei, enfim, minha salvação. A psiquiatria era mesmo o caminho para a minha felicidade. Mas eu estava errado quanto à salvação. Ela não tem de ser sofisticada. Pelo contrário, remete aos princípios mais básicos da natureza. Um casal de gatos com seu sexo escandaloso e casual sobre as telhas de zinco é mais feliz que a humanidade inteira.

“Você não vai acreditar.” – diz meu amigo – “Num dia desses, apareceu no meu consultório um terapeuta que havia enlouquecido, isso se a loucura já não for requisito da profissão. Pois bem, o sujeito havia a tal ponto se envolvido com os problemas de seus pacientes que já não conseguia dormir à noite. Ficava lembrando rosto após rosto, nome após nome, problema após problema.”

“Foi o Dr. Gabriel, não foi?”

“Sim, ele mesmo. Como sabe?”

“Freqüentei seu consultório por uns tempos, tratando minha boa e velha distimia. Era um garoto recém formado. Havia se convencido de que ajudaria as pessoas a serem felizes. Um sujeito realmente de bom coração. Mas ingênuo. Pouco inteligente para a profissão. Eu lhe induzia a me receitar tanta venlaflaxina quanto eu queria, 300mg se eu quisesse. Coisa que não seria possível com você, médico incorruptível, razão pela qual nunca te procurei no Cambuí.” – era mentira. Eu evitava seu consultório porque seria incapaz de pagar pelas consultas, mas também era orgulhoso demais para aceitar o tratamento gratuito que ele certamente me ofereceria.

“Então quer dizer que, no fim das contas, eu é que sou seu médico?” – perguntou-me, ele.

“Sim, é verdade. Mas você conhece a idéia do silogismo hipotético? Se “a” cuida de “b” e este, por sua vez, cuida de “c”, então “a” cuida de “c”. Mas, aí eu lhe pergunto: se “c” cuida de “a”? Aí “c” também cuida de “b” e de si mesmo. E “a”? Ele também cuida de si mesmo. Então quem é mesmo que cuida de quem? Todos cuidam de todos, porém, ao mesmo tempo, ninguém de ninguém.”

Beto fingiu não ter entendido o problema. Talvez nos faltasse a vodka que tornava agradáveis nossas conversas em tempos de faculdade.

“No frigobar atrás de você, pegue, por favor, duas garrafas.” – lhe pedi.

“Que bom que você não perdeu o bom hábito.”

“Jamais!” – lhe respondi e tomei o primeiro gole.

“Mas nos tempos de faculdade o sabor era melhor.”

“É que você sofisticou seu gosto, Dr. Roberto. O Sabor é o mesmo. A marca é a mesma. Nós é que não somos. Heráclito!”

O bom humor se restabelecia aos poucos.

“O problema da ciência em torno da saúde mental é o circulo dos terapeutas” – disse-lhe.

"Que circulo?”

“Justamente esse de que acabei de lhe dizer e você fingiu não ter entendido. Você está orgulhoso pelo fato de tratar o médico que me trata, pois, desse modo, você trata dele e de mim. Mas, dado que sou eu quem te trata, então eu trato você e meu próprio pobre terapeuta, e também a mim mesmo.”

“Desafio-te a dizer “próprio pobre” dez vezes e bem rápido.” – disse-me, ele.

“Deixe-me beber mais um pouco, Dr. Roberto, que te digo até o que dá sustentação ao circulo vicioso dos terapeutas.”

“Não é necessário. Eu sei. É a vodka!”

“Pelo jeito, você adquiriu meu mal hábito de meter piada em tudo, não foi?”

“Não chega a ser um hábito. Só acontece de vez em quando. Eu juro!”

“Pois bem. Preste atenção. Na mitologia hindu, havia a suposição de que a Terra não caia porque estava nas costas de um grande elefante.”

“Devo lhe perguntar o porquê de o elefante não cair no vazio do espaço?”

“Não. Já basta que você tenha se dado conta do problema. Acontece que o elefante está nas costas de uma gigantesca tartaruga, e é por isso que ele não cai.”

“E a tartaruga está sobre as costas de um animal maior ainda, numa sucessão de animais imensos montados um no outro que vai ao infinito. É isso!”

“Não, não é isso. A tartaruga não cai porque é a exceção absoluta à regra de que os corpos caem. Ela sustenta-se por si mesma, assim como Deus é causa de si mesmo. E é por isso que ela dá conta de sustentar o elefante e todo o planeta Terra.”

Beto arqueou as sobrancelhas, bebeu mais um gole e, enfim, demonstrou interesse pelo problema:

“Pois bem. Diga-me logo o que esse zoológico gigantesco tem a ver com o circulo dos terapeutas. Não há outra alternativa senão ouvi-lo, porque que essa vodka, agora me dou conta disso, tem o delicioso sabor do passado, e eu não sairei daqui enquanto não esvaziar a garrafa!”

“Não posso dizer-lhe toda a verdade.”

“Como não? Enrolou-me com essa história até aqui para nada?”

“Não exatamente. Na verdade, posso lhe contar meia verdade. Mas só meia. Se lhe contasse toda ela, você me agarraria pelo pescoço e me lançaria ao chão. Eu desmaiaria com o impacto da cabeça no piso mal varrido. Mesmo assim você continuaria a me esganar até que eu estrebuchasse. Depois você jogaria suas roupas caras pela janela e sairia correndo por essa porta, trombando, talvez, com um dos clientes da puta que trabalha aqui do lado. Entraria no banheiro coletivo que temos no fim do corredor e ia se lavar com a água da pia, pois não temos chuveiro. Depois, você voltaria aqui para o consultório, nu e molhado. Pegaria sua receita de sobre a mesa e seu lírio, jogado no chão, e desceria pelas escadas como se nada tivesse acontecido. Com a vergonha de fora, caminhando pela Av. Dr. Campos Sales, talvez fosse preso por atentado violento ao pudor. E eu não quero isso.”

“Muito engraçado, você. Vamos, conte-me logo ao menos meia verdade.”

“Sim, conto. Para superar o circulo vicioso é preciso introduzir no sistema uma peça autônoma, semelhante à tartaruga da mitologia hindu. E essa peça, Dr. Roberto, tem a ver com o divã sobre o qual você está confortavelmente estirado. Mas isso é tudo que posso lhe dizer.”

Minutos antes de um pombo ter alvejado um transeunte, saiu da minha sala Beatriz. Ela desviou do office-boy e atravessou a Av. Dr. Campos Sales com sua sensualidade única. As marcas de suas nádegas suadas ainda eram visíveis no divã quando meu amigo ajeitou-se sobre ele com sua roupa engomada, mas suja nos joelhos, posto que ele se agachara na calçada para recolher as laranjas que havia derrubado.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Jogo da Troca

TROCA!!!"

Eu e Dênis estamos pensando na possibilidade de fazer uma experiência. Ele escreve uma "História Ordinária" e eu escrevo um "Filosofema Simples" (que por motivos óbvios não vai ser um CAISM Notícias). Proponho que esses sejam respectivamente nossos próximos textos.

Deixando claro para todos, nós não temos uma divisão oficial de funções, porém acabamos instituindo uma naturalmente. E você, Dênis, concorda? Estejam avisados leitores ordinários, esperem pela experiência.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

The Bad One is Dead



por Denis Barbosa Cacique,

O ano era 1989. Talvez um pouco mais ou um pouco menos. Não me recordo com certeza.
Jaqueline, a vizinha por quem, à época, eu nutria uma paixonite tenra e secreta, comemorava seu aniversário com uma festinha acanhada nos fundos de sua casa. Mas era uma festança, para os padrões do bairro em que morávamos. E a grande maioria das crianças que eu conhecia estava lá.

Quantos anos ela fazia? Jaqueline era apenas um mês mais velha do que eu. Ela fazia aniversário em novembro e eu no mês seguinte. E se aquele era o ano de 1989, então ela fazia sete anos. Mas eu não me recordo de estar metido em paixonites precoces já aos seis anos. Então, talvez, o ano fosse 1990 ou até mesmo um pouco mais.

A casa dela era um sobrado construído na parte da frente de um terreno cumprido que se inclinava para os fundos. Para chegar à festa, os convidados desciam por uma escada estreita que ficava do lado esquerdo da construção. A escada estava congestionada. Era um sobe e desce sem parar de crianças correndo e de senhoras equilibrando com extrema dificuldade bandejas de pão francês com carne moída. O fundo do terreno não estava menos cheio. Havia gente para tudo que é lado. Gente em rodinhas tomando cerveja e conversando sobre a Copa de 90, talvez. E gente miúda brincando ou dançando ao som de sucessos da Xuxa e do Balão Mágico.

Jaqueline estava perto da mesa do bolo, encantadora ao seu modo pueril. Os convidados, conforme chegavam, lha entregavam presentes e davam os votos de felicidades. Com a timidez que à época já me era habitual, eu via tudo de longe, invisível, encostado numa parede logo ao lado da escada.

De mãos vazias, sem qualquer aptidão para a dança e pouco disposto a correr pelo quintal, tomei o caminho de volta e subi as escadas sem sequer ter cumprimentado a aniversariante.

Escalei uma árvore plantada na calçada do outro lado da rua e permaneci por lá durante todo o resto da festa. Era uma tarde quente, mas agradável por entre folhas e o perfume sutil das flores vermelhas do flamboyant. Quase secretamente, eu observava o ir e vir dos convidados e a alegria óbvia dos meus colegas. Mas nada lá embaixo poderia ser melhor do que o meu refúgio alto. Naquela tarde, encontrei pela primeira vez o meu lugar no mundo, que era, de certo modo, triste, mas confortável, seguro e belo ao mesmo tempo.

Do topo da árvore, podia-se ouvir todo barulho da festa, inclusive os gritos de Michael Jackson, repetindo, “you know. I’m bad. I’m bad. I’m really, really, bad”.

Mais ou menos vinte anos depois, “the bad one is dead”. E a garota da minha primeira paixonite, tendo adquirido os contornos de uma mulher adulta, mostrou-se muito menos bela do que outrora prometia.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Vale Tudo



por Denis Barbosa Cacique

Há de se ter coerência. Se julgamos que os fins não justificam os meios, então não podemos agir como se eles o fizessem. E se criticamos e combatemos aqueles que impõem suas verdades através da truculência, é de se esperar que não ajamos do mesmo modo. Pois não pode existir um terceiro termo: ou somos hipócritas e maquiavélicos, ou, então, idiotas de carteirinha. No mais das vezes, a primeira hipótese se aplica. O ideal seria que assimilássemos aquele ótimo ensinamento bíblico: não se atente ao cisco minúsculo que repousa discretamente no olho do seu irmão mais do que à trave incandescente em seu próprio olho. Mas é claro que poucos aprendem essa lição. A maioria de nós, quando muito, hipocritamente, demagogicamente e maquiavelicamente, se faz passar por santa: santa do pau oco.

Durante os cinco anos da minha graduação, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, pude acompanhar um bocado desses santos. Eram meia dúzia de alunos desleixados que vira e mexe interrompiam as aulas e discursavam demoradamente sobre sua luta por uma universidade pública de qualidade, pela contratação de professores, por reformas na moradia, e por sabe-se lá mais o quê. E se, por um lado, era difícil vê-los freqüentar as aulas, por outro, era extremamente fácil encontrá-los enfornados na saleta do centro acadêmico em transe. Eis o reduto e berço da extrema esquerda. Há grafites nas paredes. Guevara dum lado, Raul Seixas d’outro. O cheiro de esterco da erva sente-se de longe, vindo daquela saleta miúda onde as sementes vermelhas ainda brotam vigorosas, vinte anos depois da queda do muro de Berlin. Catequistas da extrema esquerda encontram o cubículo com facilidade. Guiam-se pelo cheiro da droga e encontram no cômodo escuro sua mais fácil e valiosa massa de manobra. Ela apóia a greves. Afixa cartazes. Organiza passeatas. Invade reitorias, diretorias acadêmicas e o que mais Marx e Engels lhes pedirem ela invade. Vale tudo. Só que a massa passa pelos profissionais da limpeza sem ao menos dizer um “bom dia”. Eis sua verdadeira relação para com o proletário. A massa picha portas de banheiros ensinando sobre a geração da “mais valia”. E urina fora da latrina. Joga cinzas dos cigarros no chão, a centímetros do cinzeiro. Usa roupas aparentemente baratas, mas que foram compradas a peso d’ouro numa loja de shopping. Volta para casa, ainda em transe, em carrões que beiram fácil cinqüenta mil. E não dá carona.

Justamente para evitar o vale tudo da massa, a USP, durante a ultima greve, viu-se tristemente ocupada pela Polícia Militar. Até mesmo a Tropa de Choque e suas famigeradas granadas de gás lacrimogêneo estiveram por lá. Granadas voavam de um lado, paus e pedras d’outro. Sim. Porque os sindicalistas também têm sua tropa. É a massa de alunos e funcionários instigados que avança, ao modo “2001: Uma Odisséia no Espaço”, empunhando armas primitivas contra a polícia. Melhor mesmo seria contar com uma tropa de mercenários para fazer esse trabalho sujo. Algo como “Rambo IV”. Vale tudo. Afinal, os ideais justificam o sangue: são 17% mais R$ 200,00 para todos.

E já que falamos em sangue, vale lembrar a história do motorista Francisco Gaudino da Silva. Um “fura-greve”. No ultimo mês de Maio, durante a greve de ônibus que ocorreu em Campinas, ele foi convocado pela empresa em que trabalha a fim de assumir sua função e manter em circulação a parcela mínima de ônibus determinada pela justiça. Mas foi impedido de fazê-lo ao tentar entrar no Terminal Central. Dois homens atacaram-no com socos e pontapés no rosto e nas costas. Fraturaram-lhe uma costela. Afinal, vale tudo, assim como valia tudo durante os anos de ditadura militar, quando o governo mandava e desmandava no país na base da bala. Ela derrotava seus opositores calando-os de uma vez, simplesmente. Foi assim com o jornalista Vladimir Herzog e tantos outros. Para defender seus interesses, os ditadores lançavam mão de todos os recursos de que dispunham, inclusive os mais cruéis. Eles liam O Príncipe antes de dormir e, depois, sonhavam prazerosamente com sangue. E com o que sonham os sindicalistas, os partidários da extrema esquerda e a moçada dos centros acadêmicos?

Eles sonham com o genial Karl Marx, que, no século XIX, propôs uma sociedade utópica de iguais, a socialista. Ela deveria suceder, pela via revolucionária, o fracassado mundo capitalista e o martírio que ele impõe à classe operária. Aconteceu, no entanto, que todas as tentativas de materializar esse sonho resultaram em pesadelos. As socialistas União Soviética, Cuba e China se tornaram sinônimo de privação de liberdade, perseguição religiosa, julgamentos forjados, intolerância política e assassinatos em série. O curioso é que os Estados Unidos, inimigos número um dos socialistas, também são conhecidos por esse mau hábito de se valer de subterfúgios perversos em nome de pretensas boas intenções. O inferno está realmente abarrotado delas. Donde podemos perceber que as reais diferenças entre capitalistas e comunistas, direitistas e esquerdistas, e situação e oposição são deveras mínimas. A única realmente importante é o lado. No mais, ambos são quase idênticos: perigosamente cheios de certeza e capazes de tudo pelo poder e sua manutenção. Nas duas frentes de batalha, os métodos são quase sempre os mesmos. Vale tudo.

E no ultimo dia 18 de Junho, quando eram pouco mais de seis e meia da manhã e fazia um frio de lascar, uma sindicalista bloqueava a porta de entrada de pacientes e funcionários do Hospital da Mulher. Acontecia, no entanto, que meu impaciente intestino me ordenava entrar e achar o quanto antes um banheiro desocupado. Então tentei driblar a manifestante, mas foi sem sucesso. Também tentei apresentar os justos e muito naturais motivos que me ordenavam furar o bloqueio, o que também foi em vão, porque a grevista afastou rudemente minha mão da porta e, sem dar-se conta do absurdo, começou a berrar para quem quisesse ouvir que, se até mesmo as pacientes mais idosas estavam esperando do lado de fora, expostas ao vento, então eu também poderia fazê-lo. Agindo como se meu inalienável direito de ir e vir fosse contrário à causa operária, talvez a grevista tenha pensado que eu fosse um opositor da greve ou coisa que o valha. Mas eu apenas acho que uma greve na área de saúde soa criminosa. Fora isso, nada mesmo. É a fanática esquerda que tem mania de perseguição. Caso típico de Complexo de Édipo senil: mal psiquiátrico que se revela nas idiossincrasias da extrema esquerda, em especial, em seu ódio pelos poderosos, versões políticas da figura paterna. Mas é um ódio complicado, porque todo o filho, inclusive o mais rebelde deles, sonha com o carinho e o colo do pai. Por fim, tendo discursado por uns cinco minutos sobre as conquistas da greve, a manifestante, ainda se dirigindo à pequena platéia que tinha se formado à nossa volta, censurou minha falta de consciência coletiva e paciência. Só que ela deveria tê-lo dito ao meu impaciente intestino, que não vota no PSDB e, menos ainda, no PSTU.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Os porquês da humanização



por Denis Barbosa Cacique,

Nem tudo é claro na amplamente conhecida cultura da humanização. Alguns de seus aspectos, dentre eles pormenores basais inclusive, têm passado despercebidos bem em frente aos nossos olhos, comprometendo até mesmo o sentido da humanização. Um desses aspectos tem a ver com o emprego cada vez mais freqüente do termo “humanizar”, denotando um desejo coletivo de transformação de relações trabalhistas, políticas, pedagógicas, familiares e econômicas, dentre outras. Mas por que será que desejamos tanto humanizar? Outro aspecto digno de investigação diz respeito à estranha idéia de humanizar aquilo que já deve ser, por natureza, humano. Seria esse desejo mero fruto de um pleonasmo infantil? Vejamos caso a caso.

É bastante desejável que as profundas transformações pelas quais a humanidade tem passado nos últimos séculos não tenham se limitado a evoluções meramente materiais, mas que elas também tenham sido, principalmente, morais. Ao menos no campo teórico, “os homens nascem iguais entre si” desde o Iluminismo, no séc. XVIII. Mas o que o Iluminismo tem a ver com a humanização? O chamado “Século das Luzes” abarcou diversas correntes científicas, religiosas, políticas e filosóficas que, apesar de divergentes com relação a diversos pormenores, eram, em sua maioria, ressonantes a respeito de princípios mais gerais, em especial os ideais de progresso e perfectibilidade humana. Unindo os pontos, o fato é que a humanização, semelhantemente ao Iluminismo, também visa à perfectibilidade humana, sobretudo em seu aspecto moral. Mas há uma diferenteça. Porque, depois de duas guerras mundias, do holocausto e das bombas atômicas no Japão, dos trabalhos escravo e infantil em pleno século XXI, das atrocidades das ditaduras militares na américa latina, de incontáveis ataques terroristas, da exploração sexual e da exploração sexual de menores, dos cheiros de Nalpam no Vietnã e de Gás Mostarda no Iraque, a humanização e os ideais de perfectibilidade moral assumiram a condição de urgente. E isso deve responder nossa primeira pergunta: nos empenhamos a favor da humanização movidos pelo desejo de transformação do mundo num lugar em que, pelo menos, não repitamos os erros do passado.

Mas agora nos encontramos diante dum outro problema, posto que, se a evolução que queremos é moral, então seria mais adequado rebatizar a cultura da humanização, chamando-a, por exemplo, de “cultura da moralisação”; eliminando, assim, a redundância estranha que há em “humanizar o já humano”. Por outro lado, no entanto, a mudança também eliminaria uma crítica sutil existente, não por acaso, na própria redundancia. Essa crítica tem a ver com nossa tendência, sobretudo profissional, de nos sujeitarmos ao império frígido da técnica. Mas que império é esse? Suponhemos, por exemplo, um hospital. Ele deve contar com profissionais muito bem capacitados do ponto de vista técnico, como, por exemplo, anestesistas que dominem as técnicas de anestesiar, bem como arquivias que despachem os prontuários certos para as pacientes certas. Em tal instituição, todos os processos de trabalho tenderiam ao sucesso. Mas, mesmo assim, faltaria algo, pois esses profissionais, descritos desse modo, estão mais para máquinas do que para seres humanos. Eles executam tarefas de modo automático, como braços mecânicos numa linha de montagem. Não criam nem nutrem amizades. Não estabelecem relações afetivas com os pacientes e colegas de trabalho. Não confortam. Não abraçam. E sequer são capazes de sorrir expontaneamente. Eles são como o simpático Carlitos que, em Tempos Modernos, mesmo quando já não se encontrava diante da esteira da linha de montagem, e sim de pessoas, em plena rua, mantinha os braços movimentando-se mecanica e descontroladamente.

Há um bom contra-exemplo para esse profissional estritamente técnico e, em certo sentido, desumano: certo dia, no Caism, presenciei um médico residente caminhar abraçado a uma paciente. Bastante debilitada pela doença, ela movia seu corpo esguio com passos miúdos. A cabeça, o tratamento tinha lhe despido totalmente impiedosamente. A senhora vestia a roupa listrada do hospital, a qual tinham adornado com a bolsa duma sonda urinária. Mas havia um alento. Abraçado a ela, o médico lhe cantava uma canção de Chico Buarque. E a paciente ouvia, viajando, talvez, no universo revigorante da canção, para muito além de todo sofrimento físico e psicológico que a doença lhe estava causando. Humanizar, nesse caso, consistiu em se fazer uso da liberdade para fazer mais do que ensinam os manuais de medicina. Donde podemos pensar que é a liberdade o que evocamos através daquele aparente pleonasmo: “humanizar o humano”. E a evocamos porque ela é, certamente, nossa única diferença para com os outros animais. É nossa legítima humanidade. Nossa única porta para o verdadeiro bem. Nosso talento mais valioso, embora, vendido, às vezes, por moedas de amor próprio.

sábado, 23 de maio de 2009

Viva o sonho!



por B. F. Teixeira

Eu sei, quando se olha por determinado ângulo, eu vivo uma vida de sonho. Tenho uma casa em um condomínio residencial a quinze minutos de São Paulo. Pode não ser nem 50% tão bonito quanto no folheto, mas é tranqüilo e agradável. Melhor que a cidade. Tenho uma esposa que é uma perfeita mãe e dona de casa. Um casal de crianças saudáveis. Um carro confortável. Uma TV de alta definição. Uma cozinha moderna e equipada. Um tapete elegante que combina com os móveis. Uma poodle bem tratada.
O que ninguém sabe, porém, o ângulo que ninguém vê, é quanto custa manter esse sonho. Leasing do carro. Financiamento da casa. Plano de saúde. Fatura do cartão. Mensalidade da escola das crianças. Veterinário da cachorra. Para manter tudo isso, preciso de dois empregos. Trabalho no setor administrativo de uma grande empresa, obviamente, no horário administrativo. À noite, ministro aulas em um curso de MBA de uma faculdade particular. Tudo isso, todos os dias. Saio de casa por volta das seis da manhã, os quinze minutos de São Paulo, do anuncio, é óbvio, não incluíam o trânsito. Chego em casa só a meia-noite. Vivo em função do meu trabalho. Quando não estou trabalhando, estou descansando para poder trabalhar. O trabalho, ou melhor, os trabalhos, são os principais, pois são eles que mantém a vida de sonho, que, diga-se de passagem, jamais sonhei em ter.
Minha esposa é a perfeita dona de casa porque não pode sair da casa. Dois anos atrás, sofreu um assalto e agora, sofre de uma forma de stress pós-traumático, uma forma da síndrome do pânico. Sei lá. De qualquer forma, ela não pode deixar a casa. Simplesmente não consegue. Tentei leva-la ao médico, mas a simples tentativa de tira-la de casa causa um terror sem limites. Se tentasse de novo, a gritaria com certeza seria evidência suficiente para me enquadrar na lei Maria da Penha. Sair no quintal para buscar Delinha, a cachorra, já é impossível. Desisti do tratamento. Nós desistimos.
Meus filhos são dois pré-adolescentes mimados, estragados por uma mãe superprotetora. Foram criados no medo. Porém, agora riem e se aproveitam desse medo. Usam-no para controlar a casa. Às vezes, acho que até a cachorra usa esse medo para controlar minha esposa. Correndo para o quintal e latindo de modo irritante. Esse, meu amigo, é o bastidor, o making-off do sonho. Essa é a verdade por trás dele. Essa é a pressão com que convivo todos os dias. Se isso não basta para explicar o que fiz, meu amigo, se depois de saber de tudo isso você continua a me considerar um monstro, preciso te contar, então, a respeito da gota d’água. A gota d’água foi um dia. Um dia muito ruim.
Acordo atrasado. Às 05:45. Minha esposa e as crianças também perderam a hora. Coloco pó e água na cafeteira elétrica, ligo-a e vou tomar banho. Deleguei a tarefa de acordar as crianças à minha esposa.
Entro no chuveiro para uma ducha rápida e a gritaria começa. Minha esposa grita para acordar as crianças que retrucam não querendo levantar. Senti vergonha, com certeza os vizinhos podiam escutar. “Precisamos transferir as crianças para um colégio mais próximo para que não precisem acordar tão cedo”. Sim, mas com os preços por aqui na região, como faze-lo?
Saio do banho. Quando estou enxugando-me, ela vem.
“Precisamos transferir as crianças para um colégio mais próximo. É um pecado acorda-los tão cedo”.
Talvez, se você trabalhasse. Penso, mas não falo. Não é culpa dela. Não é culpa dela!
Vou até a cozinha e sirvo-me de uma xícara de café. Ela grita de novo. As crianças revidam. Ela os ameaça com minha presença. Continuo calmamente a tomar meu café. As crianças se levantam e começam a se arrumar apressadas.
Ela fala comigo. Reclama. Não presto atenção, não sei o que é, mas sei que são mais problemas. Não escuto. Não quero escutar. Não preciso de mais. Não hoje. Não agora. Termino o café e me dirijo até a garagem. Ela me segue e segue falando. Saio de casa, sei que ali, ela não pode me seguir.
“Tô atrasado. Tchau!”
“As crianças! As crianças!” Ela grita!
Entro no carro, ligo-o, ligo o rádio e espero a vontade do pequeno príncipe e da pequena princesa. 06h15 eles entram no carro. Discutindo entre si. Ajeito o retrovisor de modo que vejam meu olhar recriminador. Não falo nada. Eles não param. Arranco com tudo. Silenciam finalmente. Aumento o volume do rádio. Finalmente consigo um pouco de tranqüilidade.
Dirijo de forma zen pelo relaxante transito da grande metrópole. Deixo as crianças na escola primeiro. Chego lá pouco antes da abertura do portão. Ao menos as crianças não chegaram atrasadas. Escuto as costumeiras reclamações por terem que retornar de ônibus. Os horários para meu bairro são mesmo escassos. E ainda assim, o ônibus os deixa na portaria. É preciso andar um bocado. Não existe espaço para transporte coletivo no bairro dos sonhos. Finjo que não ligo para as reclamações. Finjo que eles não têm razão em reclamar. Parto para meu trabalho.
Chego atrasado. Tenho um dia daqueles. Poderia te encher com toda uma conversa sobre logística, 5S, Qualidade total e todos os problemas que essas coisas que deveriam ser eficientes me trouxeram. Mas, não vou. Basta dizer que o dia conseguiu se tornar ainda pior do que começara.
O pior de ter dois empregos não é o fato de ter dois empregos em si. É claro que o fato de ter de trabalhar duas vezes mais do que o que você trabalharia normalmente é ruim. Mas, o pior é que quando as coisas são uma merda no primeiro emprego você não tem o direito de simplesmente sair e parar no bar para tomar uma gelada ou ir para casa assistir um DVD pornô ou ainda comprar uma coisa da qual não precise ou quem sabe visitar a sua avó no asilo ou sei lá que coisa prefira fazer para se distrair. Não! Você precisa entrar no seu carro, mergulhar no relaxante transito paulistano da hora do rush e dirigir-se ao seu segundo emprego. Isso é o pior de ter dois empregos. Nessa hora, você começa a pensar. Nessa hora, enquanto está parado em um gigantesco engarrafamento entre um local de trabalho e outro, entre se pergunta se será esse um congestionamento recorde ou não e quantos minutos chegará atrasado, nesse exato momento, lhe invade a dúvida, ou melhor, o pavor, de que as coisas sejam uma merda também no segundo emprego. E que então, não haja tempo para parar no bar para tomar uma gelada, para ver o DVD pornô, para comprar algo de que não se precise, para visitar sua avó, e que você leve tudo isso para sua cama. E de que você leve tudo isso para o dia seguinte. E de que a mesma coisa aconteça no dia seguinte. E de que tudo se transforme num gigantesco efeito dominó. E logo já não se pensa mais nisso. Já se começa a calcular quantos minutos se chegará atrasado.
Chego alguns minutos mais atrasado do que havia calculado. E meu pavor se realiza aos poucos. Meu segundo emprego também é uma merda. Dar aula é algo novo para mim. Algo estranho e novo. Nunca havia pensado em faze-lo. Comecei há quase dois anos quando o leasing do carro, o financiamento da casa ou o veterinário da cachorra, alguma conta, não sei ao certo, estourou o orçamento doméstico. Não me restou outra opção. Um colega meu trabalha no mesmo MBA. Ofereceu-me a vaga. Aceitei.
Porém, ainda hoje, quase dois anos depois, me é estranho. Os alunos cansados, desinteressados. Me pergunto se não seria mais fácil vender-lhes diretamente o diploma. Eu cansado, desinteressado. É a primeira coisa que faço em minha vida na qual não sou bom. As aulas seguem arrastadas. Meu medo se realiza. O expediente termina. Não há tempo para fazer nada para me distrair. Sigo estressado. Sigo para casa.
Estou em casa em quinze minutos. A essa hora nem os publicitários mentem. Estão todos acordados. Minha menina no telefone. Meu garoto no computador. Minha esposa na sala. Me esperando para conversar. Me contar sobre o seu dia. Problemas. Contas que precisam ser pagas, coisas novas a serem compradas, crianças que não fazem tarefa, muito tempo passado no telefone, muito tempo gasto no computador. Simplesmente não posso agüentar mais. Quero ignorar. Quero simplesmente terminar este dia. Tiro minha roupa, entro no chuveiro, deixo a água cair sobre minha cabeça. Mas, esses novos problemas reverberam junto com o meu dia em minha cabeça como um eco terrível. Minha vida de sonho. A vida que eu sonhei... Deixo que água caia em minha cabeça.
Saio do chuveiro. Uma hora ou outra teria que sair. Vou direto para a cama. Deito-me olhando para o teto. Minha esposa deita ao meu lado pouco tempo depois. O dia continua reverberando em minha cabeça. Não consigo silencia-lo. Alguns minutos depois escuto latidos.
“Amor, amor”.
Finjo dormir.
“Amor, amor”.
Fecho os olhos na esperança de que se fechem também meus ouvidos.
“Amor, amor”. Ela me cutuca. Minha esperança se mostra vã. “A Delinha”. Delinha. A poodle. Acho que ela ainda não está acostumada com a nova casa. Fica temperamental às vezes. Sai de casa e começa a latir, dar escândalo. Acorda toda a vizinha. Sou o único que pode coloca-la pra dentro.
Não me preocupo em me vestir. Saio do jeito que estava na cama. Delinha nem pensa em correr. Continua latindo parada. Latindo para o nada. Uma cadela esquizofrênica era tudo o que me faltava neste dia. Pego-a no colo. Ela continua a latir. Trago-a para dentro. Ela continua a latir. Tento calar sua boca. Ela continua a latir. Não consigo entender. Ela resiste, tenta me morder. Eu faço força para cala-la. Faço força demais. Escuto um estalo. Os latidos cessam.
Volto para o quintal. Deixo o corpo sem vida da cadela lá. Volto para a cama. Não me sinto culpado. Uma sensação de paz me invade. Não me sinto culpado. O que eu fiz foi pelo resto da minha noite de sono.
Então, amigo, essa foi a gota d’água. Foi por isso que quebrei o pescoço de minha própria poodle com minhas próprias mãos. Por algumas horas de sono tranqüilo, só por isso. Você pode, é claro, continuar achando que eu sou um monstro sem coração, mas antes, lembre-se que uma noite de sono é a única coisa capaz de por fim a um dia ruim.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Quando não se pode ser amado...


por Denis Barbosa Cacique,

Ao escrever e publicar “O Príncipe”, entre os anos de 1505 e 1515, o pensador renascentista Nicolau Maquiavel (1469-1527) promoveu uma ruptura radical na história do pensamento político. Ocorria que, até então, a teoria do Estado e da sociedade não ultrapassava os limites da especulação filosófica. Em Platão (428-348 a.C.) e Aristóteles (384-322 a.C.), por exemplo, o estudo desses assuntos vinculava-se à moral, descrevendo ideais de organização política e social, de bons governantes e de sociedades justas. Tratavam-se, no entanto, de reflexões abstratas e descarnadas de materialidade. A cisão promovida por Maquiavel consistiu, então, num choque de realidade. Ele concentrou-se no modo como as sociedades realmente eram, ao invés do modo como seria desejável que elas fossem. Sua inspiração certamente teve muito a ver com o lugar e a época em que viveu. Maquiavel foi personagem do Renascimento. Era cidadão da chamada “República de Florença”, que foi parte do território que hoje conhecemos como sendo a Itália, mas que, àquela época, ainda não havia sido unificada. Pelo contrário, havia ali pelo menos cinco pequenas potências que disputavam entre si a supremacia sobre aquele território, promovendo, assim, instabilidades políticas e sociais, além de infligir terríveis sofrimentos ao povo. O próprio Maquiavel definiu assim a situação daquela “Itália”: mais escravizada do que os hebreus, mais oprimida do que os persas, mais desunida do que os atenienses, sem chefe, sem ordem, batida, espoliada, lacerada, invadida, e que suportou toda sorte de calamidades.

Visando contribuir na superação desse caos político e social, o pensador compôs o “O Príncipe”, um verdadeiro guia por meio do qual um príncipe poderia subjugar os povos inimigos e unificar o território italiano sob a autoridade de um único governo, formando, assim, uma nação estável internamente e soberana em relação às forças estrangeiras. É curioso observar, no entanto, que, embora a finalidade original de “O Príncipe” fosse precisamente subsidiar a atividade política, os conselhos nele contidos podem ser interpretados de modo análogo e, desse modo, adotados pelas mais diversas categorias de líderes. Técnicos de times de futebol, professores, pais e gerentes de empresas são alguns exemplos. Todos eles podem fazer uso das polêmicas idéias de Maquiavel. Alguns até o fazem de modo intuitivo, sem jamais sequer ter folheado esse clássico da teoria política. É o caso, por exemplo, daqueles líderes que, se não podem ser amados, esforçam-se por ser temidos.

A esse respeito, Maquiavel se perguntava se, para um príncipe, era melhor ser amado ou ser temido. E dado que ambas as qualidades são mutuamente excludentes, era preciso escolher apenas uma delas. Mas qual seria a melhor? O pensador renascentista concluiu que ser temido é muito mais seguro do que ser amado. Isso porque, segundo ele, dos homens pode-se dizer que geralmente são ingratos, volúveis, dissimulados e ambiciosos. É claro que, enquanto se lhes faz o bem, tudo isso fica oculto sob a pele. Enquanto se está provido abundantemente, não há dificuldade em se lhes comprar o amor e o apoio. No entanto, aquele líder que subitamente se vê em grandes dificuldades, não demora até que também se veja abandonado por seus outrora fiéis colaboradores, ou até mesmo traído por eles. Porque, dizia Maquiavel, “os homens têm menos escrúpulo em ofender a alguém que lhes dedica amor do que a quem lhes inspira temor”. Pois toda amizade é mantida por um liame muito tênue, dada a natureza egoísta do homem. Já o temor, por sua vez, é mantido pelo receio de castigo, e esse não desaparece tão facilmente. É isso o que acontece, por exemplo, com aquele funcionário que, por contar sempre com a compreensão e indulgência de seus superiores, não sofre qualquer hesitação de consciência ao faltar ao trabalho ou cometer qualquer outra falha deliberadamente. No outro extremo, no entanto, aquele trabalhador cujos superiores despertam-lhe temor busca guiar-se sempre pela prudência. Ele toma decisões cautelosamente. Busca honrar os compromissos que assume. E esforça-se tanto quanto pode para evitar erros. Isso tudo porque, parafraseando Maquiavel, ele teme as conseqüências dos seus atos.

Mas os ensinamentos de “O Príncipe”, a despeito das grandiosidades que prometem, devem ser assimilados com muitas reservas. Não são poucas as pessoas que, por terem lido mal a obra, acabam atribuindo ao seu autor o título de criador e justificador moral da tirania. Mas ambas essas idéias são equivocadas. Os fins não justificam os meios. E mesmo para Maquiavel há limites muito claros para o uso do poder. Ao defender, por exemplo, que um príncipe incapaz de fazer-se amado deve fazer-se temido, ele adverte, logo em seguida, que tal governante deve esforçar-se para evitar despertar o ódio de seus colaboradores, posto que, diz ele, “podem muito bem coexistir o “ser temido” e o “não ser odiado””. Há, enfim, muito que se aprender com Maquiavel, mas suas valiosas e polêmicas lições situam-se num terreno escorregadio, onde, não raramente, tiranos confundem autoridade com truculência e temor com terror. É o terreno do poder.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Só porque você é paranóico...


por B. F. Teixeira

Mal coloco o derradeiro ponto final no artigo, já começo a desligar a máquina. Sou o único na redação a esta hora da noite. Se é que posso chamar de redação três computadores e uma imprensa meia-boca comprada de segunda mão. É... este é o “Farol da Capital”! Nome que já seria ridículo se estivéssemos no Rio, em São Paulo, então... Um jornaleco com menos influência que muitos blogs por aí! Foi para isso que cursei jornalismo? 
Termino de desligar a máquina, pego minha bolsa de designer, apago as luzes. No começo, os discursos “temos tinta de impressão nas veias”, “somos um jornal à moda antiga”, “deixaríamos Paulo Francis orgulhoso” de meu editor bastavam para me motivar. Aperto o botão do térreo do velho elevador. Agora, nem mesmo o cheque no final do mês é capaz de faze-lo. Aliás, tem exatamente o efeito oposto... Cumprimento o porteiro e deixo o prédio. 
Não sei se está mais quente aqui fora ou lá dentro. Malditas noites de verão. Acendo um cigarro, aperto o passo até a estação de metrô mais próxima. Já fiz esse caminho muitas vezes, porém não convém arriscar. Com certeza, não era o que eu esperava quando estava na faculdade: não ter dinheiro para comprar o próprio carro, o próprio apê. Não ter dinheiro nem para entregar para um bandido em caso de assalto. Porém, justo hoje, sou atacado. Não há arma, não há abordagem. Apenas um baque surdo. Vindo do nada. Estou inconsciente.

*    *    *    *    *

E então, a luz. Meus olhos precisam de três segundos para entender que não se trata de uma experiência de quase-morte. Na origem dessa luz, não há nada de divino. Ela vem de um farolete sobre um pedestal na mesma sala que eu. Atrás dele posso ver apenas a sombra de meu captor. Estou amarrado a uma cadeira de metal, dessas de bar. 
“Luis Guilherme Guimarães, a temática de seus últimos artigos levou-me a concluir que você está ciente da conspiração. Para quem você trabalha? Como você tomou ciência dela”?
“Não estou entendendo nada”.
“Você trabalha para eles?”
“Olha, Gusmão. Vamos parar com essa merda logo. Não tem graça”.
“Seu editor não tem nada a ver com isso. Repito: Você trabalha para eles?”
“Quem são eles?”
“Você é um agente de desinformação?”
“Você deve estar me confundindo com alguém!”
“Não, não estou. Luis Guilherme Guimarães do ‘Farol da Capital’”?
“Sim”.
“Tenho acompanhado seus artigos. Eu preciso saber: Você é um agente de desinformação?”
“Olha... eu nem sei o que é isso!”
“Seus artigos. Alguém esta lhe dizendo o que escrever?”
“Não”.
“Tem recebido envelopes estranhos?”
“Não, já lhe disse! Eu não sei de nada!”
“Eu preciso saber!” – Meu captor aumenta o tom de voz e saí de traz do farolete. “Eu preciso saber de onde vem a inspiração para seus artigos” – caminha em minha direção com passos rápidos – “ou toda a minha investigação estará comprometida” – posiciona-se atrás de mim. Coloca uma faca em meus pescoço – “Toda a minha investigação, entendeu!? Toda!! Anos! Fala!!! Quem está lhe passando informações!!?”- pressiona a faca e me pressiona demais. 
“Oh meu Deus! Ninguém! Ninguém! Sou só um jornalista de merda! Escrevendo para um jornaleco! Nem concordo com aquilo que escrevo! É um tablóide, pelo amor de Deus!! Só escrevo aquelas coisas para parecer polêmico. Para deixar Paulo Francis orgulhoso, meu chefe diz! Mas, acho que na verdade,  ele se revira no túmulo...” Vomito isso tudo urrando, soluçando e chorando. É constrangedor e ao mesmo tempo libertador. “Não gosto daquelas porras de artigos, não quero morrer por eles!!” Choro, como uma criança. O momento mais constrangedor da minha vida é também o mais libertador. Meu raptor alivia a pressão. Abaixo a cabeça e continuo a chorar.
“Olha, foi um erro” - meu raptor deixa de disfarçar a voz – “mas, é que no meu ramo temos que desconfiar de tudo e de todos”. É uma mulher! Fui nocauteado, arrastado e torturado por uma mulher. Despedacei-me em lágrimas e implorei por minha própria vida para uma mulher. Talvez, eu seja um porco-chauvinista ao me sentir mal por isso. Mas, me sinto. Todo o bem-estar das lágrimas e da libertação escorre pela certeza de que sou um merda.
“Você é uma boa pessoa. Tem baixa resistência à tortura psicológica, só. Ainda bem que não viveu na época da ditadura ou seria um caguete foda”. Abaixa novamente e corta as cordas que me prendiam à cadeira de bar. 
Temos que duvidar de tudo e de todos, no meu ramo, você é uma boa pessoa. Quantos não foram boas pessoas? Quantos tiveram mais resistência do que eu? Quantos essa louca já capturou por aí? Quantos não tinham vocação para caguete?
Ela se aproxima de mim, como que querendo me cumprimentar. Levanto num repente e me atraco com ela. Mantenho a faca longe de mim, bato suas costas contra a parede. Ela me desfere um chute no abdômen. Perco o equilíbrio. Recuo dois passos, procuro me apoiar no pedestal, mas levo-o ao chão comigo. O farolete se desprende e se quebra. Escuro. Tudo escuro. Ambos esperamos alguns momentos (Segundos? Milésimos de segundos?) até que nossos olhos se adaptem a nova condição. 
“Tudo bem. Você já me deu o seu troco”. Ela caminha cautelosamente em minha direção. “Agora, chega! Pode ir embora. Você é um civil, não se meta nisso. Pode ir...”
É minha vez de golpeá-la no abdômen. É sua vez de recuar. Uso o pedestal como uma lança. Levanto. Golpeio a novamente, agora no rosto. Ela cai. Golpeio-a de novo. E de novo, e de novo, e de novo, e de novo... até que... sangue. Escorrendo como vinho barato em uma mesa sem toalha. Sangue. Oh Meu Deus, eu matei alguém! Viro-me na direção oposta e vomito o Hot Dog que tive como almoço e as cinco xícaras de café que tomei a tarde. Cambaleio em direção a porta. Abro-a. Continuo cambaleando. Procurando por uma saída, por ar livre, por uma fuga. Tropeço em uma cadeira. Caio com a cara contra uma parede. Um jornal. Um artigo. Autor: Luis Guilherme Guimarães. Título: A verdadeira (e brutal) luta de classes. Já nem lembro do que escrevi. Bobagem sensacionalista como todo o lixo que escrevo para esse tablóide. Passo a mão por sobre o artigo como que o lendo em braile, até encontrar o alfinete de cabeça vermelha em seu centro. Esse prende uma fita vermelha ao artigo. Com as mãos acompanho a fita. Como um cego, tateio-a e sigo-a como a um guia. Chego a um alfinete de cabeça verde. Uma fotocópia de um antigo livro sobre as ditaduras sul-americanas. Algo sobre a participação da CIA nos golpes de direita, impedindo as revoluções populares. Acho outra linha. Sigo-a. Um recorte de jornal antigo: Declarações de Jango. Outra linha: Crise do petróleo. Outra Linha: Aumento das desigualdades do terceiro mundo. Outra Linha: Energias Renováveis. Outra linha... E, súbito, tudo faz sentido de um modo assustador.

*    *    *    *    *

Sei quem são Eles. A CIA, os americanos, os shakes do petróleo. Todos juntos. Mexendo os pauzinhos. Nos influenciando, atrapalhando. Aumentando nossos problemas, empurrando-nos gradualmente em direção à guerra interna. Tudo isso porque temiam o álcool. Temiam nosso potencial energético Desde os anos 60. Talvez desde antes. Desde não sei quando. 
É tudo culpa deles. Ela estava certa! Ela estava certa! Dou as costas para a parede coberta de jornais e prendo a cabeça entre os joelhos. Oh meu Deus, ela estava certa!

*    *    *    *    *

Não estou pensando direito. Estou sensível, confuso. Eu matei alguém, por isso. Eu matei alguém. Era uma louca perigosa, mas isso não muda o fato de que era alguém e que eu a matei. Não era mais legítima defesa. Preciso ir. Preciso sair daqui. Preciso fugir. Não, não posso! Esse lugar está cheio de mim: minhas digitais, minhas lágrimas, meu vômito... não posso deixar esse local, não assim. 
Um plano de contingência, sim! Essa maluca deve ter um plano de contingência! Todo paranóico tem um ou não? Deve ter um botão de autodestruição aqui em algum lugar, só preciso achá-lo. Levanto-me em um sobressalto e encaro a parede forrada de jornais, linhas e alfinetes. Com as duas mãos espalmadas, mergulho no mundo dela...

*    *    *    *    *

Encontro! No cômodo adjacente, sob uma tábua com fundo falso, um galão de gasolina – ou querosene, não sei ao certo – e uma caixa de fósforos. Minha camisa! Preciso queimar minha camisa também. Está suja de sangue! Agradeço por ser um filé de borboleta, capaz de ser facilmente nocauteado por uma mulher, e por ela gostar de roupas largas. Encontro uma camiseta que me sirva entre suas coisas. Visto-a. Uma camiseta preta lisa, sem estampa, sem figura Jogo minha camisa suja sobre o corpo. Não quero vê-lo. Não mais. 
Começo a espalhar gasolina – ou querosene – por todo o canto. Na cadeira, nas paredes cobertas por jornais, pelo corpo – agora, graças a Deus, coberto pela minha camisa.  Faço tudo com cuidado para não derrubar gasolina em mim, em meus braços. Levo uma, duas, três horas. Perco a noção do tempo. Tem gasolina – ou querosene – suficiente para a casa toda.  A paranóia é uma coisa linda. 
Ao terminar, jogo o galão no meio da sala e encaminho-me para a porta principal. Abro-a. Venta. É madrugada. Estou em uma região erma. Poucas casas ao redor, ninguém nas ruas. Onde estarei? Não faço a mínima idéia, mas isso não importa. Preciso sair daqui agora. Da porta, risco o fósforo e jogo-o dentro da casa. Ouço o ruído do acender, como uma churrasqueira gigantesca. Corro. Não olho para trás. 

*    *    *    *    *

Corro até chegar em uma avenida. Lá encontro um ponto de ônibus. Encosto-me e espero pelo primeiro ônibus. Não espero muito. Reconheço o destino escrito no topo do ônibus. Entro. Pago. Sento. Encosto a cabeça na janela. Deixo minha mente vagar e ela insiste em voltar para a teia na casa da louca. Os jornais, as linhas, os alfinetes. A teia, a conspiração. Será que ela tinha razão? Eu a matei. De qualquer forma eu matei alguém. Teria eu matado uma heroína? Não. Ela era uma louca perigosa. Quantos mais ela não pegaria, quantos não se dobrariam. Eu salvei vidas. Eu sou o herói. Eles não existem. Ela é paranóica. Completamente paranóica. Ao longe, pela janela, posso ver um pequeno brilho, um pequeno foco de luz. Deve ser a casa, agora, sendo completamente possuída pelas chamas. Chamas que a essa altura já se alastraram por completo eliminando qualquer vestígio daquela louca, de sua teia de loucuras, do que ela fez comigo, do que eu fiz com ela...
Chego ao ponto final. Faço uma baldeação. Pego o ônibus que finalmente me levará ao que chamo de casa. Ligo para o Gusmão. É muito cedo, ninguém atende. Deixo recado: não vou trabalhar hoje. Talvez, não vá trabalhar nunca mais. Pelo menos não lá. Não naquele tablóide. Pelo menos não mais escrevendo coisas marrons.
Meu ponto. Dou o sinal. Desço do ônibus. Caminho pelos dois quarteirões que separam meu prédio do ponto de ônibus. Abro o portão de ingresso.
No hall de entrada, três homens brancos, com cerca de 30 anos, vestindo ternos pretos, estão sentados no sofá. Quem são? O que querem? Como eles entraram?
“Senhor Luis Guilherme Guimarães” _ um deles diz com voz calma enquanto se levanta _ “estávamos a sua espera. Nos acompanhe, por favor”.  

quarta-feira, 25 de março de 2009

A Verdade Mais Grave


por Denis Barbosa Cacique

Sobre o caso da advogada brasileira que alegou ter sido agredida por um grupo neonazista na Suíça, é claro que ninguém estava obrigado a deduzir, logo de cara, que tudo não passava de uma mentira mal contada. Mas essa ressalva tem um efeito duplo e contraditório. Se por um lado ela atenua o engano da imprensa, do governo e do povo brasileiro, por outro ela o agrava ainda mais, pois, quando a verdade não pode ser facilmente discernida da mentira, e ela raramente o é, então urge que se adote a simples e barata precaução da desconfiança. Caso esse cuidado tivesse sido adotado, evitar-se-ia uma porção de prejuízos que vão desde os imprevisíveis danos morais infligidos à jovem brasileira até a série de gafes promovidas pela nossa diplomacia. Porém, sucedeu-se o contrário. A protagonista da história teve sua vida privada violentamente convertida em objeto de um reality show macabro. Já o governo brasileiro criou um desnecessário e pouco inteligente mal-estar entre Brasil e Suíça. Por exemplo, enquanto o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, exigia das autoridades suíças empenho e rigor nas investigações do caso, a consulesa-geral do Brasil na Suíça, Vitória Cleaverque, afirmava: "trata-se claramente de um ataque xenófobo"; e acrescentava: “se for necessário, levaremos o caso às mais altas instâncias", fazendo clara referência à ONU. Não nos esqueçamos de que nós, o povo brasileiro, também saímos prejudicados, pois prestamos nossa comoção a nada.

Essa série de trapalhadas suscita duas perguntas bastante simples. Mas antes de as elaborarmos, devemos introduzir o atenuante de que o engano não se deveu apenas à nossa ingenuidade, mas também, e, talvez, principalmente, ao fato de a farsa se nos ter apresentado como tremendamente verossímil. “Verossímil” é aquilo que parece ser verdadeiro, mas que pode, a despeito da aparência, ser falso. Tendo essa premissa em mente, cabe identificar os elementos que sustentaram tal verossimilhança. E o passo seguinte consiste em investigar o porquê do meramente verossímil ter sido tratado como verdadeiro.

A respeito do fato de a história ser verossímil, isso se deveu ao fato de ela possuir dois elementos fortemente coerentes com a realidade, a violência cotidiana brasileira e o temor mundial da ascensão de novas formas do nazismo e fascismo. Analisemos caso a caso.

As relações sociais no Brasil estão permeadas pelas mais diversas formas de violência, que vão desde o trabalho infantil e escravo até as barbáries promovidas por poderosas organizações criminosas. A fim de ilustrar esse cenário, podemos citar o 3º Relatório Nacional sobre os Direitos Humanos, segundo o qual, entre os anos 2000 e 2004, a média anual de homicídios de jovens com idades entre os 14 e os 24 anos era de 108,35 para cada 100 mil no estado do Rio de Janeiro. É um número estarrecedor. E é por conta dessa violência tão comum, próxima, freqüentemente, hedionda e real que o brasileiro tende a considerar verossímil até as histórias mais repulsivas de violência.

O segundo elemento a corroborar a verossimilhança da história é o temor de que movimentos políticos inspirados em ideologias xenofóbicas, caso notório do neonazismo, voltem a conquistar espaço no cenário mundial, mas em especial no continente europeu. E não se trata de um temor descabido. No ano passado, por exemplo, o parlamento da União Européia aprovou a chamada “Diretiva de Retorno”, documento que estabelece sanções bastante rígidas aos estrangeiros que forem flagrados em situação irregular em países do bloco europeu, sendo a deportação o carro chefe delas. A idéia por trás da Diretiva é conter o afluxo de imigrantes de países subdesenvolvidos, fugindo da miséria e da pobreza e atraídos por condições muito mais favoráveis de renda, trabalho e vida. Já o problema por trás da idéia é que a expulsão de um estrangeiro pelo simples motivo de ele ser estrangeiro é de difícil justificativa moral. É irônico que a Europa, justamente o continente que dera origem à Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, esteja agora cada vez mais retrógrada, defensiva e fechada sobre si mesma, assumindo uma postura político-ideológica que, embora não seja explicitamente xenofóbica, pode converter-se no primeiro deslize na beirada de uma ladeira escorregadia em direção a formas mais violentas e declaradas de racismo, como a que teria culminado na agressão nazista que a brasileira alegou ter sofrido.

Resta, agora, refletir sobre o porquê de o meramente verossímil ter sido tratado irrefletidamente como real. O risco, neste ponto, é ecoar o clichê segundo o qual “tudo é culpa da mídia”. Repetir esse chavão seria conivente para com as outras partes envolvidas. Não é tudo culpa da mídia porque parte da culpa é nossa, que, passivamente, aceitamos como iguais notícia e realidade, imprensa e janela para o mundo. A outra parte da culpa é daqueles que fazem política fundamentados apenas no Jornal Nacional, dentre outras imprensas marrons. Esse intrincado de cumplicidades evidencia um circulo vicioso que tem espectadores de um lado e imprensa de outro. É bem verdade que a mídia sensacionalista que embarcou na canoa furada daquela farsa carece de responsabilidade social. Ela publica qualquer coisa, contanto que dê Ibope, e ignorando o princípio da verdade. Mas ela só o faz porque “o papel” aceita tudo, e o aceita sem requerer investigações, provas, ética e responsabilidade quanto às conseqüências das informações a serem divulgadas. E é aí que entra nossa culpa e a culpa dos nossos diplomatas, porque o papel somos nós, e essa é a verdade mais grave.

domingo, 15 de março de 2009

Da janela lateral

por B. F. Teixeira

20 Km leste. É pouco para descreve-lo. Pouco para descrever como o sinto. Como o sinto daqui de cima. O vento... Vento que move meus cabelos sem bagunça-los. Traz-me uma sensação de frescor, sem me trazer frio. Empresta movimento a meus trajes – meu melhor terno, camisa e gravata – sem amarrota-los. O vento perfeito. Tudo perfeito. A noite estrelada. Não há uma única nuvem no céu. A temperatura é quente o suficiente para tirar minha esposa e filha de casa, mas não o suficiente para que eu sue no terno. E o vento, o vento é o toque final. Tudo está perfeito. Esta é a grande noite. Não tenho dúvidas. 
Termino de escrever o bilhete, tiro os sapatos e uso-os como peso de papel. Vou justamente como imaginei. Como Paul na capa do Abbey Road. Tiro as meias e coloco-as dentro dos sapatos. Estou descalço. Tiro um cigarro do bolso, acendo-o. Dou uma longa tragada. Expiro sua fumaça lentamente. Saudade! Outra tragada profunda. Outra expirada lenta, como se a fumaça sentisse pesar em deixar os meus pulmões. Aproximo-me da grade de proteção para crianças e fumo meu cigarro. Olho para baixo: carros e pessoas pequenas. Hoje, apenas eu e o vento somos grandes.
Jogo a bituca daqui de cima. Conto os longos segundos até que suma de minha vista. Longos segundos... para ver o chão, para sentir o vento... longos segundos... últimos segundos... é por isso, que tudo precisava estar perfeito, e está. Acendo outro cigarro. Dou a mais longa das tragadas, seguida pela mais longa das expiradas. Ainda com o cigarro na mão, coloco o pé direito sobre a grade de proteção...
*     *     *     *     *
“Algum problema, amor?”
“Não, só um pouco de dor muscular. Aumentaram minha série na academia”. 
“Já vou aí te fazer uma massagem. Deixa eu só colocar a Celinha para dormir”. 
Como posso mentir para uma mulher dessa? Eu me pergunto: como? Mas, ao mesmo tempo, como contar a verdade? Como explicar a um ser dotado de tanta compaixão e amor que a dor que eu sinto simplesmente não pode ser massageada? Que não há nada que possa fazer para ajudar? Que a minha dor é na alma? Como? Por isso, eu minto. Minto por imaginar a dor que isso causaria a ela. Minto por imaginar a dor que causar alguma dor a ela causaria a mim. 
Contudo, não deveria estar doendo desse jeito. Afinal, eu tenho uma rotina. Tenho um emprego fixo, que não é o melhor, mas também não é o pior dos empregos. Tenho hobbies. Passo um tempo com minha família sempre que posso. Brinco com minha filha - e adoro brincar com minha filha na medida em que consigo “adorar” qualquer coisa. Faço atividades físicas regulares – deveriam liberar endorfina o que, por sua vez, deveria me fazer sentir bem. Faço sexo regularmente, com minha esposa, o que, por sua vez, também deveria liberar endorfina, o que, mais uma vez, deveria me fazer sentir bem. Engajo-me em tais atividades mesmo quando a dor é lacerante e age como um fardo transformando até a menor delas, até a mais prazerosa delas, em algo extenuante. Mas principalmente, eu não deveria estar sentido isso, porque, além de todas essas atividades, tomo minhas pílulas todos os dias pela manhã. Religiosamente. Ou seja, faço tudo o que os médicos me dizem para fazer. E nada. Simplesmente começo a perder minha fé na medicina. Creio que a psiquiatria devesse ser classificada como uma arte e não como uma ciência.
“Pronto, amor. Deveria ver como ela está dormindo. Dorme como um anjo”. 
“Eu já vou”.
“Não, não é preciso. Você está todo dolorido. Deixa eu fazer sua massagem”.
Às vezes me pergunto se o fato dela ser tão compreensiva não piora o meu quadro. Conviver com ela é ser constantemente lembrado de tudo que você poderia ser, mas não é. Mal sinto a massagem. Ela diz algo sobre tensão e nós energéticos. Bobagens. Finjo que presto atenção. Tudo que eu deveria ser, mas jamais serei. Ela termina a massagem. Deitamos juntos. Ela encosta a cabeça em meu peito e me abraça. Diz que se sente protegida. Já eu, me sinto oprimido, invadido. Como sempre, me calo, omito. Espero. Imóvel. Até que sua respiração entre em um ritmo regular. Até que adormeça. Liberto-me com cuidado para não despertá-la. Reviro minha parte do guarda-roupa em busca do meu esconderijo. Encontro meu maço de Marlboro e meu isqueiro. Ela não gosta que eu fume perto dela, da Celinha ou mesmo dentro do apartamento. Antes, fumava um ou dois apenas, para dormir. Nos últimos dias, estou precisando de quase um maço. Melhor levar o maço todo, como garantia. Caminho até a sacada, acendo o primeiro cigarro e dou uma tragada longa. Saudade!  Estranho como 24 horas podem parecer muito para algumas coisas. Fumo em tragadas profundas e expiradas lentas. Fumar, assim como as outras atividades, não me faz sentir melhor. No entanto, meu médico sempre me diz que é importante manter a rotina.  
*     *     *     *     *

No dia seguinte: trabalho. Uma verdadeira tortura. Não, não é nenhum tipo de figura de linguagem. Faça a regra de três: se ver sua filha não lhe emociona, escovar os dentes é extenuante e fazer amor com sua mulher é um tédio, logo, como é trabalhar? 
De qualquer forma, acordar as seis da manhã depois de ter ido dormir as cinco não é nada revigorante. Minha esposa nota o odor dos cigarros em mim, mas não fala nada. Ela mente - ou melhor - omite a verdade para me agradar, para evitar o confronto. Não estou em condições de criticá-la. Terminamos o café da manhã meio apressados, esperamos a chegada da babá, saímos juntos. Nos separamos na fachada do prédio. Abraço, beijo, te vejo a noite. Deixo o carro com ela e caminho até o trabalho. 
Bom dia. Bom dia. Comentários sobre a novela, rodada do futebol ou qualquer que seja a notícia polêmica do momento. Respondo de forma inócua, razoavelmente educada. Atraco-me em minha baia. Ligo meu computador, “logo” no sistema. Uma mensagem me espera.
“Comparecer a minha sala, por favor.
Urgente,
Kobayashi”
Kobayashi, o chefe de setor. O que será? O que ele quer comigo tão cedo? Sem disposição para bancar o funcionário rebelde, encaminho-me para a sala do chefe, embora prefira não ir. Bato na porta. Recebo um convite – ou seria uma ordem – para entrar e, de repente, estou em uma cena à la “The Office”. Confetes e serpentinas são jogados sobre minha cabeça. Embrenham-se em meus cabelos, pousam-se em meus ombros como caspas gigantes e coloridas. Uma grande faixa me dá os parabéns por uma promoção e Kobayashi – contrariando e desonrando milênios de parcimônia de seus ancestrais - sai do fundo da sala gritando: “Quem é o nosso novo supervisor de Marketing? Quem? Quem?” Súbito todo o pessoal está na sala me aplaudindo. Metade com inveja, metade com tédio. Consegui minha promoção. Eu a queria, não queria? Mais do que isso, eu precisava dela, não precisava? Eu tenho mulher, filha pequena, financiamento do carro, do apartamento... além do mais, eu merecia essa promoção! Ela não poderia ter vindo em melhor hora. Então, por que não me sinto realizado? Por que não estou feliz? Por que sinto como se não fosse comigo? Por que não ligo para minha esposa contando-lhe a novidade aos gritos? Por que não abraço Kobayashi? Por que, enfim, me sinto como se fosse um daqueles que me aplaude com tédio? 
Cumprimento a todos com um aperto de mão e um sorriso no rosto. Sorrio esperando que o sorriso, ao menos, pareça verdadeiro. 
*     *     *     *     *

Todo o resto do dia trabalho como novo supervisor de marketing. Conhecendo a equipe, planejando, apresentando a filosofia de trabalho, apertando mãos, dando beijinhos. Coisas de primeiro dia. Minha promoção contradiz todos os palestrantes motivacionais que já existiram no mundo empresarial. Tudo o que eles dizem sobre vestir a camisa da empresa, trabalhar com garra, inserir-se no meio, marketing pessoal, enfim, eu nunca fiz nenhuma dessas coisas. Sempre me senti como se trabalhasse no piloto automático. Como se vivesse no piloto automático. Como se fosse um grande voyeur... no trabalho, na vida... e mesmo assim, fui promovido. 
Vou à academia. Cumpro a minha série nova. Volto para casa. Tomo banho. Janto. Converso com minha esposa. Finjo que me envolvo, que me emociono, que presto atenção. Deito-me na cama. Espero que minha esposa durma. Levanto. Pego meus cigarros no esconderijo. Constato que preciso comprar mais. Vou até a sacada. Sento-me. Fumo. Dali, da sacada, vejo as outras pessoas viverem... A noite passa...
*     *     *     *     *

Os dias passam. A semana passa. O fim de semana chega. Sexta-feira fim de expediente. Happy hour. Toda a equipe vai. Eu os acompanho. Um barzinho perto da empresa. Ocupamos algumas mesas do lado externo do bar. Depois de um tempo bebericando uma cerveja, noto uma morena de cabelos lisos sentada no canto oposto da mesa. Já a havia visto antes, é claro. Porém, jamais havia reparado nela. É linda. É jovem e linda. Pele clara e cabelos negros formando um belo contraste. Os lábios pintados em um vermelho vivo sorriem para mim. Eu sorrio de volta. Disfarço. Olho ao redor. Todos bebem, comem, riem e se divertem. Todos, menos eu. Sinto que sou diferente deles, de alguma forma. E a diferença não é de comportamento, de temperamento, de personalidade, é biológica, estrutural. De algum modo fui afastado da humanidade. Como se eu fosse, na verdade, um banco de dados biológico alienígena mandado à Terra apenas para acumular informações e não houvessem instalado em mim os softwares que permitissem meu envolvimento com os nativos. Ou, explicando em termos menos fantasiosos, é como se eu fosse um voyeur da minha própria vida, em todas as áreas... sempre observando, nunca participando... 
Ela volta a me olhar. Seus olhos negros refletem toda a luz do ambiente. Sorrio de volta, sou discreto. Ela não. Ela sorri de orelha a orelha, fala alto e com todos ao mesmo tempo, conta piadas, banca a palhaça, ri com sinceridade e fuma, fuma mais do que eu. Ela age como uma mulher liberada de F. Scott Fitzgerald. Possui aquele tipo de atitude que seria admirável e ousada na era do Jazz, nos 60 ou 70, mas que hoje em dia a história tornou datada e vulgar. Enfim, ela é tudo que alguém como eu deveria odiar, mas por algum motivo, interesso-me. Uma esperança de conexão existe, ainda que frágil, e embora eu odeie admitir, não consigo tira-la da cabeça. Não consigo tirar dela meu olhar. Desejo-a.
*     *     *     *     *

Cláudia. Descubro seu nome na segunda-feira seguinte. Nela, repousa a esperança de alguma conexão com a humanidade. Qualquer conexão. Minha última esperança, talvez. Sim, estou certo. Se ainda tenho alguma chance, ela responde pelo nome de Cláudia. É claro que me sinto um pouco culpado por minha esposa – como posso pensar em trair uma mulher como aquela? Não lhe conto nada. Não conto nada a ninguém. Mantenho essa esperança em silêncio, assim como mantenho meu afastamento. 
Cláudia: Minha última esperança de conexão com a humanidade. Sexta-feira, 17 horas: minha última esperança de conexão com Cláudia. Aproximo-me de sua baia com alguns papéis na mão. Assim nota minha presença, me olha nos olhos. Como toda boa femme fatale, não sou eu quem verdadeiramente me aproximo dela, é ela quem me atraí. Com o olhar, como um ímã a um pequeno pedaço de metal. 
 “Eu vou. Hoje às sete horas na ‘Trattoria Cacique’, conhece?”. Escuto parado em pé às margens de sua baia, encaro-a de cima a baixo, sem, no entanto, possuir uma posição superior. 
 “Na Flavio Honorato?”
“Essa mesma”. Sorri de modo malicioso e sexy. Misturando um pouco de Lolita à combinação já letal o bastante. Sorrio e caminho de volta a minha sala – que recebi quando fui promovido – pensando em que desculpa dar a minha esposa. Será simples. Cargo novo, responsabilidades novas, horas extras novas. Fácil. Preenche-me a esperança de que, finalmente, participe de algo, de que, finalmente, participe da vida. 
*     *     *     *     *

Deu tudo errado. Não com o encontro. Não com o jantar. Não com Cláudia. Ou, pelo menos, não para Cláudia. Jantamos em um excelente restaurante. Bebemos um vinho maravilhoso. Conversamos durante duas horas. Os mais diversos e variados assuntos. Ela falou, falou e eu, escutei, escutei. Encantado. Por sua paixão, seus sentimentos, sua vivacidade, sua entrega, seu “pertencer”.  Percebi, então, que era aquilo que me atraíra desde a primeira vez, esse seu desejo, essa sua certeza de pertencer à torrente da vida. Queria desesperadamente um pouco para mim. Participar dela, participar de Cláudia, seria participar da torrente da vida. Ela seria meu portal de entrada para isso tudo.
Seria, na teoria. Mas, na prática, não o foi. Saímos do restaurante, fomos para um motel, transamos. O sexo foi excelente. Muito melhor do que tem sido com a minha esposa nos últimos dois, talvez três anos. Mas, depois, voltou-me o vazio. Voltou-me a dor. Tudo fora em vão. Minha ultima chance de conexão com a humanidade estava perdida. Estava perdida para sempre. Eu estava perpetuamente condenado à janela. Só me restava a janela...
*     *     *     *     *

A partir de então, tudo se resume a espera. Só planejar e esperar. Conto os dias. Porém, sem expectativa, sem ansiedade. Nada de suor na palma das mãos e tremores. Só um gradual aumento no número de cigarros fumados, mas isso já estava acontecendo antes, ou não? Sinto-me com um mochileiro que perdeu o último trem em uma cidade sem albergue da juventude... sinto-me como Ringo no último single... qual seria mesmo...?
Então, espero, espero pelo meu céu de brigadeiro, pela minha noite perfeita. Dia a dia acompanho a previsão do tempo. Checo tudo. Tudo deve estar perfeito. Temperatura. Umidade relativa do ar. Velocidade do vento....
*     *     *     *     *

A grade de proteção para crianças cede com meu peso. Não sou gordo, nem estou acima o peso. A grade simplesmente faz jus ao nome. Cede. Despencando 25 andares. Eu não vou junto. Não me deixo ir junto. Meu instinto de sobrevivência joga todo o meu peso sobre minha perna esquerda, ainda firme no terraço. Caio para trás e observo a grade realizar a trajetória que deveria ser minha. Só minha. Enquanto observo a grade, me ocorre que tudo isso, essa preparação, o salto, tudo não passou de outra tentativa vã. Outra tentativa vã de fazer parte da humanidade. Desta vez, de forma um tanto dramática, de entrar arrebentando a porta, de mergulhar na torrente da vida...
Seria um grande erro. Foi melhor assim. Os curiosos, os jornais. Sou reservado demais para isso. Sou reservado demais para romper o segredo do meu afastamento, até mesmo, por meio da morte.
Levanto-me. Permaneço ali. Em pé. Parado. Olhando a cidade. Acendo um cigarro. Fico ali. Como Paul na capa do Abbey Road. Vivo. Afinal, no fundo, nunca acreditei na teoria de sua morte mesmo...
“Estamos de volta, amor”. 
Jogo o cigarro recém aceso. Calço meu sapato. Pego o bilhete, amasso-o, ponho-o no bolso do paletó. Caminho até ela. 
“Amor, o que você está fazendo de terno?”
“Amor, você não vai acreditar. Eu quase morri agora”. Corro até ela e a abraço forte, apertado. Ela sente o odor dos cigarros em mim, mas não fala nada. Mente – ou melhor, omite - para me agradar. Deve estar aprendendo por meio da convivência...

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Como provar que você não pode flutuar

por B. F. Teixeira

“Poeta preferida: Silvia Plath”.
Durante a inquisição os caçadores tinham um método bastante interessante para reconhecer uma bruxa: lançavam ao lago mulheres totalmente amarradas para ver se elas eram capazes de flutuar. Caso o fossem, eram bruxas. Agora, imagine-se por alguns segundos na pele de uma inocente jovem amante de gatos pretos: como você provaria aos outros que é incapaz de flutuar?
Que tipo de inocente jovem moradora de Salem você seria? Do tipo que se debateria contra a multidão esbravejando sua inocência, implorando por perdão ou do tipo que apenas direcionaria à multidão um olhar plácido, ciente da inexorabilidade de seu destino? Eu seria o segundo tipo. Sou tímida demais para dar escândalo.
“Autora Preferida: Virginia Woolf”.
É por isso que agora não estou interrompendo Dr. Henrique Villela – meu psiquiatra e psicanalista – aos berros de “eu só errei a dose, só errei a dose”. Enquanto ele lê os arquivos de nossa seção de análise. O mais engraçado é que quando o vi chegando aqui achei que seria minha passagem para fora deste lugar, agora percebo, no entanto, que estava muito enganada. Por isso, só acompanho a leitura de seus arquivos – que mais soam como acusações – com um olhar plácido. Aos poucos vou me tornando cada vez mais ciente da inexorabilidade do meu destino.
“Musica Preferida: Chatterton”.
Mais um gato preto. Eu tenho uma certa afeição por eles. Mas, isso não prova nada. Tudo bem, tudo bem, sou incapaz de provar que não posso flutuar... mas, pelo amor de Deus... uma certa paixão pela morbidade não faz de mim automaticamente uma suicida, faz?
Filme Preferido: “As Virgens Suicidas”.
Ah! E isso faz de mim uma virgem novamente? Chame o meu pai, por favor! Finalmente, algo relacionado a mim vai faze-lo feliz novamente.
“Esse tipo de comportamento não vai te ajudar em nada, Sara”.
Eu falei! Eu falei! Era para ser apenas um pensamento rastejando pelo fundo da minha mente. Mas, pelo olhar do Dr. Villela, não foi. Deve ter sido um grito. Meu olhar agora deve ser tudo, menos plácido. Começo a parecer cada vez menos inocente. Será a bruxa dentro de mim aflorando? Eu não creio nela, mas que ela existe, existe.
“O que quero dizer, Sara, é que é impossível negar que existe um certo culto subconsciente do suicídio em você...”
O que eu quero dizer, seu traidor, é que você me conhece há dois anos. Você me conhece melhor do que ninguém. Você me diagnosticou como limítrofe (meu Deus, não tinham uma tradução melhor para Borderline?). Você disse que eu podia viver sozinha. Você me veio com todas aquelas idéias de auto-estima, imagem de mim mesma e blá, blá, e agora, você me esfaqueia pelas costas!
“O que EU quero dizer é que achei que você estava aqui pra me tirar deste lugar!”.
“Não é tão simples assim”.
“Como é então?”
“Eu não decido sozinho. Não mais. Não depois do que você fez”.
“Eu não fiz...”. Eu paro. Não me debato. Chega de “eu não posso flutuar, não posso flutuar”.
“O que foi, Sara?”
“Nada, Dr. Só pensando alto. Você poderia falar a meu favor”.
“Você parece ter piorado”.
Traidor. Devia ter ouvido a Drª Laura Wippich. O transtorno de personalidade limítrofe não existe. É apenas uma invenção do patriarcado para classificar as mulheres que não se adaptam a psique masculina. Que não se submetem à formação da personalidade por meio da opressão fálica.
“O transtorno de personalidade limítrofe não existe. Como eu posso piorar, hein?”
“Andou lendo os trabalhos da Drª Laura de novo? Por que não continuou o tratamento com ela?”
Filho da puta! Você sabe porque não continuei o tratamento com ela. Por que a desgraçada me assediava. Tenho certeza que a desgraçada me assediava.
“Você sabe o porquê”.
“Ela alega que você estava delirando”.
“Como eu poderia estar delirando, se o transtorno limítrofe não existe?”
“A defesa da Drª Laura fala contra o trabalho dela. As cicatrizes de automutilação em seus braços falam contra o trabalho dela. Seu histórico de abuso de álcool e drogas fala contra o trabalho dela. Sua atual tentativa de suicídi...”
Chega! Agora eu atingi meu limite. Levanto-me num repente e atinjo a mesa com um soco.
“Eu não tentei me matar. Estou tentando dizer isso desde ontem. E ninguém me escuta! Ninguém! Achei que pelo menos você me escutaria antes de me amarrar e atirar ao lago!”
“O que?”
“Ah! Deixa para lá!”
Sento na cadeira e assumo posição fetal. Admito, não foi a mais adulta das atitudes que já tomei.
“Sara...”
“Não!”
“Sara...”
“Sai daqui!” – Levanto-me e empunho a cadeira como um domador de feras. Ameaço golpeá-lo com fúria insana. Sua calma de psicanalista se esvai por um instante e ele recua. Eu avanço. “Saí daqui! Traidor! Inquisidor! Inquisidor! Inquisidor!” –  Ameaço golpeá-lo com a cadeira.
A porta se abre. Dois enfermeiros entram. São muito rápidos, antes que eu possa voltar a cadeira contra eles, me rendem, me seguram, me perfuram com uma agulha, me drogam. Eu me debato. Grito. Mudo rapidamente. Não sou mais a moça inocente. Eles queriam a bruxa. A bruxa existe.
“Vocês não queriam a bruxa!? Aqui está. Aqui está a bruxa. Eu amaldiçôo todos vocês! Todos vocês! Todos....
 
*    *    *    *    *

Ainda estou cruzando a fronteira de volta do reino de Morfeu quando escuto o ruído de uma cadeira sendo arrastada. Não preciso me voltar para o lado para saber que é o "nem-tão-bom" doutor retornando.
"Boa tarde, Sara" - Hmmm. Ainda é tarde. Não devo ter dormido muito.
"Boa tarde, Dr" - digo sem me voltar para ele, continuando a encarar a parede.
"Se importa de olhar para mim, Sara?"
"Sim, me importo".
"Sara... esse tipo de atitude não vai te ajudar."
"E você!? Você vai me ajudar!?"
"Não é assim que funciona. Eu não decido sozinho. Já te disse".
"Quem decide, então?"
"E mesmo eu... tenho agora minhas dúvidas... a maneira que você se comportou... que está se comportando..."
"Você mereceu. Está merecendo!"
"Sara, isso não..."
"Você mereceu!"
"Tudo bem...". Ele alonga o Beeeemm para ganhar tempo. De modo a evitar o silêncio constrangedor. "Bom..." - outra técnica terapêutica para evitar o silêncio constrangedor - "Nós ainda não tivemos sessão essa semana. Podemos aproveitar o ensejo". 
"Seu divã é mais confortável que esta cama, mas tudo bem”.
Ele sorri. Não preciso voltar meu olhar para saber quando sorri. Coisas que vêm com a intimidade.
"Este lugar... é completamente diferente do que eu imaginei".
"E como você o imaginava, Sara?"
"Não sei... menos parecida com um hotel, celas, paredes acolchoadas, pessoas babando... essas coisas... estilo  "Um estranho no ninho" ou "Bicho de sete cabeças".
Ele ri novamente. E espera que eu comece. Eu o frustro. Não começo. Um pequeno silêncio constrangedor cai sobre nós. 
"Sara... Se você quer que eu te ajude, você tem que me contar sobre o que aconteceu. Sobre o que aconteceu naquela noite... a sua versão... só assim eu vou poder te ajudar..."
Fecho os olhos e as palavras do Dr. Villela rebatem na minha cabeça como bolas de Pinbal. Gritei tanto pela minha inocência, porém quando é hora de contar o meu álibi vejo que ele não é bom. Minha história é fantasiosa, difícil de acreditar. Os gatos pretos, o caldeirão no centro da cozinha... de repente, as evidências parecem fortes demais e minha história tão fraca. Parece que vou ter que continuar me limitando ao “Eu só errei a dose, só errei a dose”.
"Eu só errei a dose, só errei a dose".
"Sara, conte-me a história inteira, desde o princípio". 
Respiro fundo. Cedendo às insistências, resolvo arriscar. Começo pelo que eu acredito que seja o começo. 

*    *    *    *    *
O começo, ou pelo menos o que eu acredito que tenha sido o começo, foi meu rompimento com Alan. Meu mais longo relacionamento. Dez meses. Quase um ano. Ele tinha um emprego fixo, horário fixo, salário fixo, religião fixa – católico apostólico romano – e foi meu primeiro relacionamento fixo. Na verdade, era a única coisa fixa em toda minha vida. Já que não tenho emprego fixo – vivo da mesada de papai e da venda de alguns quadros (para amigos ricos de papai), horários fixos, nem ao menos um temperamento fixo. Durante os dois primeiros meses, eu me perguntava (e ao Dr. Villela) o que um homem como ele via em mim. Depois, simplesmente parei. Talvez, fossem nossos opostos que se atraíssem ou, talvez, lhe agradasse o modo como eu acordava despenteada pela manhã ou o fato de que fazia sexo oral olhando em seus olhos. Sei lá! Quem entende ou quem se importa com os podres meandros da mente masculina?
Durante os dois últimos meses, passei a me perguntar (e, também, ao Dr. Villela) o que uma mulher como eu via em um homem como ele. Dessa vez, cheguei a uma conclusão. Concluí que me relacionava com Alan pelo mesmo motivo pelo qual tomo sertralina e clozapina toda manhã: ajudava-me a ser mais estável, a agir e a me sentir mais normal. Porém, como todo psicotrópico, tinha uma dúzia de efeitos colaterais, e eu já estava começando a ficar incomodada com a diminuição da libido (ele também preferia fazer sexo em horário fixo). Porém, mesmo com essa minha constatação, o relacionamento continuou até minha epifania.
Estranho como algo tão significativo e tão sonoro – “epifania” – possa vir de um fato tão pequeno. Pelo menos a minha veio. No dia do acontecimento, ou melhor, na véspera dele, Alan passou em casa na volta da Igreja. Beijou-me. Conversamos normalmente. Fizemos tudo normalmente. Até que um dado momento ele se levantou e se posicionou em frente ao espelho. Começou a arrumar a gola da camisa. Desamarrotando-a. Todo metódico. Metódico não, religioso. E aquele momento me “iluminou”. No desamarrotar daquela gola, pude ver todo o meu futuro. Não gostei. O que eu vi? Jornal Nacional, Novela das nove, sábados no clube, igreja aos domingos.... Não há nada de errado com essas coisas, claro. Só não é a vida que eu quero para mim. Só não é uma vida que eu seria capaz de viver. Aquilo tudo me atingiu como um corte de navalha – e eu conheço bem a dor de um corte de navalha – e fiquei ali, parada, olhando, pensando, até que pulasse do fundo da minha mente, como às vezes acontece, aquilo que deveria ser só um pensamento furtivo:
“Não posso mais passar um segundo ao seu lado”.
Logo soube que não tinha sido só um pensamento furtivo no fundo da minha mente, pelo seu olhar. Um olhar perdido com o qual me encarou por uns dois segundos. Depois, devagar, como que pedindo permissão para pensar que era tudo uma brincadeira, foi abrindo um largo sorriso. Eu, sincronizada, fui fechando o semblante, para garantir que era sério. O sorriso desfez-se num repente. O olhar perdido voltou. Bateu-me o arrependimento.
Meu arrependimento não durou um segundo. Logo ele veio com toda aquela história de “eu não mereço isso”, “eu tenho direito àquilo”, “não pode terminar assim”, etc, etc. Por fim, meu arrependimento transformou-se em rancor. Alan era do tipo grudento. Não aceitaria um simples “acabou e ponto final” como ponto final de nossa relação. Ele acreditava merecer uma explicação. Então, resolvi dar-lhe uma. Não a verdadeira, mas aquela que seria mais eficiente para meus objetivos, aquela que terminaria tudo, que o magoaria mais:
“Preciso de alguém que me toque como se tocasse uma mulher de verdade e não a Virgem Maria”. 
A performance sexual. O mais profundo dos sujos meandros da mente masculina. O único que você deve se importar em conhecer, pois é onde o sexo forte torna-se mais frágil. Tal colocação mentirosa foi eficiente e limpa como horas e horas de conversas sinceras jamais seriam. Não que Alan não merecesse a verdade. Merecia. Mas, eu mereceria paz e aquela foi a única maneira que pude imaginar para consegui-la. 
Alan abaixou a cabeça em uma tentativa inútil de esconder o olhar marejado. Saiu com andar apressado, pisando duro, quase me atropelando. Abri caminho. Não me disse nada. Não olhou para mim quando passou. Não olhou para mim depois. Não olhou para trás. Não pegou suas coisas. Bateu a porta. Eu estava livre. Eu estava só. 

*    *    *    *    *

Estava só. Estava livre. Decidi tornar verdade ao menos parte do que havia dito a Alan. Precisava precisar de alguém. Ia procurar. Liguei para minha amiga Jéssica e logo marcamos um encontro em frente a um clube. Jéssica é o tipo de “mulher-garota” que conhece todos os bares, clubes, restaurantes, enfim, todos tudo da moda. Uma mulher superficial, mas capaz de entender meus momentos ruins de modo que muitas pessoas profundas não o são. E eu? Bom... eu sou capaz de ver através do disfarce de mulher devoradora de homens e ver a menina que ainda espera pelo príncipe encantado. Onde todos os outros vêem Carrie (ou, às vezes, Samantha) eu vejo Ally Mcbeal. 
Encontramo-nos por volta da meia-noite. Deixei o carro no estacionamento. Ela já me esperava por lá. Transbordava ansiedade. Mal esperou que eu acionasse o alarme, agarrou-me pelo braço direito e quase correu guinxando-me em direção a entrada ignorando a grande fila. O segurança olhou para ela como se a conhecesse (e, talvez, realmente a conhecesse) e deixou que passássemos sob os olhares furiosos e invejosos do restante da fila. Uma vez lá dentro, riu como uma menina de quinze anos que consegue entrar pela primeira vez na balada com o RG falso. Ri de sua risada. Ela ergueu a mão livre, soltou um gritinho empolgado e voou arrastando-me em direção ao bar. Abriu caminho como alguém em abstinência e pediu duas bebidas. Ri ainda mais. Àquela altura ainda achava que teria uma excelente noite. 
Eu bebi. Bebi demais para quem ainda ia dirigir de volta para casa. Bebi demais para quem toma clozapina e sertralina para estabilizar o comportamento. Bebi demais para quem toma Lexotan para aliviar a ansiedade. Bebi demais para qualquer um com o mínimo de responsabilidade. E eu dancei. Dancei como quem nunca dançara antes. Dancei como se tivessem anunciado e garantido que o mundo iria se acabar. Era uma grande noite. Durante a dança, um jovem tocou meu braço, percorrendo-o todo com a ponta dos dedos. Meus pelos se eriçaram. Virei-me para ele, pois me tocara como se eu não fosse uma santa...

*    *    *    *    *

Dançamos com movimentos sinuosos. Beijava-me com uma volúpia pagã que Alan tentara, mas jamais atingira. Havia em sua língua invadindo minha boca e roçando a minha, em suas mãos passeando por meu corpo com certa vulgaridade, em seus elogios xulos, em seus passos de dança ritualísticos, havia, enfim, no conjunto da obra, algo de excitantemente herege – um certo nível de sexualidade mundana – que eu sabia, Alana jamais seria capaz de alcançar. E eu teria ficado com esse belo estranho a noite toda, teria visto até onde iria essa mundanidade que Alan jamais fora capaz de me oferecer, se não tivesse tido uma epifania. Sim, outra. Ali! Circundada de música em volume ensurdecedor e cores em intensidade cegante. Ali! Tato amortecido pelo álcool. Paladar sobreposto por outra língua. Olfato empanturrado pela mistura de perfumes caros, baratos, suor e hormônios. Ali! Outra epifania! A segunda do dia!
Não, não é uma brincadeira, uma mentira, um exagero ou um truque para chamar a atenção. Não é nenhuma dessas coisas. Eu realmente tive duas epifanias na mesma noite. Mais do que uma pessoa pode ter em uma vida toda, eu tive em uma única noite. Eu estava ali, olhando para as luzes, para o cara que dançava comigo, para Jéssica, para o cara que dançava com ela e a minha segunda epifania me atingiu de forma rápida e grave como uma batida de música tecno, psy ou trance, sabe se lá como se chama o ritmo eletrônico da moda. Pude ver, então, o quanto aquilo que eu fazia era patético. Eu estava dando vida e cores a uma mentira! 
“Isso é patético!”. Pulou do fundo da minha mente. Porém, desta vez, não havia ninguém para ouvir. Ninguém para magoar. Isso me magoava e tornava tudo ainda mais patético. 
Desvincilhei-me dos movimentos sinuosos de meu colega de dança sob seus protestos: “Não pode me deixar assim!” Estranho como eles são tão rápidos em pular de seus desejos para direitos ignorando os nossos. Cruzei a pista de dança com passos rápidos e decididos. Não me despedi de Jéssica, não quis estragar sua noite, não queria que decidisse vir embora comigo. Ligaria-lhe quando chegasse em casa, esse era o plano. Parecia um bom plano na hora. Era um plano razoável. As coisas só saíram um pouco erradas. 
Não sei como, exatamente, dirigi até em casa. Devia ter chamado um táxi, mas achei que estava em condições de dirigir. Além do mais, precisava pensar. Dirigir sempre me ajudar a clarear as idéias. Foi uma decisão errada, irresponsável, eu sei. Não me recordo do caminho. A próxima recordação que tenho após deixar o clube? Eu, guardando o carro na garagem. Procurando em minha bolsa pelo meu porta-pílula, pelo meu Lexotan. Então, na rádio, começou: 

Eu andava meio estranho
Sem saber o que fazia, eu não sei
Andava assim eu não sei
Se era feliz

Decidi não desligar o rádio. Achei, tomei uma mãozada de pílulas. 

Eu achava que faria uma canção
E a melodia, eu não sei
Andava assim, eu não sei
Se era feliz

Reclinei a poltrona e recostei-me para apreciar a música e os efeitos do Lexotan e do álcool.  

Eu achava que faria tudo que não sei
Que amaria, eu não sei, fazer desenhos com giz 

Adormeci. Esqueci de desligar o motor do carro. 

Eu achava que faria uma canção nissei (não sei)
Eu me sentia, eu não sei, um americano em Paris
*    *    *    *    *

“Deixa eu ver se eu entendi... você está culpando Oswaldo Montenegro, Johnie Walker e os laboratórios Roche por sua tentativa de suicídio”?
“Não foi uma tentativa de suicídio! Quantas vezes vou ter que dizer isso... eu só errei a dose... de ‘Drops de Hortelã’, de Whisky ou de Lexotan... não sei ao certo...”
“Você estaria morta se Jéssica não tivesse ido atrás de você”.
“Eu sei! Eu devia estar em um hospital, mas não nesse tipo de hospital! Eu estaria se não fosse meu histórico!”
“Não é assim”.
“É assim, sim! Você não é a doença! É o que você vive me dizendo. O que você me disse para me convencer a morar sozinha. Mas, é tudo mentira! Tudo o que você vê é a doença. Tudo o que você vê é BORDERLINE!”
“Não, Sara. Eu mantenho tudo o que eu disse”.
“Então, por que você não acredita em mim? Por que diabos eu tenho que provar que não posso flutuar? Por que flutuar não pode ser algo bom? Hein!? Hein!? Pensei que você fosse diferente dos outros. Mas, você é igual ao resto da multidão com suas tochas e rastelos!”
“Sara, eu não estou entendendo nada”.
“Não precisa entender!” 
“Você tem que admitir que sua história é bem impressionante...”
“Eu sei... mas, você tem que admitir que se eu não fosse... espere um momento. Não há carta! Não há carta” – Viro-me. Sento-me na cama e olho em seus olhos, encaro-o pela primeira vez desde que acordei. 
“Sara, por favor, deixe de lado, por um momento, suas metáforas”
“Não, não tem metáfora. Não tem carta. Carta de suicídio. Ninguém achou nenhuma”. 
Seu semblante assume uma feição de surpresa. O Dr Villela me olha com atenção. 
“Agora, com tudo que você conhece de mim, de minha doença, acha provável que eu tenha tentando me matar sem deixar ao menos um bilhete? Sem um grito final?”
Um dos meus inquisidores balança, demonstra piedade.
“Eu sei que minha história parece extraordinária, mas esse não é um ponto forte a favor dela? Eu só errei a dose, Dr. Eu só errei a dose. E agora, você sabe que é verdade!” 
Eu sei que eu posso flutuar. Mas, é que meu pai era marinheiro...

*    *    *    *    *

“75 reais e 25 centavos”.
“Tenha uma boa noite”.
Abro a porta do carro e acomodo Johnie no banco do passageiro. Era para ser apenas uma saída para clarear as idéias, mas acabei vindo parar neste supermercado. Estou fora daquele lugar há dois dias, mas não consigo parar de pensar nele. Nem enquanto dirijo. Nem menos enquanto estava pedindo – inutilmente – perdão para Alan pelo telefone. Nem mesmo enquanto estava revendo Jéssica. Inútil. Tudo é inútil. A coisa toda permanece na minha cabeça. 
Ligo o carro e tomo o caminho de volta a casa. Eu estava certa o tempo todo. O Dr. Villela mentira. Desde o começo. Afinal, ele era meu médico. Afinal, ele tem honorários caríssimos. Bastava que ele falasse ao meu favor. Todos iriam ouvi-lo. Mas, não é isso que está na minha cabeça agora. Não é isso que não me deixa dormir. É que todos eles são iguais: minha família, Dr. Villela até mesmo Jéssica. Todos iguais. 
Pensei que eles eram diferentes, mas tudo que eles viram foram os gatos pretos. Eram iguais ao resto da multidão com tochas e rastelos. Pode-se dizer que eu estou sendo muito dura com Jéssica, afinal, ela salvou minha vida. Porém, quando eu precisava de compreensão, foi incapaz de acreditar em mim. 
Chego em casa. Guardo meu carro na garagem. Procuro no porta-luvas, encontro um CD e ponho-o no rádio. 

Eu andava meio estranho
Sem saber o que fazia, eu não sei
Andava assim eu não sei
Se era feliz
Procuro em minha bolsa pelo meu porta-pílula, pelo meu Lexotan. Encontro. Tomo uma mãozada impulsionada pelo Johnie que consumo no gargalo com dificuldade pela garrafa ainda pesada. 

Eu achava que faria uma canção
E a melodia, eu não sei
Andava assim, eu não sei
Se era feliz

Você não é a doença, é o que eles vivem me dizendo. Besteira! Tudo que eles vêem quando olham para mim é Borderline! Esse é um mundo onde o importante é ser como a multidão. Um mundo que condenou a magia e glorificou a tocha e o rastelo. Um mundo onde flutuar é uma coisa ruim. Minha família, Jéssica, Dr. Villela tudo que eles querem é arrancar a bruxa de dentro de mim, arrancar minha paixão pelos gatos pretos, me fazer mais uma na multidão. Dar-me uma tocha. Fazer-me uma daquelas que afundam. Trazer-me para esse mundo. 
Um mundo onde eu prefiro não viver. 

Eu achava que faria tudo que não sei
Que amaria, eu não sei, fazer desenhos com giz

Não desligo o motor do carro. 

Eu achava que faria uma canção nissei (não sei)
Eu me sentia, eu não sei, um americano em Paris

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Sobre a Morte Serena


por Denis Barbosa Cacique

O falecimento da italiana Eluana Englaro, três dias após terem sido suspensas sua nutrição e hidratação, acabou por colocar mais lenha na fogueira da já acalorada discussão em torno da eutanásia. Vítima de um acidente de carro, ela encontrava-se em estado vegetativo fazia 17 anos. Nessa condição, embora o ser humano conserve suas funções vitais, faltam-lhe consciência de si e do ambiente, além de reações comportamentais a estímulos externos. De certo modo, falta-lhe também esperança, porque, mesmo hoje, ainda não há métodos diagnósticos que possibilitem determinar a reversibilidade de quadros desse tipo. Tendo isso em vista, não é difícil encontrar quem considere que a vida, nessa condição, bem como em outros quadros de alta gravidade, torna-se um peso insuportável tanto para o doente como para os seus entes. Donde concluem que a morte, nesses casos, é, antes de tudo, um benefício para o enfermo e as pessoas que o cercam. Mas nem todo mundo pensa assim. Os cristãos, por exemplo, vêem a vida como uma dádiva divina, que, enquanto tal, deve ser preservada mesmo em momentos de grande sofrimento. Ora, que lado está correto, afinal?

Embora a discussão em torno da eutanásia pertença à esfera da ética, ou melhor, da bioética, seus opositores e defensores não devem ser vistos através a lente simplista e freqüentemente imprecisa do maniqueísmo. Dizer que um deles representa o bem, ao passo que o outro, o mal, requer que se ignore o fato de que ambos crêem estar lutando pelo que consideram ser correto, e, mais do que isso, que os argumentos com os quais eles se digladiam parecem ser igualmente válidos, embora tenham objetivos claramente contrários. As duas frentes crêem ser defensoras da dignidade de doentes em quadros irreversíveis. E advogam pelo direito de o ser humano recusar tratamento e encerrar uma vida carregada de sofrimento físico e psíquico, ou, por outro lado, pelo direito de o ser humano manter-se vivo, ainda que ele mesmo não possa manifestar esse desejo e ainda que seja uma vida repleta de desconfortos e de sofrimento.

Deixando de lado o fato de que há diferentes tipos de eutanásia e que os debates a favor e contra cada um deles, o ativo e o passivo, são tão calorosos quanto o próprio debate a favor e contra a eutanásia, pode-se elencar quatro argumentos comumente empregados a favor da “morte serena”: em primeiro lugar, é um direito inalienável do ser humano a sua autonomia, quer dizer, seu direito de se autogovernar e de agir livremente; em segundo lugar, a realização da eutanásia produz mais bem do que mal, principalmente através da cessação do sofrimento; em terceiro lugar, não há substantiva distinção moral entre eutanásia ativa e passiva; e, por fim, sua legalização não produzirá malefícios à sociedade.

Do outro lado do debate, destacam-se os seguintes argumentos: primeiramente, defende-se que sua legalização poderia resultar em abusos, sobretudo se ela caísse nas mãos de pessoas inescrupulosas; em segundo lugar, contesta-se que a medicina seja uma ciência exata, e, por conseguinte, que a noção médica de irreversibilidade seja totalmente confiável; em terceiro lugar, sua legalização submeteria os doentes graves e terminais a uma terrível pressão psicológica, haja à vista que eles teriam de conviver com a idéia de que poderiam abreviar o sofrimento de seus entes caso, simplesmente, viessem a optar pela eutanásia; em quarto lugar, sua legalização abalaria os alicerces da confiança entre médico e paciente. O médico deve ser aquele que expulsa a dor do homem, e não o contrário disso. A esse respeito, vale recordar um trecho do Juramento de Hipócrates, em que se diz “Manterei o mais alto respeito pela vida humana, desde sua concepção. Mesmo sob ameaça, não usarei meu conhecimento médico em princípios contrários às leis da natureza.”; e, por fim, supõe-se que a sua legalização abriria caminho para que, mais cedo ou mais tarde, começassem a defender semelhante medida contra todo tipo de pessoas indesejáveis, como doentes mentais e criminosos, por exemplo.

Afinal, qual desses dois conjuntos de argumentos é o mais correto? Pensando bem, não é o caso de reconhecer que ambos fazem bastante sentido e que, além disso, os dois, cada um a seu modo, parecem comprometidos com o bem da humanidade? Na verdade, a grande diferença entre eles é implícita. Todo argumento possui uma pedra fundamental, uma base segura a partir da qual o raciocínio se desenvolve. Nesse sentido, o debate em torno da eutanásia é mais do que uma simples disputa entre argumentos, é uma longa jornada percorrida pela razão na busca por princípios. Mas, com as mãos estendidas à sua frente e sem saber ao certo para aonde vai, ela vagueia no universo gigantesco e assustadoramente escuro da metafísica, e é exatamente ali, onde os equívocos são perfeitamente perdoáveis, que ela tem de encontrar as pedras fundamentais da liberdade, da natureza da alma, da dignidade humana, do sagrado, dos porquês do sofrimento, do certo e do errado, do valor e do sentido da vida.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

É tudo culpa do Rambo

por B. F. Teixeira

Três horas. Chego em casa, cansado de tantas horas extras, ombros cheios de fardos trazidos do trabalho. Sou recebido por Babu, o coquer da família. Seu abanar de cauda frenético, olhar fixo e condescendente são os mais sinceros gestos que um ente é capaz de produzir. Ao olhar em seus olhos, obtenho meu consolo. O simples fato de que uma criatura dependa tanto de mim, faz tudo valer a pena. Um pouco da pressão que trouxe de fora deixa os meus ombros. Mas, esse é só o começo de minha recepção. A seguir, meu filho – que provavelmente acordou com aos latidos de Babu – desce as escadas correndo, usando um pijama colorido, e pula em meus braços, ainda sem ter atingido o último degrau do lance. Eu o rodo. Giro-o, enquanto grito “filho” e ele gargalha alto. Sem se importar com os vizinhos, sem se importar com nada, com a doce ignorância e com suave egoísmo infantil. Rodamos tão rápidos quanto um CD e nossas risadas fluem feito dados. Durante esses instantes tudo o que sinto é alívio. O fardo de meus ombros vai pouco a pouco sendo lançado pela tangente e os meus ossos vão voltando ao local certo. Quase posso ouvi-los estralando. E, só então, vislumbro o terceiro e último ato de minha calorosa recepção. Minha esposa nos olhando do alto da escada com o doce olhar de reprovação que só as mães conseguem fazer. Largo meu filho brincando com Babu e subo a escada em passos largos e lentos – pulando um degrau a cada passo. Aos poucos, a reprovação deixa seu olhar e a ternura lança-se em um sorriso. Pego-a em meus braços, pela cintura, como costumava a fazer quando éramos apenas namorados. Ela me beija ternamente e se livra de meus braços. “Não sou mais tão leve quanto antes”. “Nem eu tão forte...” O sorriso se fecha! Uma faísca ameaça uma explosão!” “Mas, você continua linda...” A faísca se desfaz. Alarme falso. O sorriso retorna. Ela me pega pela mão e me leva até nosso quarto, onde pergunta sobre o meu dia, me escuta, faz-me uma massagem nos ombros que elimina o restante do fardo e por fim.....

Tudo isso, é claro, não passa de fruto da minha imaginação. Babu não existe, porque Keyla é alérgica a pêlo de cachorros. Ainda não testamos, mas há uma grande chance de que Telmo também o seja. Por isso, não há abanada de cauda, não há olhar de dependência, não há latidos para acordar nem Telmo, nem sua mãe. E por isso, não há risos, não há giros, não há alívio. Todo o fardo que trouxe de fora continua pensando sobre meus ombros. A única verdade é que não sou tão forte quanto antes. E, o pior, ainda manco da perna direita... Estou me sentindo um lixo e só queria não estar sozinho. Minha baía me isola também em casa. Faço alguns ruídos para acordar alguém. Inútil. Patético. Tão “Desesperate Workinghusband”. Paro, antes de parecer uma menininha. Conformo-me com a idéia de que o único calor que encontrarei esta noite, virá da garrafa de martini em meu bar.

Encho o copo e largo o corpo no sofá, uma versão decadente de “Um morto muito louco”. Parte do líquido cai sobre a camisa. Lamento mais pela bebida do que pela camisa. Lamento. Tanto pesa o pesar que é só o que faço. Lamentar. Só o que sinto. Não tenho forças nem ao menos para sentir raiva. Devia, agora, tirar a camisa num estourar de botões estilo Superman, mas, ao invés disso, desabotôo-a como se cada casa estivesse dentro de minha pele. Um botão, uma bebericada de martini. Os botões acabam. O copo termina. Lamento. Reencho-o. Lamentar era tudo o que eu realmente queria fazer agora. Mas, não há ninguém para ouvir.

Levanto-me lentamente e caminho em direção a vidraça do meu apartamento. Os faróis não passam apressados. Nenhum. Apenas as luzes dos postes lutam para iluminar a noite tempestuosa. A cidade está deserta. A cidade está parada. É a Merda. Como eu batizei este fenômeno. Fenômeno que eu previ há quase 30 anos. Há 30 anos eu já tinha sentido seu cheiro. A nova geração vindo correndo até a minha. Esta nova geração de bundas amolecidas e pés de carpetes fofos não poderia recorrer à seus próprios pais - gordos, mancos, criados a McDonalds e Prozac. Tudo o que restaria a eles, frágeis crias dos 00’s, seria vir à nos – filhos dos 80’s – de joelhos, chorando, implorando, por salvação. E eu, e nós, em pé, ainda em forma, com a farda indefectível, um uníssono: NÃO!!! Que ressoaria por seus ouvidos danificados pelas merdas de seus Ipods ou Mpqualquercoisa. E, aí, desacostumados com o som dessa palavra, os 00s se perdem e correm sem direção como uma manada perdida. Até encontrar um predador - o cano frio de uma arma – e ouvir o mais assustador de todos os rugidos – “Perdeu, playboy” - seguido de dois estampidos. O cano torna-se quente. O sangue tentando escorrer para os sempre entupidos esgotos desta cidade... Rico ou pobre, não importa. A questão sempre foi : essa geração ia se matar. Por diversão ou por um tênis, para colocar vídeos bizarros na internet ou para ter dinheiro para equipar o carro. Vocês sempre estiveram fadados a se matar, geração 00!! A polícia impotente. Nós nas ruas! Com nossas fardas indefectíveis, NÃO em uníssono para os dois lados! Eu previ isso! Senti o cheiro da merda! Eu devia estar lá embaixo! Liderando-os! Mas, agora, não passo de um gordo, manco, funcionário burocrático. Tomo Prozac e como McDonald's. Até parece que baixei pra geração 90. Não passo de um Aspone do caralho! Aspone do Caralho! É isso que eu sou. A vida inteira eu fui treinado para fazer algo importante, e justo agora, na hora em que é preciso, na hora em que mais precisam de mim, na hora em que eu sabia que seria preciso, eu não passo de um Aspone do Caralho! Aspone manco do Caralho! Todos cagam para mim! E com razão! Eu não estou lá embaixo e é tudo culpa do...

A campainha toca e me tira dos pensamentos. Caminho até a porta. Copo na mão bebericando o Martini. Olho pelo olho mágico: Almeidinha. Filho do Tenente Almeida. Mora no prédio. Nunca veio aqui. O que faz aqui uma hora dessas? Só pode ser merda. Veio me fazer pergunta de merda.

Abro a porta.

“Almeidinha”. Sei que ele odeia. Para irritar o moleque mesmo. Quem sabe provocar uma saída rápida.

“Ferrara, desculpa por ter vindo essa hora. Mas, eu vi a luz acesa. Posso entrar? Não vou demorar.”

“Pode”.

“Só quero fazer umas perguntas...”

“Que perguntas?...”

“Bom, eu acabei de assistir Rambo V e.....”

* * * * *

Tenente Almeida. Pergunte a qualquer um de minha geração e deverá ouvir a mesma resposta: “grande homem”. Ninguém fala mal dos mortos, ainda mais entre nós. Ainda mais dos mortos em combate. Combate!? Você deve estar se perguntando com estranheza. É claro, é compreensível, diante do que vejo ao longe pela janela, diante do que meus ex-colegas (que estão onde EU deveria estar) enfrentam nas ruas todos os dias, diante do que você, civil, vê na sua vizinhança diariamente, “aquilo” pode parecer pouco. Porém, jamais ouse reduzi-lo a um homicídio ou a um acidente. Aquilo FOI um combate. Não apenas por suas proporções para época, mas porque aquilo foi o sinal. O sinal de que algo terrivelmente errado estava começando, estava aflorando de dentro de nós e estava piorando. Foi naquele momento, sob a chuva torrencial, peito na mira do rifle, que previ a tragédia que agora se abate sobre, sob e em volta de nós. Sim! Eu estava lá! Essa é a outra razão pela qual insisto em chamar o evento de combate. Pois, se a Guerra Fria é chamada de Guerra, aquilo pode ser chamado de combate. Eu estava lá. Senti a tensão, a batalha psicológica, a caçada, o destino do mundo no fiel dos gatilhos. Ao menos, o destino de nossos mundos. Naquela noite, um mundo, ao menos, acabou. O mundo do tenente Almeida! Ele não devia ter aparecido lá. Aquela era minha missão! Tenente Almeida dizia conhecer o mundo, os seres humanos. E jamais se envergonhou de fazer uso desse conhecimento para ridicularizar, humilhar e parodiar. Mas, o mundo estava mudando, naquele exato momento. E ele não foi capaz de perceber. Essa foi a diferença entre nós dois, ainda que eu tenha pago um preço alto demais. É sobre essa noite que Almeidinha veio me perguntar, eu sei. Agora, como contar algo que não gosto de lembrar nem sob efeito de uma garrafa de Martini? Talvez, nem mesmo sob o de duas? Mas, como negar a um filho e, agora, companheiro de armas, uma explicação sobre a morte do próprio pai? Como negar-lhe algo que não é apenas uma questão de direito, mas de honra?

Interrompo-o. Faço-o um sinal para que entre. Outro para que sente. Ainda sem dizer nada pego um copo e coloco a sua frente na mesa de centro da sala. Sento na poltrona olhando em seus olhos. Encho seu copo. Reparo em seus maneirismos. Almeidinhha está visivelmente nervoso. Coloca e tira as mãos do bolso a todo instante, movimenta as pernas repetidamente marcando um ritmo inaudível, pisca quase em código-morse (só com as curtas). Não, Almeidinha não está nervoso. Isso transcende o nervosismo, suas olheiras são a prova cabal: Síndrome do Combatente Urbano (ou Síndrome do Paulistano, como prefere a parte mais vingativa da imprensa carioca). Talvez, haja uma forma de contornar o assunto daquela noite...

Almeidinha vira o copo. Seu rosto se distorce todo. Tsc. Fraco. Acostumado com Ices, misturas com energéticos e outras merdas do tipo. Típico fruto de sua geração. Não me surpreende que a campanha urbana seja tamanho fracasso. Encho seu copo novamente e coloco meu plano em prática antes que ele coloque o seu. Afinal, não deixarei que um moleque me ataque diretamente em meu próprio território:

“Como estão as coisas lá embaixo?”

“Um inferno”.

“Quando você volta?”

“Amanhã”.

“Só um dia de folga?”

“É”.

Só um dia de folga e o moleque vai ver Rambo V E depois ainda vai querer ouvir detalhes da morte do pai – que não foi um derrame ou um ataque cardíaco. Para fechar a noite de modo agradável, vou propor que vejamos “Apocalipse Now”. A Síndrome da Burrice é ainda a pior das síndromes.

“É calmo aqui... quase não se pode ouvir os disparos... as explosões... sabe como nós chamamos aqui?”

“Perdizes?”

“Não, o outro lado da linha de tanques?”

“Não...”

“Céu... Fronteira de São Pedro é como nós chamamos a linha de tanques.”

“Para onde você vai amanhã?”

“Guarulhos”.

“Ouvi dizer que as coisas estão difíceis por lá”

“O Vietnã Urbano. É como estão chamando. Não estão exagerando”.

“Talvez, sim. Ainda não começou a chover Napalm pela manhã. O governo continua a negar a autorização para bombardeios”.

“É só uma questão de tempo até cansarmos de perder homens e mandar o governo à merda. A Fronteira de São Pedro está pronta para fazer as bombas voarem como varejeiras na carniça”.

“Burocratas. Então não é uma questão de tempo, é uma questão de cadáveres”.

“Já perdermos muitos homens bons, me emputece saber que teremos que perder muitos mais para que esses colarinhos brancos do caralho abram os olhos” – ergue o punho cerrado como se fosse socar a mesinha, mas aperta os olhos e se contém no que parece ser um esforço hercúleo, treme todo antes de recuperar a pose.

“Mas, não foi dessas mortes que eu vim tratar. Foi de uma morte específica. E você sabe disso”.

Minha vez de tremer.

“Você já deve ter ouvido essa história milhares de vezes...”

“As pessoas sempre tiveram pudores em comentá-la perto de mim. Nunca a ouvi do jeito que queria, você é o único capaz de contar... Eu preciso saber.... Amanhã, vou voltar para aquele inferno onde posso ser o próximo homem bom a cair!” – Os tremores, as piscadas aumentam, passam a um ritmo frenético. Seguro em seu braço de forma forte, quase paterna, transmitindo calma para evitar um ataque.

“Tudo bem”.

Ele se senta. Diminuindo o ritmo das piscadas, dos tremores.

“Só um instante”

Caminho até o banheiro. Garrafa de Martini na mão. Dou uma golada no gargalo. Meu ataque falhou. Ele me fez lembrar. Entro no banheiro, fecho a porta e paro diante da pia encarando o espelho. Vejo em meus olhos a tensão voltando, a preparação para matar, para morrer: o instinto guerreiro! A vontade de destruir volta com tudo. Depois de todos esses anos sublimada atrás de uma mesa e seus papéis, ela volta: destruir, destruir, destruir!

Ergo a garrafa sobre a cabeça como uma clava e inspiro forte... Destruir! Expiro de uma só vez em um brado bárbaro enquanto meu braço desce em um golpe violento contra a pia. Espero pelo ruído de centenas de cacos de vidro contra ao chão. Ao invés disso, há apenas um baque surdo: a pia! A pia quebrou! A garrafa está intacta! Inspeciono-a incrédulo, mas não encontro rachadura que seja. Um milagre! Um sinal! Meu instinto guerreiro será revisitado esta noite, mas para isso devo beber a garrafa toda. Ela será minha companheira, minha guia, meu norte, como minha 9mm foi naquela noite fatídica. Ela será o instrumento de minha coragem, ela salvará minha vida. Não mais se quebrará. Dou outra golada e retorno para a sala mais do que pronto para confrontar Almeidinha. Sento-me na poltrona a sua frente. Reparo em seus tiques da síndrome do paulistano, dou uma longa golada no gargalo e começo a contar...

* * * * *

Era diferente naquela época. Eram os anos 80. Estávamos no controle do país. Já havia alguma abertura, mas ela ainda não tinha chegado até nossa unidade. Afinal, era uma unidade de elite. Havia combatido na segunda guerra. Na Segunda Guerra Mundial!! Nela, um recruta ainda pertencia a seu superior. Nela, eu e Cabelo pertencíamos a seu pai.

Seu pai não era um homem fácil. Era um homem amargo, cínico. Passara a primeira metade da vida preparando-se para algo que – do seu ponto de vista – jamais veria. Não sei se por amargura ou por cinismo, talvez por um pouco de cada, resolveu passar a segunda metade preparando outros para a mesma coisa. Jamais acreditou em nada como “ou deixar a pátria livre ou morrer pelo Brasil”, apenas o prazer sádico de compartilhar sua frustração o motivava. O prazer de disseminar a desilusão. O que, quando se está submetido a um treinamento como aquele, tem efeitos devastadores. Na sua moral, na sua cabeça. Eu não me deixei envolver, porque de alguma forma eu sabia que seu pai estava errado. O Cabelo, infelizmente, não tinha uma capacidade de previsão tão aguçada ou convicções tão fortes. E, de alguma forma, aquilo tudo foi mexendo com ele, mas não como seu pai esperava...

Não tinha como prever, não tinha como saber. Ele não tinha manias estranhas, olhares psicóticos, não repetia frases... não tinha como saber. Um dia, tomando uma cerveja, em uma de nossas folgas, olhou para cima e disse: “Um dia, ainda meto uma azeitona nos córneos o Almeida”. E eu ri. Não me olhe com essa cara! Se bastasse isso teriam mantido o batalhão inteiro sob constante vigilância. Acredite em mim, não tinha como saber o modo com que a coisa toda tinha bagunçado com a cabeça dele. Eu mesmo só vim a saber alguns anos depois...

* * * * *

Eu já era sargento. Cabelo era cabo. Era uma noite de verão. Ele estava de folga, eu de serviço. O tédio de sempre, até que fui chamado ao comando. Na sala estavam seu pai e Sasserini, comandante da unidade. Quando o vi, tentei logo imaginar que tipo de merda meus recrutas podiam ter feito. Que tipo de merda (uma bem foda, é claro) seria capaz de trazer Sasserini ao QG num sábado a noite? Entrei, bati continência. Sasserini ordenou que me sentasse. Assim que sentei-me, virou-se para mim num repente como uma besta-fera:

“Onde ele está? Onde ele está?” A cara grande e gorda, a barba grisalha por fazer, a poucos centímetros do meu rosto. Os olhos esbugalhados fixos nos meus. Gritava e cuspia, gritava e cuspia. Pelo canto do olho podia ver seu pai no canto da sala rindo pelo canto da boca. “Onde ele está? Onde ele está?” Gritava e cuspia, gritava e cuspia. E o som preenchia a sala como uma maré rouca. E eu como um rochedo. Firme. Esperei.

“O senhor se refere a quem?”

“Cabo Souza. Está ciente de seu paradeiro, sargento?”

“Não, senhor”

“Tem certeza, sargento? Tem certeza, sargento?” Aproximou-se ainda mais. Gritou ainda mais. Banhou-me ainda mais. Porém, dessa vez, deu-se por satisfeito com apenas uma repetição.

E, então, eles me explicaram. Cabelo – Cabo Souza para eles – havia ido a uma festa naquele sábado. Uma festa a fantasia, trajado de Rambo. Tudo poderia ter acabado bem se ele não tivesse “emprestado” um fuzil da unidade para deixar a fantasia mais real. Tudo ainda poderia ter acabado bem se ele não tivesse levado munição e não tivesse deixado uma garota tocar o fuzil, o que resultou em uma pequena rajada acidental, no fim da festa e em um pequeno caos no centro da cidade. Quando a polícia chegou, vinte minutos depois, Cabelo já tinha tido tempo para fugir e se esconder umas três vezes.

Hey! Não faça essa cara! É verdade! Lembre-se que eram os anos 80! Naquele tempo, um fuzil, era um fuzil, uma coisa a se respeitar. Não é como agora que você escuta disparos em cada esquina. Uma rajada, naquela época, era coisa de Vietnã. E aquele seria o meu Apocalipse Now. Pois, eu saí daquela sala com uma missão: encontrar o Cabo Souza, prendê-lo, recuperar o fuzil e o restante da munição.

* * * * *

Eu era o homem certo para a missão. Era rígido, disciplinado, focado. E, é claro, conhecia o Cabelo desde pequeno. Sabia onde ele morava. Conhecia sua mãe. Era seu amigo antes e durante todo o serviço militar. E, além de tudo isso, ainda tive um namorico com a sua irmã. Foi por isso que a primeira coisa que fiz para saber onde o Cabelo estava entocado foi falar com ela. Porque ela sabia onde ele estava. Eu conhecia o amigo que tinha. Ele era assim. Surtava quando uma merda acontecia, saia do prumo, não sabia o que fazer. Sempre tinha sido assim. Desde pequeno. Não ia ter mudado de uma hora para outra. Precisava de alguém que lhe dissesse o que fazer, para onde ir, até que esfriasse a cabeça. Eu estava no QG de serviço. Sobrava sua irmã. Fui fardado para demonstrar importância.

No começo ela tentou esconder o paradeiro do irmão, disse que ele ia se entregar mais tarde. Mas, eu a convenci que já era tarde demais. E ela me contou: Ele estava na fazenda da família. Sem mais, peguei meu carro, minha 9mm e parti.

* * * * *

Já era noite quando cheguei. Uma noite escura. Chovia. Chovia torrencialmente. Barro por todo o lugar. Parei o carro em frente a porteira, desci, abri-a, voltei para o carro e entrei na propriedade. Bastaram esses breves segundos para encharcar a minha farda. Nada. Nem sinal do Cabelo. Quando terminava de manobrar o carro, ouvi um ruído. Não era um trovão, era um disparo. Um disparo de fuzil. Um disparo de aviso.

Segui a direção da origem dos disparos. Meu coturno afundando até o começo do cano. A chuva e a noite escura dificultando minha visão.

"Alto lá" - a voz do Cabelo. Um relâmpago iluminou a noite e pude vê-lo claramente. Estava em uma trincheirinha, o rosto quase irreconhecível numa mistura de pele, lama, cabelos emaranhados e a faixa vermelha. Uma imagem cômica, não fosse o fuzil apontado para mim. Não fosse o peso da mira sobre o meu peito.

"Sandro, sou eu. Sandro, larga essa arma e vamos embora".

"Não! Eu quero o Comandante Almeida! Onde está o Comandante Almeida!?"

"Ele não está aqui. Eu fui mandado. Para levar você de volta."

"Não! Eu quero o Almeida! Não saio daqui enquanto ele não vir limpar a sujeira que fez!"

"Sandro, ele não vai vir. Vamos embora".

"Não! Dá meia volta e telefona pro QG!"

"O que!?"

"Telefona pro QG e diz que eu quero o Almeida. Só volto, só devolvo tudo quando ele vier buscar!"

"Eu não vou fazer isso. Sandro, por favor, é melhor pra você..."

"Caralho, Pedro!! Eu não estou brincando!!"

Então, ele preparou. Apontou. Senti o peso da mira aumentar sobre o meu coração. Ele dispararia. Tenho certeza.

Fomos interrompidos por dois faróis que rasgavam a noite escura. E iluminavam a trincheira. Só então pude ver meu amigo claramente. Sua expressão, seu olhar. Neles, não havia nada de patético ou de engraçado. Pelo contrário, havia um ar para lá de resoluto, mais do que determinado. Havia algo de anormal em sua expressão, algo havia acontecido com sua cabeça... e eu só pude perceber naquele instante...

"Hey, Souza... dessa vez você aprontou uma "merda-foda". Tsc, tsc. Vamos lá, passe o fuzilzinho para cá e eu vou tentar limpar a sua cagada". Era seu pai. Havia me seguido.

"Almeida..."

"Comandante Almeida... É melhor não se aproximar senhor, por favor".

"E o que ele vai fazer? Atirar em mim? Você não vai atirar em mim, não é Souza?" Senti o coração sendo aliviado do peso da mira.

"Senhor, não se aproxime".

"Ouvi direito, sargento? Você está me dando uma ordem? Isso foi uma ordem?"

"O senhor está interferindo com o bom andamento de uma missão oficial" - saquei minha 9mm e apontei contra seu pai - "Não vou pensar duas vezes antes de abrir fogo".

Então, houve um disparo. Cabelo. Meu joelho direito. Seu pai correu para me ajudar, eu tentei disparar antes, mas a dor me tornou lento. Uma rajada curta atingiu o peito do seu pai antes que eu pudesse disparar.


* * * * *


Assim, terminou aquela noite. Seu pai e meu melhor amigo mortos. E eu incapacitado de tomar parte do evento para o qual treinei, do evento pelo qual esperei, de ajudar na hora em que mais precisam de mim".

"O senhor ajuda, Sargento".

"Mas, não lá embaixo. Não do jeito que eu gostaria. Não do jeito que é preciso". Termino mais uma dose de Martini.

"Peço desculpas por lhe fazer relembrar essa história. Mas, eu precisava ouvi-la dessa maneira. Precisa ouvi-la contada por você.."

"Entendo... mas, posso fazer uma pergunta?"

"Claro".

"De onde veio esse desejo de saber a verdade toda, agora? É mesmo verdade a história do Rambo V?"

"Por que a pergunta?"

"Não... é por que... bom, seu único dia de folga... achei estranho escolher um filme de guerra..."

Almeidinha ri. "É mentira. Na verdade, ontem, eu recebi a visita do Dr Guedes, o médico da unidade na época, e ele me contou uma versão bem diferente da história..."


* * * * *

Tento alcançar a garrafa no centro da mesa. Mas, ele é mais rápido e forte, golpeia meu joelho com o seu. O golpe é seco e traz a dor do disparo de volta do baú das lembranças. Minha guarda se abre. Seu punho atinge minha face em cheio. Desabo sobre minha mesinha de centro, meu braço esbarra na garrafa, sem conseguir pegá-la, ela cai, e se quebra ao tocar ao chão. Sinto o sangue melar meu rosto, dificultar minha respiração, encher meu paladar com seu gosto ferroso. Almeidinha se coloca sobre mim, olhos esbugalhados, mãos tremendo, pressionando o meu pescoço:
"Guedes disse que ninguém averiguou. Que a bala que matou meu pai não fez uma trajetória ascendente. Fez uma trajetória retilínea! A bala não partiu da trincheira!! Você o matou! Você o matou!" - bate minha cabeça contra o chão da sala duas vezes - "Por que!?? Por que?!?? Não faz sentido!! Não faz sentido!! Seu amigo já estava morto!! Você já estava inválido!! Por que!?? Por que!!?? Vim até aqui para saber!! Por que!?? Por que!?? Não faz sentido!! Não faz sentido!!
O que não faz sentido é tentar arrancar uma resposta de alguém com o nariz quebrado enquanto tenta estrangulá-lo e bate com a cabeça dele contra o chão da sala de estar. O que não faz sentido é deixar a única coisa no recinto que pode servir como arma próxima à minha mão direita. Meu instinto guerreiro voltou à toda. O corte do objeto é tosco, mas o meu é preciso. Como o de um cirurgião ou açougueiro. Rasgando, em um único movimento, jugular e carótida. Suas mãos se afrouxam, ele obtém sua resposta:
"O que não fazia sentido, era deixar o filho da puta do seu pai sair inteiro daquela. Isso sim, não faria sentido".
Ninguém acordou. Estou só. Como naquela noite. Hoje a garrafa substitui a 9mm. Encosto no sofá enquanto Almeidinha sangra, sufoca e tenta gritar como um porco. Observo e respiro fundo. Ninguém vai averiguar. Todos culparão a sindrome do combatente urbano. Ninguém fala mal dos mortos. Ainda mais entre nós. Ainda mais dos mortos em combate. Amanhã, teremos outro enterro de herói.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

O Fim do Ócio



por Denis B. Cacique

Já não é possível imaginar a vida moderna sem o seu corre-corre peculiar. Sintoma dessa correria é a constante sensação de que os dias deveriam ter bem mais que 24 horas. O modo de vida moderno torna cada vez mais raro o tempo livre, quer dizer, plenamente livre, como num ócio completo, sem trabalho, faculdade, trânsito e televisão: tão livre que entedia. E isso é ruim. Por mais estranho que possa soar, a verdade é que o ócio foi um fator social importante para o surgimento e desenvolvimento acelerado de importantes áreas do saber, como matemática, filosofia, política e astronomia. Essa estranha relação foi possível porque, por volta do século V a.C., a organização social das cidades gregas era basicamente machista e escravista, e uma conseqüência disso foi que os cidadãos ricos, que viviam à custa do trabalho alheio, de mulheres e de escravos, podiam se dedicar integralmente a debates públicos sobre os mais variados temas, desde política até astronomia.

A biografia de Sócrates ilustra bem a importância do ócio para o desenvolvimento do saber. Ele acreditava que todos os seres humanos já nasciam possuindo idéias verdadeiras a respeito da realidade. No entanto, só era possível despertar essas verdades por meio de um processo de recordação, no qual elas abandonavam os confins da alma para habitar o palco da consciência. Uma das formas de fazer isso era bastante simples: Sócrates propunha questões a seus discípulos e, através de um longo e sistemático debate entre eles, a solução do problema sugerido acabava se tornando evidente. Ao fim desses diálogos, seus discípulos sentiam como se a verdade tivesse sido encontrada e removida do interior de suas próprias almas, como num “parto intelectual”. Não por acaso, portanto, o método socrático de ensino recebeu um nome que é bastante familiar aos obstetras, “maiêutica”, que significa, literalmente, “arte de dar à luz”.

O problema é que debates desse tipo preenchem várias horas. Além disso, Sócrates não dispunha das conveniências de uma sala de aula. Era principalmente nas praças e nas ruas de Atenas, cidade onde viveu e passou toda sua vida, que ele dialogava com todo o tipo de pessoas. De tal maneira que bastaria supor que Sócrates passara toda sua vida trabalhando, como camponês, por exemplo, para que todos os seus ensinamentos desaparecessem. Pois, nesse caso, quase sempre lhe faltaria tempo para a reflexão e para os debates filosóficos. E, mesmo quando ele o tivesse, talvez, então, lhe faltariam energia e disposição, indispensáveis à atividade intelectual. Sem o ócio, a reflexão filosófica, bem como de todas as outras áreas do saber, é tímida, ocasional, breve e pouco promissora. Obviamente, é claro que, para alguns profissionais, como professores e cientistas, a relação para com o saber é avessa ao ócio. Mas esses casos são exceções. A maioria das pessoas não é professor nem cientista. Além disso, no Brasil, por exemplo, ainda são muitas as crianças e adolescentes que, devido a obrigações para com o sustento familiar, sequer podem freqüentar a escola, ou o fazem muito precariamente: cansados, com sono e, não raramente, com fome, assistem a aulas alternando bocejos, equações, cochilos, figuras de linguagem, lapsos de atenção e grupos carbonetos. Donde se vê que o mero freqüentar a escola não vale muita coisa, ao contrário do que ocorre quando alguém dedica livremente seu ócio à reflexão, pois, neste caso, fica evidente o real e promissor interesse pelo saber.

Às dificuldades impostas pelo trabalho vem se somar a forma moderna do entretenimento. Internet, televisão, comunidades virtuais, cinema, jogos eletrônicos e as cada vez menores distrações tecnológicas, como os celulares multifuncionais e os vídeo games portáteis, são capazes não apenas de consumir vorazmente o pouco tempo livre que possa sobrar do trabalho, como também de provocarem a angustiante sensação de que tempo algum é suficiente para que sejam vivenciadas todas as novas e quase infinitas possibilidades de diversão. Pessoas que se deixam arrastar madrugada adentro para assistir ao Big Brother compreendem muito bem essa angústia: quem lhes dera não precisar acordar tão cedo no dia seguinte. E assim se esvai não apenas o ócio, como também o sagrado tempo do repouso.

Eis, portanto, a situação do homem moderno, cujo tempo é refém do trabalho, das cargas horárias escolares, e do entretenimento de massa, os quais, atuando em conjunto, tornam cada vez mais difícil o envolvimento livre e apaixonado com o saber. Desse modo, é um exercício interessante imaginar o que seria de Sócrates caso vivesse nos dias de hoje. Será que aquele grande pensador trocaria um tedioso e complexo debate em torno, por exemplo, de questões éticas, por uma fácil noite de noticiário, novelas e reality shows? Cansado após um dia extenuante de trabalho e de horas no trânsito, nada lhe faria tão bem quanto um bocado de entretenimento fácil. De tal maneira que haveria, então, uma grande possibilidade dele se tornar apenas mais um no meio da massificada multidão de pessoas que, nas manhãs de quarta-feira, são capazes de narrar com propriedade filosófica a história da eliminação de mais um fútil sujeito do Big Brother. Porque é assim que as coisas acontecem na era do fim do ócio.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Razões para se fazer a coisa certa


por Denis Barbosa Cacique

Um dos problemas filosóficos mais intrigantes pode ser colocado em termos bastante simples: por que fazer o bem? De certo modo, trata-se de uma questão paradoxal, pois quer nos parecer que agir moralmente quase sempre consiste em sacrificar nossos interesses em favor dos de outras pessoas, e, apesar disso, agimos assim o tempo todo, ou quase isso. Mas para quê? O que tínhamos em vista, por exemplo, quando nos dispomos a ajudar as vítimas das terríveis enchentes em Santa Catarina? Seria puro altruísmo, no sentido literal do termo? Provavelmente não. Na verdade, parece haver bons motivos para que queiramos fazer o bem. Vejamos alguns deles.

Grande parte do que consideramos boas ações é motiva por algo que chamaremos aqui de “ética prudencial”. Agir prudentemente, nesse sentido, é fazer “a” para produzir “b”, onde “b” nada mais é do que um benefício revertido ao autor da ação. Isso é mais simples do que parece. É o que fazemos, por exemplo, quando respeitamos as leis de trânsito (“a”) para não sermos multados (“b”). Empregada desse modo, a ética prudencial, embora seja capaz de produzir bons frutos, tem suas raízes secretamente enterradas no solo fértil do egoísmo e do amor próprio de quem a realiza.

É claro que não queremos reduzir a ética a essa mesquinharia, não é verdade? Certamente há casos em que as boas ações possuem motivos muito mais nobres que a mera prudência. Nesses casos, agimos bem porque é a coisa certa a se fazer, ora bolas. E se somos o tipo de pessoa que pensa dessa maneira, é bastante provável que creiamos em Deus e sigamos seus ensinamentos. Admitamos, então, que é o caso, mas isso não eliminaria o problema da ética prudencial. Na verdade, eis um dos seus mais clássicos representantes, porque, simplificando a história, o fato é que é necessário que esteja no nosso interesse de longo prazo agir moralmente, porque, senão, quando morrermos, nossas almas arderão eternamente num mármore incandescente ou coisa que o valha. E é óbvio que não desejamos destino tão triste. Mas o maior problema não é a ética religiosa revelar-se prudencial. Grave mesmo é acreditar que questões de fé são as únicas razões para se agir moralmente. Pessoas que pensam assim são de dar medo. Supondo, por exemplo, que a crescente secularização da sociedade lhes furtasse a fé, então elas passariam a ter uma preocupante dificuldade de discernir o certo do errado. De qualquer modo, é preciso ressalvar que a ética prudencial religiosa é capaz de produz coisas muito boas, como no caso dos ex-criminosos verdadeiramente transformados pela fé – sim, eles existem. O problema é que nem todo mundo é cristão, e mesmo dentre os cristãos, há sempre aqueles que deixam de sê-los uma hora ou outra.

Tentemos, portanto, outra coisa. A ética prudencial também serve para que evitemos uma série de sanções, como as legais, por exemplo. Ótimo. Mas, novamente, há o problema de se atrelar a moralidade exclusivamente à idéia de punição. O resultado disso, como sabemos, é que a ética prudencial perde totalmente o sentido tão logo a punição deixar existir. Trocando em miúdos, é o que acontece quando a impunidade opera como um catalisador da corrupção. E se divagarmos um pouco, percebemos que também é mais ou menos isso o que acontece com os líderes de países como Estados Unidos e Israel, que, por não encontrarem o que os faça frente, nem qualquer outro país, nem a ONU, pessoa, tratado, acordo ou instituição, sentem-se bastante à vontade para bombardear e invadir a nação que bem lhes convir.

Experimentamos aqui um pouco da complexidade desse tema. Em linhas gerais, essa complexidade revelou-se no fato de não termos conseguido encontrar um motivo para agir moralmente que pudesse ser adotado como regra de conduta por todos os seres-humanos e em qualquer situação. Em todos os casos analisados, sempre descobríamos um empecilho qualquer, uma hipótese que punha tudo a perder, ou uma brecha pela qual a dúvida invadia o edifício da certeza moral e nos expulsava de lá. Mas tudo bem. Nada disso muda o fato de que parecemos dotados de uma nobre propensão para o bem (do mesmo modo como temos, sem dúvida alguma, uma sórdida propensão para mau). É bem verdade que aquela boa propensão tem o costume de se manifestar permeada com interesses mesquinhos, mas é assim que somos e é assim que agimos. E os porquês desse jeito de ser e de agir são apenas uma ínfima fração do universo de coisas cujos porquês não sabemos.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Bolão Marcação Cerrada


por Denis Barbora Cacique

Numa época em que a popularização da internet torna cada vez mais difícil encontrar um blog de qualidade, o Marcação Cerrada, bem como sua página irmã Bolão Marcação Cerrada, mostrou-se uma grata surpresa. Criados por Vinícius Grissi, esses blogs são exemplos de que páginas independentes podem, sim, apresentar conteúdo, atualizações regulares, textos bem escritos, organização e confiabilidade. No caso do Bolão Marcação Cerrada, essas qualidades se ressaltam ainda mais.

No ano passado, quando do início do Brasileirão, fui convidado a participar do bolão organizado por Grissi. É claro que aceitei sem pestanejar. Adoro futebol. Mas devo confessar que, a princípio, como eu mesmo já havia tentado e fracassado ao tentar organizar um bolão entre blogueiros, não botei muita fé naquilo.

Imaginava que mais cedo ou mais tarde os competidores abandonariam o bolão. Ou então que o dono do blog se fadigaria do árduo trabalho de contabilizar os pontos dos competidores ao longo de todas as rodadas do Brasileirão. Felizmente, no entanto, eu estava errado. Rodada após rodada, a competição se mostrava cada vez mais emocionante. E assim foi até a ultima rodada, quando assegurei o caneco do bolão.

Grissi conduzir a competição até o final com muita responsabilidade, transparência, respeito aos competidores, regularidade na postagem dos resultados e iniciativa e inteligência ao tentar resolver alguns poucos problemas que surgiram ao longo do campeonato. E no fim de tudo, ele apareceu com uma grata surpresa, principalmente para mim. O campeão seria presenteado com uma camiseta do seu clube do coração. No meu caso, o São Paulo.

Enfim, gostaria de agradecer ao Vinícius toda a diversão que ele possibilitou aos competidores do bolão durante grande parte do ano passado. E agradecer também, é claro, essa belíssima camisa original que estou vestindo agora enquanto faço essa exagerada (ou não) rasgação de ceda.

No ano que vem tem mais.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Agora sim, Denis: ELFOS!!!!

por B. F. Teixeira

Eu jogo RPG. Há muito tempo já. Depois de tanto tempo acumulamos dezenas e dezenas de histórias. Dentre essas histórias, existem histórias especiais que chamamos de prelúdios (ou background). Histórias que contam o passado dos personagens, histórias prévias que contam os eventos da vida do personagem antes do jogo propriamente dito começar, como a vida os trouxe até ali....
Quando disse ao Denis que tinha escrito um conto (e me referia a ON/OFF) e perguntara se podia publicar em seu blog, ele, conhecendo minha condição de jogador de RPG, me perguntou “Tem elfos?”. E ficou repetindo incessantemente a pergunta como uma criança de 7 anos. E, como uma criança de 7 anos, me fez prometer que eu publicaria um conto que tivesse elfos. Então, agora, uma nova história ordinária, com Elfos em homenagem ao Denis.
Na verdade, não é nem um pouco nova, um dos meus textos de juventude (do tempo que eu ainda usava travessões, risos). Esse é um dos muitos prelúdios dos meus personagens de RPG (sim, ele é um elfo). Um prelúdio muito atípico diga-se de passagem. Nasceu de uma idéia ainda mais antiga que eu tinha de um personagem que fosse aventureiro profissional. Sem idéias de vinganças, sem vilões malignos, sem conspirações, sem masmorras, sem dragões. Apenas tragédias. Apenas destino. E nada melhor do que fazer. Um personagem que se agarrava na profissão (o primeiro workaholic da fantasia medieval??) como meio de continuar a viver. Sem mais explicações, aí está Denis, um conto com elfos...


Ferimentos Cicatrizados

Bosque Fio-de-Prata
4 horas antes do nascer do sol

“Essa deve ser a origem do nome do bosque” - pensa Authôr ao contemplar a bela imagem da lua cheia refletida nas águas escuras de um pequeno riacho. Authôr é um elfo da floresta. Membro de um povo recluso dotado de grandes conhecimentos sobre as florestas. Fisicamente são extremamente semelhantes aos homens, exceto pelos traços mais delgados e orelhas pontudas que lhes conferem sentidos aguçados. Esses sentidos, juntamente com a pouca necessidade de sono, fazem de Authôr o vigia ideal. É por isso, que está agora guardando o acampamento, enquanto seus companheiros de aventura dormem profundamente. Infelizmente, Authôr não tem tempo de admirar o “fio-de-prata”. Há alguns segundos, ruídos de passos em corrida voltaram a atenção de Authôr para as proximidades do rio. Esgueirando-se pela mata, chegou ao local onde se esconde, atrás de pequenos arbustos, esperando pela chegada do invasor. Ele está próximo. Os ruídos de passos aumentam. Seja quem for, não está tentando esconder sua aproximação. Com a proximidade, Authôr percebe agora que não é apenas uma criatura que se aproxima, mas sim, duas. Tenso com a possível invasão de seu acampamento, saca sua espada curta. Espera até que a primeira criatura passe pelos arbustos e salta sobre ela com uma velocidade e ferocidade impressionantes, levando-a facilmente ao chão. A criatura é dominada com extrema facilidade e num piscar de olhos Authôr já a tem rendida sob seu corpo, e só então percebe a verdadeira natureza da desesperada criatura.
_ Uma Mulher Humana?!?! Exclamou, completamente perplexo.

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Vila de Kebec
4 horas e meia antes do nascer do sol

Uma jovem mulher anda com passos apressados pelas escuras e espaçadas ruas da vila de Kebec. Bianca é uma moça jovem sem atrativos físicos impressionantes, mas ainda sim uma bela garota. Seus belos e bem cuidados cabelos negros contrastam com sua pele extremamente clara.
Bianca anda com passos apressados, pois sabe dos perigos que a noite esconde. Saíra de casa, assim que recebera uma mensagem da parteira. Pedindo-lhe para ajudar a trazer mais uma criança ao mundo. Sempre se sentia bem após um trabalho de parto. Esse era o seu jeito de compensar a natureza, pela sua incapacidade de gerar uma criança. Ajudaria as mulheres a alcançar a felicidade da qual ela jamais seria capaz. Graças ao acidente. O mesmo acidente que levara seu amado, levara também a criança que carregava em seu ventre, danificando-o para sempre e impedindo que fosse capaz de abrigar outra criança.
Perdida em seus pensamentos melancólicos, Bianca não percebeu a aproximação do fazendeiro Risiton. Um dos habitantes mais ricos da cidade, Risiton foi rejeitado por Bianca que preferiu o amor do jovem Jesk ao dinheiro de Risiton. Mas agora Jesk se fora. E não havia mais ninguém pra protegê-la do desejo quase insano de Risiton. Sabendo disso, Risiton aproveitou a chance e atacou. Perdida em pensamentos, Bianca foi dominada sem ao menos esboçar nenhum tipo de reação. Quando deu por si, Risiton estava sobre ela, rasgando a parte superior de seu vestido, expondo seus seios. Colocando-os ao alcance de sua língua lasciva e nojenta.
Enquanto movia os braços desesperadamente pra escapar, Bianca esbarrou o braço direito em um objeto pontiagudo. Guiada totalmente pelo desespero agarrou um caco de uma jarra de cerâmica e fincou-o com todas as forças no ombro do atacante. A surpresa ,juntamente com a dor, deram a Bianca a oportunidade que ela precisava para escapar. Saiu correndo desesperada em direção ao bosque. Mesmo ferido, Risiton, que agora estava com o rosto tomado por uma fúria insana, seguiu em seu encalço. A velocidade dele era incrível. Mesmo ferido era mais veloz que ela. Estava dando tudo de si. Ignorando os cortes feitos em sua pele e roupa por pequenos galhos que invadiam a estrada. Mas isso tudo não era suficiente. Seria alcançada. Era só uma questão de tempo. Seria alcançada. E ninguém poderia ajudá-la. Seria alcançada. E sofreria terrivelmente. Tendo apenas o rio como testemunho. Então ele veio. Rasgando a mata, como um relâmpago rasga a noite escura. Antes que pudesse perceber ela estava dominada mais uma vez. Sob o corpo de mais um homem. Mas esse era diferente. Era um elfo. Estava em vestes de guerreiro. E olhava pra ela não com uma lasciva doentia, e sim com um doce espanto.
 _ Uma Mulher Humana?!?! Exclamou, completamente perplexo.

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Bosque Fio-de-Prata
4 horas antes do nascer do sol

_ Tire suas mãos de minha esposa – ordenou Risiton, assim que viu que Bianca havia sido interceptada por um guerreiro elfo. 
Ao ouvir as palavras do homem, Authôr se afastou solenemente de Bianca e liberou o caminho entre ela e Risiton que andava vagarosamente em direção a Bianca. 
_ Ele não é meu marido. É um louco e tentou me violentar! – esbravejou ela, enquanto tentava cobrir os seios expostos com os braços, tentando proteger-se tanto da vergonha quanto do frio.
De repente, Risiton parou. Sua vagarosa caminhada fora interrompida pela lâmina de Authôr que estava em seu pescoço. Impedindo-o de continuar seu movimento. 
_ Você não sabe com quem está lidando...
_ É você que não sabe com quem está lidando. Volte agora para o lugar de onde veio. Ou serei obrigado a garantir que você nunca mais violentará mulher alguma. 
Intimidado pelas ameaças do guerreiro elfo, Risiton virou-se e voltou correndo pela estrada alimentando desejos de vingança.  

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Bosque Fio-de-Prata
3 horas e 30  minutos antes do nascer do sol

_ Beba isso. Vai se sentir melhor – sussurrou Authôr entregando a Bianca uma caneca contendo uma bebida fumegante.
_ O que isso?
_ É um chá. Confie em mim. Beba.
_ Por que está sussurrando?
_ Não quero acordar meus companheiros de acampamento.
_ Por que?
_ Alguns deles usam magia e precisam dormir sem serem perturbados. E além do mais não confio em todos eles...Mas isso não te diz respeito. Deve estar com sono. Pode passar a noite aqui. Não há espaço nas barracas. Mas pode usar meu saco de dormir. Está a sua direita. Devo continuar minha vigilância...
_ Muito obrigada.
Bianca termina seu chá e aconchega-se no saco de dormir, intrigada com os estranhos modos de seu salvador. 

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Bosque Fio-de-Prata
3 horas antes do nascer do sol

Authôr está sentado pouco a frente do acampamento com toda atenção voltada para a vigilância, quando uma voz rompe o silêncio da floresta.
_ Eu posso sentí-la. 
Ele olha estranhamente para a autora da frase. Bianca está posicionada atrás dele, em pé, enrolada em um cobertor, mesmo usando por baixo um colete e uma calça (dados a ela por Authôr).
_ Sua dor. Sua tristeza. Sua revolta. – diz Bianca enquanto senta ao lado de Authôr - 
_ Estou sem sono. Poderia me contar sua história.
Eles trocam olhares ternos. Durante uma pequena pausa.
_ Sinto que de algum modo devo confiar em você. Sinto que devo me abrir. Espero que esteja mesmo sem sono. Porque é uma longa história....

*   *   *   *   *   *   *

Eu nasci a 134 anos atrás. Pode parecer muito para os padrões de seu povo, mas para meu povo ainda sou jovem. Nasci na cidade de Valinor. Valinor era habitada somente por elfos da floresta. E ficava em uma floresta isolada. Ao contrário de vocês, construímos nossas casas em harmonia com a natureza. Nossas cabanas mesclavam-se às copas das arvores com uma beleza incrível. Se fechar meus olhos agora, sou capaz de me lembrar de cada detalhe, cada aroma, cada ruído...
Meus pais eram pessoas maravilhosas. Chamavam-se Elenil e Nerë. Meu pai era um grande guerreiro do nosso povo e tinha como obrigação proteger nossos lares e nossa liberdade. Já minha mãe era uma grande feiticeira, dominando completamente a arte da magia, que corre nas veias de nosso povo. Desde pequeno, porém, já havia escolhido a carreira de meu pai, e assim que atingi a idade correta comecei a ser treinado nos segredos da Floresta. Nessa época,  conheci Mianiël. Tornamos-nos amigos imediatamente. Ela recebia os ensinamentos junto comigo, mas não queria se tornar uma guerreira e sim uma grande feiticeira. Fascinado por sua beleza e encanto, já estava começando a acreditar que repetiria a vida do meu pai. Afinal, como poderia saber da tragédia que se acometeria sobre meu povo?
Num belo dia enquanto partíamos numa excursão pela floresta, ouvimos barulhos ao longe. Ruídos de uma batalha. Nosso professor nos deixou esperando e voltou a cidade. Dentro de pouco tempo, avistamos chamas consumindo a floresta. Consumindo nosso lar. Fomos retirados do estado de terror, quando dezenas dos nossos surgiram. Estávamos partindo em retirada. Enquanto saímos, nossa cidade fora atacada pelo exército do reino vizinho, que era constituído de humanos. Conhecendo as riquezas existentes em nossa terra, o rei ordenou um ataque surpresa e maciço contra nosso lar. Apesar, de bem treinados e de conhecer o território, eles estavam em superioridade numérica. Fomos massacrados. Muitos morreram. Muitos fugiram. Muitos foram escravizados. Entre os primeiros estava minha mãe. Entre os últimos estava meu pai...

*   *   *   *   *   *   *

Eu e Mianiël estávamos entre os mais jovens dos habitantes. Tínhamos apenas 30 anos na época. Juntamente com os outros fugitivos nos abrigamos em cabanas em uma região muitos quilômetros ao sul de nosso lar. Nossos líderes não se preocuparam em construir outra cidade. Só tínhamos um pensamento: recuperar nosso lar. Durante o pouco tempo que passamos lá, pouco mais de vinte anos, não teve um só dia em que não acreditamos que recuperaríamos nossos lares. Então, todos fomos treinados nos segredos da floresta e nas artes de combate. Lutaríamos contra os humanos. Recuperaríamos nossos lares. Tomaríamos o que era nosso por direito e recuperaríamos aqueles que estavam escravizados. Essa era a única ideologia do acampamento. Treinávamos dia e noite. Vivíamos em comunidade. Não nos importávamos com comércio, com relações, com riquezas, só uma coisa existia em nossas mentes: vingança. Todo esse clima de guerra, acabou afastando-me de minha amada Mianiël. Já, que era ensinada nas artes arcanas durante praticamente o dia todo. Então um dia, fizemos um juramento: nos casaríamos assim que recuperássemos nossos lares. Não existia uma noite em que não sonhava com o grande dia. Depois de derrotar os invasores em uma batalha gloriosa, receberia minha amada em meus braços e seríamos felizes para sempre. Infelizmente, os membros mais velhos de nossa comunidade não pensavam da mesma maneira. E decidiram que os jovens deveriam ficar. Para tentar um nova investida mais tarde, caso os guerreiros mais experientes fracassassem. 
Dessa maneira fui privado de meu direito de vingança, em alguns momentos cheguei até mesmo a desejar que nossas tropas fossem derrotadas, mas a possibilidade do casamento com Mianiël importava mais que a guerra. Ela era mais importante que a vingança. Mais importante que eu. Mais importante que tudo. 
Então, três dias depois os mensageiros chegaram com a notícia. Havíamos vencido. Finalmente seria feliz...

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Dois dias depois chegamos a cidade. E percebi que meu casamento teria que esperar mais um tempo. Mas era por uma “boa causa”. Os humanos haviam destruído grande parte da floresta para construir suas casas e para obter dinheiro. Então como vingança queimamos suas casas varrendo todos os sinais de sua presença maculadora. E logo depois começamos um trabalho de reflorestamento e de recostrução da cidade. O trabalho foi árduo e cansativo (jamais conseguiríamos sem o uso de magia pra acelerar o crescimento das plantas), mas em 10 anos nossa cidade estava ainda mais gloriosa que antes da queda. Reforçamos nossas construções. Nossas defesas. Nossos exércitos. Construímos barcos. Domamos as águas. E eu finalmente me casei. No mesmo dia em que fazia 61 anos.
Os vinte e cinco anos que se seguiram foram os anos áureos de meu povo. Vivíamos em paz e felicidade. Evoluímos nossa mágica. Aumentamos nossa produção de alimentos. Nossa cidade estava mais bela do que nunca. Estava invencível. Espada e magia. Nenhum exército de humanos com “vidas curtas e medíocres” poderia ultrapassar nossas defesas. Hoje, eu finalmente vejo o quanto fui tolo em acreditar em nossos líderes...


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Quando era pequeno minha mãe me disse: “A História, assim como todas as coisas  é cicliquica. Se repete eternamente”. Ela era minha mãe, mas mesmo assim eu achava que isso era uma baboseira. Mas hoje acredito, acredito com todo fervor.
Durante uma bela tarde de sol, eu e Mianiël saímos para passear perto das margens do rio. Tinha tudo pra ser um dos dias mais felizes de minha vida, mas os deuses preferiram fazer as coisas de um jeito diferente.
Enquanto nos amávamos no campo, pude ouvir o barulho de cascos de cavalo e fui verificar. A visão congelou meu sangue. Ao longe, milhares de guerreiros humanos cobriam o horizonte galopando em velocidade impressionante. Atingiriam nossa cidade em menos de uma hora. Naquele momento eu senti que não teríamos chances em batalha, então decidi que fugiria pelo rio, com um barco, levando comigo apenas Mianiël.
Voltei correndo, e a avisei. Ela não concordou. Dizia que era nosso dever morrer com nosso povo em combate. Depois de muito implorar, consegui convencê-la a me acompanhar. Então, partimos em direção aos barcos. No caminho, descobri que o senso de obrigação de minha esposa era muito maior que seu amor por mim. Usando seus poderes mágicos, ela alertou nossa cidade do ataque, infelizmente nosso sinal não era muito discreto e foi facilmente percebido pelo inimigo. Uma pequena tropa foi enviada em nosso encalço. Corremos em direção aos barcos. Como estratégia, nos separamos no meio da floresta. Cheguei primeiro aos barcos, escolhi rapidamente um de boas condições, coloquei o barco no rio e subi. Ao longe pude ver minha amada correndo em minha direção. Posicionei o barco pra ser levado pela correnteza. Ela entrou correndo na água pra subir no barco. A água pelos joelhos dificultava sua corrida. Ela lutava contra a água com uma força de vontade impressionante. Mas vontade não foi o bastante. Vinda do nada, uma flecha cortou o ar atingindo-a em cheio no coração. Ela morreu na hora. Desesperado, tentei voltar com o barco pra resgatá-la. Mas outra flecha cortou o ar. Atigindo-me no ombro. Deitando-me no barco. Impedindo-me de remar. Impedindo-me de salvar minha amada. Só havia um caminho a seguir: o do rio.

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 Fui carregado durante dias. Passei todo esse tempo inconsciente. Só fui acordar, depois de ser resgatado por um jovem druida que se chamava Rased. Ele me resgatou e  me curou. E explicou a mim o que havia acontecido com meu povo. Um novo rei inimigo assumira, e firmou um acordo com uma cidade vizinha e juntas realizaram um ataque esmagador contra minha cidade. Mas desta vez, não havia fugitivos. Nem escravos. Apenas mortos. Eu sobrevivi, mas isso custou minha honra e a vida daquela que amava. Eu não encontrava mais razões para viver. Até Rased me dar uma. Ele me ensinou como amar a natureza, como ajudar as pessoas, e o mais importante me ensinou que eu havia sobrevivido por um motivo. Lutar para que isso não mais acontecesse. Lutar contra as tiranias. Ajudar e libertar as pessoas.
Durante quase cinqüenta anos paguei minhas dívidas com Rased, ajudando-o a  tomar conta da floresta.O fim da minha divida foi marcado pela morte de Rased. Com isso  decidi que deveria cumprir meu objetivo. Ajudar as pessoas, me tornar um herói. Parti para uma vila próxima, Arton, onde encontrei meus companheiros e formamos esse grupo de aventureiros.

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Bosque Fio-de-Prata
2 horas e 40 minutos  antes do nascer do sol

Authôr terminara sua história com os olhos pesados. Cheios d’água. Abaixou a cabeça para esconder suas lágrimas. Com um gesto delicado, Bianca apoiou a cabeça de Authôr em seu ombro. Com seus dedos delicados, enxugava as lágrimas que começavam a escorrer pela face do guerreiro elfo. Enquanto falava com voz reconfortante:
_ Acredite. Eu entendo como se sente. Perdi alguém a pouco tempo. Para nós humanos ainda é mais díficil. Você tem praticamente todo o tempo do mundo pra se recuperar, já nós precisamos levantar logo após a queda e continuar andando. Ainda sangrando. Sem tempo de estancar os ferimentos. Você já permaneceu deitado por tempo demais. Precisa se levantar e andar. Faça isso e verá que seus ferimentos já cicatrizaram.
_ Não posso. Nada faz sentido na vida sem ela. Sem ela tudo fica escuro e frio...
_ Minha avó costumava dizer que nossas almas nascem incompletas. E vagam até encontrar sua outra metade. Elas são como andantes num mundo frio e desabitado. O andante deve andar pela noite fria durante muito tempo, até que encontrará uma cabana. Seu lar. Onde viverá para frente e se aquecerá para sempre. Às vezes, o andante confunde a cabana e então deve retornar a noite fria até encontrar a cabana correta. Seu verdadeiro lar. Mas, às vezes o frio se torna intenso demais e o andante fraqueja pensando em desistir. Nesse momento, ele deve se dar ao luxo de entrar em uma estalagem. Para que não possa esquecer como é sentir-se aquecido.
Bianca levanta o rosto do elfo de maneira delicada. Olhando profundamente em seus olhos cheios d’agua. Eles se abraçam. Beijam-se. Buscam conforto para suas dores. Ao menos para lembrarem como é sentir-se aquecido.

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Bosque Fio-de-Prata
nascer do sol

Bianca é delicadamente despertada de seu sono por Authôr. Ela abre seus olhos demonstrando grande sonolência.
_ Precisa ir meus companheiros já irão acordar. Pensei em um lugar para você ir. Seguindo essa estrada, em menos de um dia você poderá chegar nas redondezas da vila de Arton. Leve esse saco de dormir e essas provisões desidratadas.
Bianca levanta com um sorriso no rosto. E rapidamente junta os presentes dados a ela por Authôr. Os dois se olham nos olhos parados, em pé, frente ao acampamento.
_ Muito Obrigada. Nunca esquecerei o que fez por mim. Se algum dia passar por Arton, não esqueça de me visitar. Bianca se despede de seu salvador com um afetuoso beijo nos lábios e parte rumo ao sol nascente. Quando ela já está a uma distância razoável, Authôr grita:
_ Bianca!
_ Que foi? – responde em altura semelhante
_ Você estava certa. Os ferimentos já cicatrizaram.
Ela sorri discretamente e continua seu caminho a passos rápidos. Ele sorri e observa carinhosamente a caminhada até que a silhueta de Bianca suma em direção ao nascer do sol.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

We Have the Dream



Por Denis Barbosa Cacique

Barack Obama será o 44º presidente dos Estados Unidos, mas apenas o primeiro negro dentre todos eles. Isso requer comemoração. É claro que ainda não se trata de celebrar antecipada e precipitadamente o sucesso do seu governo, porque, embora ele pareça possuir toda competência necessária para assumir a Casa Branca, o sucesso da sua administração dependerá de uma infinidade de determinantes que vão muito além de suas habilidades ou da sua cor. Na verdade, a vitória de Obama deve ser celebrada porque sinaliza uma mudança radical de pensamento, fornecendo indícios de que a humanidade aproxima-se cada vez mais daquilo a que Martin Luther King se referiu dizendo “dream”, isto é, “sonho”, e que nós conhecemos como “mundo pós-racial”. Mas o que é esse mundo, o que ele nos oferece, e o que a vitória de Obama tem a ver com ele?

Quando dizemos “pós-racial”, nos referimos a um estágio utópico de desenvolvimento moral em que sequer é preciso adotar políticas anti-racistas e afirmativas, pois estão superadas as desigualdades e os problemas fundamentados na idéia de raça. Num tal estágio, agimos independentemente da raça, como se estivéssemos cegos para ela. Cegos, é claro, não para as diferenças biológicas superficiais que se acham infinitamente entre todos nós, e sim para as noções absurdas de que essas pequenas diferenças nos tornam mais ou menos inteligentes, mais ou menos fortes, e mais ou menos éticos, dentre outras coisas. Num mundo pós-racial, como somos cegos para esses delírios (que emergem da nossa estupidez e do nosso desejo irrequieto e egoísta de felicidade), a eleição de um negro para o país mais poderoso do mundo tem de soar tão natural quanto a eleição de um branco. Em resumo, esse mundo perfeito emerge da nossa percepção de que a cor da pele é irrelevante.

Mas admitamos provisoria e deliberadamente o caráter utópico desse estágio. Além disso, resgatemos o sentido etimológico de “utópico”, que vem da união dos termos gregos “ou”, um advérbio de negação, e “tópos”, que significa “lugar”. “Utópico”, nesse sentido, é aquilo que não tem lugar, quer dizer, não tem lugar na realidade e, por conseguinte, não pode existir. No caso do utópico mundo pós-racial, isso significa que a derradeira reviravolta no modo como brancos vêem negros, negros vêem latinos, latinos vêem asiáticos, e todos os outros arranjos possíveis, pode jamais acontecer plenamente. Dito com outras palavras, a era pós-racial é de natureza contraditória, possuindo concretude apenas no universo etéreo dos sonhos (dreams) das pessoas esclarecidas. Fora dali, no entanto, “piadas de preto” continuam fazendo enorme e vergonhoso sucesso, para dizer o mínimo.

Mas será que essa impossibilidade ofusca o brilho da vitória de Obama?

É verdade que os horrores do nosso mundo sugerem que jamais alcançaremos uma realidade tão perfeita, mas isso não torna nossa caminhada menos correta, e tampouco furta a importância desse passo mais recente, a eleição de Obama. Este é um momento histórico. Ele simboliza evolução moral. Prepara um solo inteiramente novo e fértil para as gerações mais jovens e futuras. Sinaliza o prosseguimento da revolução do próprio conceito de humanidade, a começar pela “desinvenção” da idéia de um exótico “ser negro” como uma espécie particular e à margem do homo sapiens. Ele fere mortalmente ideologias como o neonazismo, o anti-semitismo, os sexismos, a homofobia e a “supremacia branca”. Em resumo, numa época em que imperam crises financeiras, guerras absurdas, assassinatos atrozes, corrupções, terrorismos e medo, muito medo, a eleição de Obama nos devolve o sentimento de esperança na humanidade.

domingo, 2 de novembro de 2008

ON/OFF

Por B. F. Teixeira


Acordo.

De mãos dadas com a consciência vem a dor de cabeça. Sacudo a cabeça de um lado para outro, para jogar fora a dor ou negá-la. Não sei ao certo. Coloco a mão sobre a testa. Estou tremendo. Merda! Odeio isso! Só então, abro os olhos. Deparo-me com a garrafa de Old Eight meio consumida. Metade! É sempre bom ter um motivo para a dor de cabeça. Do outro lado do criado mudo avisto um dos volumes de “Em Busca do Tempo Perdido” de Proust – não me lembro qual – meio lido. Parei há algum tempo – não me lembro quanto – em uma página da qual também não me lembro. Continuo com dor de cabeça e tremores. Abro a gaveta do criado mudo – “mudo, graças a deus, caso contrário, estaria me repreendendo agora não é, Alfred”? – rio de minhas próprias piadas. Metade das vezes por autopiedade, na outra metade por falta de critério. Procuro por analgésicos nas entranhas de Alfred. Encontro apenas moderadores de humor meio consumidos, poemas meio completos, romances meio escritos, fitas meio gravadas – até onde me lembro – com músicas meio compostas. Uma vida meio vivida por falta de meio. Olho para o teto apreciando a ironia.... Meio-dia!

Levanto-me em um salto. Dormi 10 horas. Um novo recorde. Viva o Old Eight! Viva o Lexotan! Talvez, tenha até atingido o REM. Talvez, tenha até sonhado. Com certeza sonhei. Todos sonham, dizem. Mas eu, eu nunca lembro. Principalmente, quando estou neste pólo. Corro para o banheiro como se corresse por minha vida. Não sei se sou movido pelo vício ou pelo medo da ciclagem. Ciclagem rápida não existe! Foda-se, eu quero me manter no pólo magnético! No pólo norte! Não existe ciclagem rápida! Foda-se! O inferno também não existe e por medo dele, muita gente já fez coisa muito mais louca do que correr para o banheiro, chocar-se contra a pia, revirar o armarinho de cima a baixo, encher a mão com o triplo da dose recomendada de Sertralina e mandar goela abaixo tendo a água da torneira como cúmplice. Já me sinto melhor. Não penso nas próximas doses, não penso no futuro. Isso é coisa do pólo sul. Estou no pólo norte, porra! Qualquer coisa, pego um ônibus, me consulto com um médico de outra cidade. Eles prescrevem sem muitas perguntas agora. Viva ao Lobby da indústria farmacêutica! Viva ao juramento Hipócrita! Paro de tremer, ou nem percebo mais. Cago para a diferença!  Saio para o jardim. Escuto um ruído gigantesco. Trovões! Vento! Trovões! A tempestade do fim do mundo! O dilúvio II! É só um helicóptero, porra! Só um helicóptero... poxa... um helicóptero negro. Tan-tan-tan. Escuto a cavalgada das Valquírias. Sinto o cheiro de Napalm ao meio-dia. Respiro fundo, delícia. Merda! Não faço a mínima idéia de como cheira Napalm. O helicóptero está pousando aqui. Está pousando aqui! Que porra é essa!? Talvez, se pareça com gasolina ou querosene? O helicóptero está pousando aqui, porra! Concentre-se! Por que? Que porra é essa!? Talvez, cheire como gasolina com um toque cítrico. Talvez, por isso seja agradável pela manhã. Merda, o helicóptero. O que ele faz aqui? Esqueça o Napalm, foque-se no helicóptero! O que ele faz aqui? Vou correr! Vão jogar napalm no meu jardim! O helicóptero, porra! Esqueça o Napalm! O helicóptero! O som cessa. Termina a cavalgada das Valquírias. A hélice para. Esqueço o napalm...

Dois homens descem do helicóptero usando ternos bem cortados e óculos escuros. Ambos são brancos, cerca de 30 anos, faces comuns, barbas impecavelmente feitas. “Você é Bruno da Silva Gomes?” Cidadão brasileiro, nascido no dia 28 de setembro de 1983 às 17:15 hrs, filho de José Victor Gomes e Renata Alves da Silva, portador do documento de identidade nº 42.657.863-66 expedido pela Secretária de Segurança Pública do Estado de São Paulo?”

“Sim”. Respondo de instinto enquanto fecho os olhos e tampo os ouvidos, para não ver ou sequer ouvir a arma. Logo, percebo como estou sendo idiota: com certeza estão usando silenciadores. Destampo os ouvidos.

“Sr. Gomes? Sr?” O sotaque americano – ou do interior de SP – é fortíssimo. Esboço um sorriso. O filho da puta quer me matar e ainda quer que eu olhe para ele! Foda-se! Pelo menos, vou morrer rindo da cara dele. Abro os olhos. Lá está a mão de um deles estendida. Sem arma, sem disparo. Apenas uma mão aberta, espalmada, um convite. Nunca andei de helicóptero. Aceito.

Mas eu tenho medo de altura! Só então me ocorre que posso estar sendo capturado. Está saindo do chão! Medo de altura! Recolho-me à posição fetal. Os dois homens do helicóptero se entreolham e sorriem discretamente. Como se não quisessem me ofender. Ou fossem incapazes de sorrir. Meu Deus, altura!! Altura!! Porra uma agulha! Ninguém vai me injetar merda nenhuma... Luto! A altura... a altura.... porra, tenho direito ao monopólio de minha própria intoxicação! Direitos Humanos! Altura... alto... agulha.... alto.... agulha... alto...


*       *      *     *     *

Acordo.

Estou sentado em uma confortável poltrona. Sinto que ela está úmida de meu suor. Estou em casa tendo um sonho. Não, não estou. Não tenho uma poltrona. Abro meus olhos e olho para cima. A luz forte e o teto branco, claridade demais para mim. Escorro os olhos pela parede lateral. Estou em um quarto de hotel. Como eu sei? Tudo está organizado de forma a parecer o mais natural possível, contudo, parece artificial. Ah! E Não há espelho no teto, logo, é um quarto de Hotel! Sinto-me orgulhoso pela sagacidade de meu raciocínio.

“Sr. Gomes?”

A voz carregada de sotaque chama a minha atenção para o homem de preto. Ao menos, tem o bom senso de não usar óculos. Tento não parecer surpreso, mas pareço. (Faço a mesma expressão que fazia quando um garoto mais velho – de quem eu não gostava – aparecia em meus aniversários sem ser convidado. Tento curvar os lábios em um sorriso, porém, eles se retorcem na direção oposta, por um breve instante, em um gesto de sinceridade corpórea).

“Sr. Gomes? Eu sei que é difícil, devido à medicação, mas é necessário que você se foque em mim”.

“Medicação? Que medicação? Como você sabe?” (faço a mesma cara de quando era garoto e minha mãe me perguntou sobre a suspensão da escola. Ou quando Júlia me perguntou: “Quem é Carla?”).

"Nós a ministramos a você, senhor. Você pareceu muito perturbado com a coisa toda. Desculpe”.

“Seu sotaque... pode falar em inglês se você quiser”.

“Estou falando em inglês, senhor!”.  Fico sem graça (faço a mesma cara que fiz quando descobri que o anúncio do curandeiro, que dizia “curar negócio preso” não ajudaria em nada ao mercadinho da família ou quando minha mãe me disse que não era macas para Comando em ação que ela estava comprando na farmácia...).

“Como eu disse, senhor, sua concentração se faz necessária. É vital.” Ele usa um tom de voz sério quase expressando emoções, quase me repreendendo.  (Faço a mesma expressão de quando...).

"Senhor? Senhor? Está certo de que está me ouvindo? Sua atenção é realmente necessária. É um assunto de máxima importância!”.

Tento concentrar-me. É difícil. Mas, é importante. Tão importante! Esforço-me. Foco-me na expressão do homem, em suas palavras (e... faço a mesma expressão que fiz quando...).

“Está certo de que está me acompanhando?”

“Sim. Sim”. Preciso prestar atenção. Estou curioso. É importante. Tudo mais...

"Tudo bem. Então... você já deve ter ouvido falar no acelerador de partículas? O LCH?”

“Aquele na Suíça? Que levou vinte anos para ser construído?”

“Cinco”.

“Fizeram cinco daqueles? Pra que?”

“Não, cinco anos. Levou cinco anos para ser construído. Já estava pronto em novembro de 1993. É que levaram 15 anos para construir o computador”.

“Ah! O computador para controlá-lo”.

“Não, o selecionador. É assim que o chamaram”.

Faço a minha cara de ponto de interrogação. Quase desisto de entender a porra toda. Quase me entrego aos devaneios (quase faço a mesma cara de quando....mas, seguro minha mente e não faço cara nenhuma, além da de ponto de interrogação, claro).

“Selecionador?”

“Sim. Olha, eu também não sei direito como rolou a coisa toda. Só trabalho para os caras. Não tava lá, não entendo direito o que eles falam”. A pose de andróide desaba, enfim. Vejo confusão em seus olhos. Um pau mandado. Talvez, eu esteja no controle da situação. Vou assumir o controle!

“Conte-me aquilo que entendeu, então”. Uso um tom de voz firme. Ele já não me acua mais psicologicamente, por isso, encosta-se na poltrona. Posso sentir seu alívio em abandonar a pose.

“O acelerador de partículas ficou pronto, na Suíça, em novembro de 1993. Assim me foi dito. Parece que um dos cientistas revisou os cálculos todos enquanto os engenheiros construíam. No fim, quando já estava tudo pronto, ele descobriu que a chance de surgir um buraco negro e tudo ir para o espaço, ou ir para o nada - sei lá - era muito maior do que se esperava”.

“De quanto?”

“Aproximadamente 50%”

“Mais ou menos?”

“É. Mais ou menos 50%”

"Não, mais ou menos que 50%?”

O homem de preto cover bufa e sorri com falsa paciência. Eu entendo e faço um sinal para que continue.

“Refizeram os cálculos. Todos os cientistas, todos os cálculos. Tentaram pela Navalha de Ockham, probabilidades, lógica e tudo mais. Parece, que no fim, não tem como saber. Eles me disseram uma loucura de que o buraco negro não estaria nem aberto, nem fechado. Explicaram essa loucura com um gato que não estava nem vivo, nem morto...”

“O gato de Schröedinger. Já ouvi falar nessa teoria”.

"Besteira. Acho que na verdade ninguém queria assumir a responsabilidade. Nem pelo buraco negro, nem pela morte do gato. Nenhum deles é macho o bastante para apertar o botão”.

“Por que não jogaram uma moeda?”

“Sei lá... parece que um deles não confiava em moedas. Algo sobre figuras gravadas...”

“Como assim?”

O olhar de raiva. A bufada. O sorriso de falsa paciência. O gesto para continuar.

"Então, decidiram construir um gigantesco computador quântico. Como a quântica, segundo eles mesmos, não tem lógica – ou tem sua própria lógica – para fazer um sorteio. Interligaram o sistema com o do projeto Genoma e todos os cidadãos do planeta estavam participando. O software passou dois anos rodando. Terminou ontem. Você foi o escolhido!”

Rio alto. Que parece uma risada maníaca (o que, psiquiatricamente falando, no meu caso, é). O agente continua em silêncio. O que aumenta o ar maníaco de minha risada ou aumenta a minha mania, sei lá!

Paro. O agente não está brincando. Caralho! Ele não está brincando!

“Aqui está o controle remoto. Nem ligado, nem desligado. Como o gato lá. Mova a alavanca para a direita e você liga. Mova-a para a esquerda, você desliga. Para sempre. Você tem oito horas para decidir”.

“Mas, eu sou libriano...”

“Quer consultar uma astróloga?”         

“Oi?”

“Uma astróloga?”

“Não... por que...”

“Você disse que era libriano...”

“Não, eu sei, mas...”

“Bom, deixa pra lá. Qualquer coisa que quiser ou precisar basta usar o telefone. Disque nove e falará diretamente comigo. Estamos aqui para servi-lo”. Ele deixa o controle remoto sobre a mesinha de centro e se levanta.

“Uma última pergunta?”. Ele pára e me olha.

“Isso é loucura. Por que você trabalha para esses caras? Por que aceitou esse emprego?”

“Estão me pagando bem”.

“Mas, e se tudo acabar...?”

“Não era a última pergunta?”

“Bem, mas você disse que o que eu precisasse....”

“Pagaram adiantado...”

“Ah....”

Olho para o controle, o quarto de hotel, o telefone. Tantas mentes brilhantes, tantos séculos tentando descrever o sentido do mundo, da vida, do homem. E o único que conseguiu fazê-lo foi Douglas Adams!!!! Aperto a cabeça entre as mãos. Rio – maniacamente - é claro! Pólo Norte, porra!


*       *      *     *     *

Acorda.

Percebo isso pelo “alô” cheio de sonolência.

“Júlia, sou eu, Bruno”. Identifico-me ainda que não seja necessário. Posso ouvir o bufar do outro lado da linha.

“E ae? Nada importante para fazer hoje. Vidas a salvar, enfim, essas coisas...”

“Estou salvando minha vida. Dormindo. Acabei de voltar de um plantão”. Júlia. Médica. Minha ex-namorada.

“Desculpe, é que....”

“Quanto tempo você está sem dormir? O suficiente para esquecer que os outros o fazem?” Ela não está apenas sendo escrota. Isso realmente chegou a acontecer algumas vezes. Ela cansou de me prescrever benzodiazepinas. Quase perdeu seu registro por mim. E, na época, não teria ligado. Amava-me maniacamente, apesar do ciúme doentio que tinha, da idéia fixa de que eu amava a todos - e a todas - mais do que a ela, até as pílulas (com razão – em alguns casos - principalmente, no das pílulas!). O fato é que no fim, ela se deu conta de que não podia estragar a carreira por mim.  “Eu sou uma personagem de Grey’s Anatomy e você é um personagem de Ally Mcbeal. Estamos separados por gênero, canal e uma década de evolução da narrativa televisiva”. Na verdade, creio que ela não disse bem isso. Mas, é assim que me lembro.

“Você não pode ficar me ligando assim. A essa hora. O Matheus não gosta, você sabe”.

“Onde ele está?”

“Plantão”

Procuro por um relógio desesperadamente. Só agora me ocorre que perdi a noção do tempo. Encontro. 11h25 p. m. Onde será que estou? Terá fuso horário?

“Hmm....”

“Então, o que é?” Fala com uma voz de tédio e repreensão. Talvez eu esteja soando um pouco patético. Acontece às vezes.

“Eu tenho que tomar uma decisão. Algo realmente importante e queria saber o que você acha...” Quando criança eu queria ser um médico. Um médico importante. Mas, eu jamais poderia. Jamais poderia ter sido um cirurgião – e não o são todos os médicos realmente importantes? – Como ela é. Eu tremo. Sempre tremo. Acabaria atingindo uma artéria, como fiz agora. Tenho certeza que o fiz, porque o que vem para cima de mim, vem como uma hemorragia.

“E o que!? E o que!? Por que!? Por que você é libriano e não consegue escolher? Cresça, Bruno! Por Deus! Acabei de chegar de um plantão e você me vem com essa merda!? Estou cansada dessa sua irresponsabilidade. Seus truques para fazer com que os outros arquem com as conseqüências de seus atos. Seus livros, seus textos, seus comprimidos, seus vícios, tudo é seu, menos a responsabilidade!? Um dia já fui sua, mas não sou mais e isso é por sua culpa. Ao menos essa responsabilidade é sua! E eu o farei entender e aceitar isso! Não importa o que seja preciso!” Escuto a tomada de fôlego. Sei que vai bater o telefone...

“Não desligue pelo amor de Deus... só uma pergunta, inofensiva...”. Ela não desliga. Devo ter soado patético. Realmente patético. É meu único talento.

“Tudo bem. Fale...” A raiva se esvai de sua voz, apenas sobra piedade. Acabei de elevar o patético ao status de arte.

“Como você está?”. Meu orgulho já está morto mesmo, vou enterrá-lo de vez.

“Como assim?”

“Como você está? Está feliz”? Minha obra prima!

“Sim, estou”.

Penso em perguntar sobre Matheus. Sobre sexo. Se sente minha falta, falta de meu corpo de meu senso de humor... mas, massacrei demais o meu orgulho por um dia. Isso me faz avistar o pólo sul e eu o temo, mesmo sabendo que não existe ciclagem rápida.

“Fico feliz por você. Se cuida!” O gran-finale!

“Tudo bem. Você precisa se cuidar mais do que eu”.

Ela desliga. Olho um pouco para o nada e me repreendo por alguns segundos antes de colocar o fone de volta ao gancho. Ela se cansou da minha transferência de responsabilidade, por isso terminou comigo. Merda! Eu terminei com ela. Até eu estou cansado disso. Fui eu que terminei com ela! Ligo para o “serviço de quarto”, peço ao agente Smith uma garrafa de Black Label e um balde de gelo. Sou servido poucos minutos depois. Encho o copo, tomo algumas doses e ligo para outras pessoas. Resisto a meus primeiros instintos de fuga. Não peço que ninguém decida por mim. Ligo para minha mãe, irmã, amigos, ex-amadas. Pessoas que não vejo há tempos, pessoas que sempre vejo. Não conto nada a ninguém. Chega! Não divido isso com ninguém. Esse peso é meu. Vou assumi-lo por completo. Apenas falo com as pessoas, pergunto se estão bem, se estão felizes. Todos dizem que sim. Muitos mentem, é claro. Talvez 70 ou 30% de acordo com a minha fase e minha crença na sinceridade do ser humano. Bom, de qualquer forma, uma pessoa feliz já é alguma coisa. Despeço-me de todos da mesma forma: “Se cuida”. Quando finalmente termina a via sacra telefônica, quando pronuncio o último “se cuida”, atiro com força o telefone contra a parede. O som e a imagem dele se despedaçando fazem-me sentir-me forte. Como se eu pudesse cuidar de mim mesmo, finalmente. Como se eu finalmente pudesse cuidar dessa situação. Olho para o acionador. “Somos só nós dois agora”. Sirvo-me outra dose. 


*       *      *     *     *


Termino a dose. Sirvo-me outra. Sento-me na poltrona. Arco-me para arrastar a mesinha de centro com o controle e com o copo. Deixo-os a minha frente. Mantenho os olhos no controle e a mão no copo. Refestelo-me na poltrona, porém, mantenho o olhar focado no controle, para impedir minha mente de vazar. Preciso concentrar todo meu fluxo mental no acionador. Penso... Penso...

Destino! Sim! Destino! Essa é a prova definitiva da existência de uma inteligência superior. Olho a alavanca posicionada no centro, lembro-me de meus livros meio lidos, textos meio escritos, minha vida meio-vivida. É um simbolismo. Uma vida inteira não vivida por falta de meio. Um gato nem vivo, nem morto. Eu nem vivo, nem morto. Eu sou a merda do gato de Schöedinger, por falta de centro. Um simbolismo. Prova da existência de uma inteligência superior. Bem superior, aliás, pois o simbolismo ainda é irônico. A decisão mais importante da existência deixada a cargo de alguém incapaz de tomar as decisões mais simples. Está provada a existência de Deus. E ele tem senso de humor! Rio e tomo outra dose. A garrafa de Black Label, ao menos, já passa da metade.

Não! Não existe destino. Não existe lógica no mundo. Engraçado, por gerações e gerações os gênios que antecederam esses gênios buscaram construir modelos para explicar o mundo. No cume desse desenvolvimento, esses homens construíram uma máquina capaz de recriar o próprio universo em miniatura. E o que descobriram? Que não há explicação. Não há lógica. A razão é tão real quanto o coelhinho da Páscoa, Papai Noel ou Deus. Estamos sozinhos, viemos do nada, vivemos no meio do nada, e voltaremos a ser nada. Por motivo nenhum. Motivo é uma invenção de nossas mentes frágeis. Esses cientistas observaram esse vazio e abraçaram essa loucura. Sortearam a decisão mais importante da história de sua disciplina, de seu quase-credo. Deixaram-na na mão de um não-iniciado. De um desequilibrado. Nem se deram ao trabalho de olhar minha ficha médica. Assim como o abismo, para o qual olharam, nem se deu ao trabalho de olhar de volta. “E daí que ele é desequilibrado? Equilíbrio não existe mesmo. Só uma ficção de nossas cabeças! Pague o cara e vamos jogar Halo multiplayer”.  Talvez não tenha sido exatamente assim, mas foi uma variação desse dialogo que decidiu todo o destino da criação. No fim, é irônico.  Essa opção é irônica também. O ser humano construiu milhares de máquinas de destruição e, quando resolvem fazer algo para investigar a criação. “Bum!”.  Ela pode acabar com tudo e fazer o projeto Manhattan parecer um show de fogos de artifícios. Uma pena que não sobraria ninguém para apreciá-la. A menos, é claro, que existam ETs ou Deuses (que tenham – obviamente – senso de humor).

Mesmo umedecida pelo meu suor a poltrona continua confortável, macia, prazerosa. Tomo mais uma dose de Whisky. Sirvo-me da última dose. Olho para o teto e penso. Penso se não é melhor desligar a máquina e deixar tudo como está.  Não colocar em risco coisas como poltronas, livros, bebidas, pílulas, ciência, Deus. Penso se isso não seria mais uma vez fugir da responsabilidade. Se essa merda toda não é um experimento psicológico e estão todos rindo de mim agora... se for: quantos já ligaram a máquina? Não seria melhor, então, ser classificado, entre aqueles que tiveram bolas para ativar a máquina?

Pronto! Mal percebo e já estou novamente me esquivando da responsabilidade. Essa decisão é minha. Pelo menos uma coisa, posso dizer que decidi por mim, por meus pensamentos.

Penso.

São várias as ironias: Uma vida inteira não vivida por falta de centro. Uma alavanca no centro; A decisão mais importante a cargo de alguém que é incapaz de tomar decisões; alguém incapaz de assumir responsabilidade tem como primeira delas a maior delas (até hoje). Ironia! Ironia! Isso! Eu estava certo sobre a ironia, mas errado ao mesmo tempo. Há sim, alguém para apreciá-la. Sempre houve! Rio!

Pego o controle. Bebo vagarosamente a última dose de Whisky sentindo todas as nuances de seu sabor. Não! Não é Whisky que aprecio: é Ironia! “Ironia bilhões-de-anos”! Termino a dose. Coloco a chave na posição ON. 


*       *      *     *     *

Acordo.

Meio-dia.

Meus lençóis estão encharcados de suor. Tive um sonho muito vívido essa noite. Embora todos o sejam, no pólo norte, quando se consegue dormir – é claro. Ou, talvez, seja a realidade quem se torne menos vívida, mais onírica. Quem se importa, quando junto com a consciência lhe invade uma forte dor de cabeça?

Evito abrir os olhos, evito a claridade. Tateio o criado mudo e derrubo no chão a garrafa de Whisky. Percebo o que fiz pelo som e pelo cheiro. Ela se quebra. Merda! Tenho que abrir os olhos. Rio ao relembrar meu sonho. É raro dormir quando se está no “pólo norte”. “São muitos dias de sol”. É mais raro ainda ter sonhos ou lembrar-se deles.  Esse é o primeiro sonho no qual não sou o escolhido para salvar ou mudar o mundo, mas sim para destruí-lo. Acabo abrindo os olhos. A luz me ofusca. Analgésicos! Procuro nas entranhas de Alfred. Teria eu escolhido diferente caso houvesse ciclado? Nas entranhas de Alfred: poemas meio terminados, canções meio compostas. É difícil manter o foco nos pensamentos. Poderia eu escolher diferente se tivesse ciclado? Se alguém tivesse me dito algo diferente ao telefone?  Por isso nunca mantive um diário. Os pensamentos escapam. Preciso de analgésicos. Não existe ciclagem rápida. Preciso terminar de ler Proust. Estou perdendo muito tempo. Muito tempo. Já passa do meio dia. Preciso tomar Sertralina. Tempo perdido. Preciso viver. Ciclagem rápida não existe. 

Minha casa treme diante de um barulho ensurdecedor. Pequenas “fat boys” estão caindo em meu jardim. Recolho-me em posição fetal pronto para deixar apenas uma sombra preservada na parede. Uma sombra em espectro reverso. Lindo. E o que pensarão os ar... o som cessa. Perco mais tempo fantasiando arqueólogos de um futuro descobrindo minha imagem e deduzindo a respeito de minha vida. Não sei há quanto tempo o barulho parou. Respiro fundo para encarar o sol. Falta-me coragem, respiro de novo. Talvez, lambendo o Whisky do chão, eu obtenha coragem. Respiro de novo, abro a janela em um movimento brusco. O Sol! O clarão me atinge como uma “fat boy”, emagrecendo aos poucos, até que eu possa ver um helicopetero negro parado em meu jardim. Dele, desce um homem vestido de negro. Terno impecável, óculos escuro, rosto comum. Rio – maniacamente - como só poderia ser. Que rezem todos! Que reze o mundo: para que exista ciclagem rápida!

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Dois Amores


por Denis Barbosa Cacique

Ele disse ter feito tudo por amor. Não exatamente com essas palavras, mas disse algo do tipo, e assim ficou subentendido. Naturalmente, a declaração soou muito estranha. Pois, ou a história não tinha nada de amor, ou tratava-se dum sentimento completamente diverso daquele que os jovens enamorados vivem dizendo um ao outro e que as mulheres adoram ouvir. Porque nada soa mais contraditória do que a idéia de que o amor possa ter motivado a invasão do apartamento, o seqüestro que se estendeu por cinco dias, e o fim trágico do romance, com o assassinato da amada pelo amante. Soa tudo muito estranho, mas não de certo ponto de vista, que vale a pena examinar.

Se Fedro, personagem de Platão, tem razão quando diz que “os amantes concordam que são mais doentes de espírito do que lúcidos, e que estão cientes da falta de bom senso, da desordem do seu pensamento e da incapacidade de se dominarem”, então a contradição desaparece por completo. Porque, se as pessoas realmente se amam loucamente, como é comum ouvir dizer, então é verdade o que disse Fedro e tem de ser verdade também, por conseguinte, que o amor, essa carruagem desenfreada e sem cocheiro, pode tomar qualquer caminho e, assim, ter como destino qualquer lugar, inclusive aquele recém famoso apartamento da periferia de Santo André.

Esse amor doentio, carente de bom senso, desordenado, incontrolável e insano, que, apesar dessa coleção violenta de atributos, a maioria das pessoas carrega consigo, explica-se de maneira bastante simples. Fedro acreditava que o amante é permanente incitado pelo desejo de ver, ouvir, tocar e sentir sua amada, que lhe é fonte perpétua de prazer. Se sussurrada no ouvido, essa definição certamente pareceria muito romântica, mas, ao mesmo tempo, ela revela uma característica do amor que pouca gente percebe, ele é egoísta. Tendo isso em vista, Fedro sugere que a imagem exata do amor que os apaixonados sentem uns pelos outros é como a ternura de um lobo por um cordeiro.

Mas e o amor cristão, não estaria aí um antagonista perfeito ao amor egoísta? Sim, sem dúvida, mas é preciso examinar com cuidado o significado do “amarás a teu próximo como a si mesmo”, explicitando como este amor nada tem da relação entre lobo e cordeiro sugerida por Fedro. O amor cristão não pode ser aquele sentimento espontâneo que os seres humanos sentem apenas pelas pouquíssimas pessoas que lhes fazem bem ou lhes produzem algum prazer. E a razão disso é muito simples, é muito fácil amar pessoas carismáticas, belas, bondosas, e inteligentes, mas é quase impossível senti-lo para com aquelas pessoas carentes dessas qualidades. Em outras palavras, é fácil amar Eloá, mas, por mais que se queira, é quase impossível amar Lindemberg. Pois, como dizia Kant, o amor para com os homens é possível, mas não pode ser comandado.

O mandamento cristão deve ser entendido de outra maneira, portanto. É preciso submeter o amor às rédeas da razão, não para simplesmente amar a tudo e a todos indiscriminadamente. Isso é impossível. Mas para que o homem aja sempre como se amasse o seu próximo do mesmo modo que ama a si mesmo, e respeite a dignidade alheia do mesmo modo que deseja que sua própria dignidade seja respeitada. Esse amor cristão é incontestavelmente moral e não egoísta, diferenciando-se radicalmente do sentimento espontâneo e volúvel cujo exemplo extremo culminou na história de gritos, tiros e explosão no prédio da CDHU.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Passagem de Ida


Por Denis Barbosa Cacique


Proponho ao leitor o seguinte problema: você emprestaria algum pertence, esperando recebê-lo de volta, a uma pessoa que lhe fosse totalmente desconhecida? Você o faria sem exigir desse estranho, antes de ceder-lhe o empréstimo, algum número de documento, o nome completo, o endereço e o telefone? Aposto que não. Mas, a despeito de tudo que manda o bom senso, e afrontando todos os preconceitos que emergem do senso comum, foi algo exatamente assim que a Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas, a EMDEC, decidiu fazer.

A partir do dia 23 de Setembro, um acervo com mais de dois mil livros foi colocado à disposição dos usuários do transporte coletivo, nos nove terminais urbanos de Campinas, além do Terminal Multimodal de Passageiros “Ramos de Azevedo”, na nova rodoviária. O projeto em questão chama-se “Leitura, a melhor viagem”, e seu funcionamento é bastante simples. Os usuários que freqüentam os terminais poderão passar pelas estantes ali instaladas e retirar os livros que desejarem. Não há, para isso, qualquer burocracia: nada de inscrições, carteirinhas, registro dos empréstimos e prazos de devolução dos livros. Mas as devoluções deverão acontecer, apostam os idealizadores e responsáveis pelo projeto, da EMDEC.

A idéia é meritória em diversos aspectos. Pessoas sem tempo para freqüentar bibliotecas, escolas ou livrarias não terão mais desculpas para deixar de ler. Durante os minutos que separam a integração entre um ônibus e outro, o usuário poderá escolher um livro convenientemente, e já começar a lê-lo poucos minutos depois, no ônibus, durante o restante da viagem.


O projeto também deverá ajudar aquelas pessoas que, não exatamente por falta de tempo, e sim por falta de coragem, não ousam botar os pés em bibliotecas. Essas pessoas existem sim, e não são poucas. Elas temem parecer estúpidas, perdidas nos labirintos dos corredores das bibliotecas, ou incapazes de compreender a ordem estranha em que as obras são arquivadas. É um medo razoável, mas que desaparece quando a biblioteca deixa de ser o clube privado dos cultos e especialistas, materializando-se num lugar familiar e seguro, o terminal de ônibus.

Outro ponto positivo do projeto é a desburocratização do acesso à cultura. Que outro direito é exercido tão facilmente no Brasil? Matricular uma criança numa creche, agendar uma consulta médica e abrir um processo trabalhista, para citar apenas alguns exemplos, não são coisas das mais fáceis de conseguir, mesmo que esses direitos, à educação, à saúde e à justiça, respectivamente, sejam assegurados pela Constituição Brasileira.

Por todas essas razões, a idéia parece ótima. Mas será que vai funcionar?

A confiança cega depositada nos usuários das bibliotecas deve colocar, no mínimo, uma pulga atrás da orelha dos organizadores e demais pessoas interessadas no sucesso do projeto: será que os livros serão devolvidos? Somente se os livros retornarem o projeto dará certo. E será uma grata surpresa se isso vier a acontecer.

Sem qualquer força coercitiva que constranja os usuários das bibliotecas a devolverem os livros, há poucos motivos para acreditar que eles o farão. Talvez essa perspectiva pareça excessivamente pessimista, mas ela não o é por acaso. Estamos no Brasil, nunca é demais lembrar.

No país da Lei de Gerson, apostar na honestidade alheia é sinônimo de imprudência, ingenuidade e até estupidez. Levando isso em conta, não é absurdo antever as prateleiras vazias do projeto “Leitura, a melhor viagem”. E a razão disso é que, em pleno terminal de ônibus, deram aos livros apenas passagem de ida.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Qualquer um sabe tocar guitarra*


por B. F. Teixeira


Pelo menos assim diz Thom Yorke vocalista e líder do Radiohead. Para mim, Yorke está para música e para poesia, assim como Rogério Ceni está para os gramados, o que quer dizer que eu sou fã assumido e “pago pau mesmo, foda-se”! Contudo, nesse ponto em específico, sou obrigado a discordar de Yorke (o que me traz um certo pesar). Eu não sei tocar guitarra. E, dia desses, sei lá, fui invadido pelo insano desejo de ter uma banda.

Não o desejo adolescente de ser megastar – estilo Rolling Stones – e rodar o mundo consumindo todas as bebidas, drogas e “groupies” possíveis. Nem o arrogante sonho “adultescente” de revolucionar a música pop com melodias “pra-lá-de-complexas”, experimentais e letras “prá-lá-de-inexpugnáveis” cantadas com voz de bêbado sendo, por fim, chamado pela revista Q de inventor do “Quantick Rock”!

O desejo que me invadiu foi o de ter uma banda de velhos amigos que tocasse como quem joga a pelada de domingo à tarde. E que de vez em quando, muito de vez em quando, tocasse nos Mutlões ou nos Deltas Blues da vida apenas para ganhar umas brejas de graça e uns VIP pros camaradas.

Claro que tocaríamos alguns inevitáveis clássicos do Rock, talvez até mesmo uma do Raul – só se alguém pedisse -, mas o forte mesmo seria o nosso repertório “próprio”. Composto de versões em inglês (e às vezes até mesmo em português) “Rock-blues-soul” de músicas bregas nacionais. Só para ver se alguém reconheceria. Só para ver se elas continuariam bregas. Só de sacanagem. Só por piada interna (e não são essas as melhores piadas?). “Só” por todos esses motivos.

Devo admitir (o que, também, faço com certo pesar – o que na verdade, quer dizer, com “uma puta inveja”) que essa idéia não é totalmente nova, nem para o mundo, nem para mim. A idéia já tinha me atingido quando (o que me leva a crer que talvez essa idéia seja bastante comum...) – em um dos meus últimos dias em Campinas – no bar do Jair, ouvi uma tiazinha louca (cujo nome não me lembro) de voz rouca cantando “Nuvem de Lágrimas”. Foi mágico! Janis Joplin estava fazendo um cover de Fafá de Belém! Ou melhor, a Janis Joplin cover estava fazendo um cover de Fafá de Belém! O público foi ao delírio! E a idéia me veio. Pensei em chegar em casa e começar a adaptar as letras e melodias. Mas, logo a idéia desistiu de mim e eu dela. Afinal, eu não sei tocar guitarra!!

Depois, vendo o Estúdio MTV Coca-Cola Chitãozinho e Xororó e Fresno, a idéia voltou a acenar para mim. Traduzi uma frase de uma música brega, coloquei no orkut e desafiei uma amiga (fã do Fresno) a reconhecer a origem. Ela adivinhou (colando, é claro), eu gostei e ficou por isso mesmo.

Volto, então, por fim, ao primeiro “dia desses” (o do desejo insano). Que, na verdade, foi quarta-feira retrasada. Via o jogo São Paulo e Sport com meu pai. Ele sentando no sofá. Eu deitado no tapete. Em um modorrento 0 a 0 sem nenhum “quase-gol”, eu “quase-dormi” e tive um “quase-sonho”. Sobre uma banda de velhos amigos. Tocando um Blues, como quem joga o futebol do fim de semana. Um Blues sobre a perda e sobre a culpa. O Pequeno público com os isqueiros acesos (eram da velha guarda: nada de celulares) movia as mãos de um lado para o outro. Foi mágico! Por um breve momento, aquele momento, “everybody had got the Blues!” “Não agüento ver esse Hugo jogando!!!” gritou meu pai a plenos pulmões, à plena indignação. O som da corneta abafou a melodia. Tocou a letra embora. Não culpo meu pai, lógico. Culpo o Hugo!!!

Horas depois, a letra me voltou, ou ao menos o refrão. O que só aconteceu porque eu conheço a original, é claro. Aí, resolvi traduzir todo o resto e postar aqui. Só porque às vezes precisamos terminar algumas coisas. Só porque preciso ganhar tempo entre uma parte e outra de meu post “emotivo”. Só de sacanagem. “Só” por esses motivos todos, segue a letra...

Your love is everything… Still!
(Moacyr Franco – Versão: Brunão)

It's nice to see you again,
you look prettier, Fancier, Younger, livelier
And I'm still talkin' about flowers and declaimin your name
Even my own fingers betray me, dialing your number

It's my looks, I've changed, my looks
But deep inside I can't change
The feeling doesn't cease, the illness doesnt heal
Your love is everthing for me, Still!
From that moment i've waited for you
From that damned moment, only you
I know the guilty of dont having you is mine
And so is this awful fear of fallin' again
MINE!

I know I should not ask, ask: forgive me!
I really wanted to walk across you and smile
But shall we settle, life makes us so small
We prepare for the most, we cry for the least.

It's my looks, I've changed, my looks
But deep inside I can't change
The feeling doesnt cease, the illness doesnt heal
Your love is everything. Still!
From that moment i've waited for you
From that damn moment, only you
I know the guilty of not having you is mine
And so is the awful fear of fallin' again:

MINE!

E quanto à melodia? Essa nunca mais me voltou. Seja em sonho, seja na vigília. Mas, também, se o tivesse feito, de nada adiantaria. Afinal, eu não sei tocar guitarra!

* "Anyone can play guitar", Também pode ser traduzido como “Qualquer um pode tocar guitarra”, tradução que acho, pelo contexto da música, e pelo conhecimento do restante da canção (e do disco do Radiohead) mais fiel ao original. Contudo, optei aqui (ou, talvez tenha distorcido-a mesmo) pela que servia melhor aos meus objetivos.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Resposta ao post de um amigo meu

Parte 1 - Apocalipse Já!


Há muito tempo – nessa mesma galáxia – Denis ofereceu um espaço a mim e a César no Nobre Ordinário. César fez dele bom uso, eu não. Nem bom uso, nem uso algum. Nem para falar de “nerdices”, nem de futebol, com a eterna desculpa de estar trabalhando na reforma dos “Três Corneteiros”. Construção também que nunca saiu da planta. Depois, migrei para a desculpa de que havia largado essa “mania” de escrever. Havia – finalmente – ouvido o conselho de minha sabia mamãe: “Isso não dá futuro para ninguém”. Por fim, (mal) influenciado pelo excelente seriado “Californication” ( meu novo vício, sobre o qual prometo escrever aqui mais tarde – a menos, é claro, que consiga migrar pra outra desculpa) passei para a charmosa desculpa da crise criativa. Mas, a verdade, verdade mesmo, é que eu não fazia idéia do que escrever. Meu cérebro estava abandonado, sem uma “puta” de uma ideiazinha. Até que, finalmente, assisti “Apocalipse Now Redux”. E Levei dois dias para atravessá-lo. Não que fosse lento demais. Não que aquela loucura toda, os discursos de Brando, a cavalgada “aérea” das Valquírias e o delicioso cheiro de Napalm matinal não tenham me atingido como um soco no estomago que me tirasse dos pulmões todo ar. Mas, não foram esses motivos que me obrigaram a desligar o DVD e só voltar a assisti-lo três dias. Pelos motivos supracitados, não poderia fazê-lo jamais, pois Apocalipse Now é uma grande história. E as grandes histórias (como diz Alan Moore em seu “On Writing for Comics”1), só o atingem após o terem seduzido e embrenhado em sua teia, de forma que – após ser golpeado – não há outra opção além de seguir em frente, de forma desesperada, até o final.

Mal vislumbrei a entrada do labirinto, voltei correndo. Não passei da cena inicial. Não pela força da cena na qual um simples ventilador traz à mente do personagem de Sheen a imagem da hélice de um helicóptero. Mostrando de forma poderosa, simples e bela como aquela guerra marcou toda uma geração, todo um país (pense nas reações dos Yankees aos acontecimentos do Iraque e você verá que alguns ventiladores ainda são vistos como hélices). Mas, não! A culpa de eu ter parado na cena inicial não foi de Coppola. Talvez, tenha sido um pouco de Jim Morrison. Esse foi cúmplice, pelo menos. Aliás, nem sei qual é a função daquela música na cena. Tenho certeza de que perdi muita coisa lá. E, agora, chego ao verdadeiro culpado por eu ter levado meia semana pra assistir Apocalipse Now: o DENIS!
Há tempos ele escreveu um post, que resolvi responder agora. Ou seja, a partir de agora – depois de todo o preâmbulo acima – vou começar a fazer jus ao título do post.(Quer dizer, responder de forma adequada, por que já respondi por MSN xingando-o por ter me chamado – afinal sou “bad-ass porra!” - de “figura encantadora”). Por isso, se você ainda não leu o post original, por favor, leia, e depois retorne.

Concordo com você, Denis. Nossa formatura foi patética. Um pouco por culpa de desorganização do instituto, um pouco por “escrotice” dos próprios alunos. Mas, não creio que ela foi decepcionante. Pois dela (ou deles?) eu não esperava nada. Mas, a despedida do Quarteto Fantástico (eu, você, César e Lívia) - essa sim - foi decepcionante. Você não cometeu nenhum exagero em seu texto, nós merecíamos mais. Algo como uma bebedeira homérica em uma noite inteira passada em claro disparando nossos derradeiros comentários ácidos sobre o IFCH, a Unicamp, o mundo e, é claro, discutindo teorias malucas de lost e de outros filmes e séries.


Talvez, tenhamos sido influenciados pela falta de cerimônia da cerimônia. Ou talvez, foi apenas nossa dificuldade em comunicar nossos sentimentos. Quatro amigos passam quatro anos (ou mais, no seu caso, mas não por sua culpa) lendo, escrevendo, enfim, comunicando-se sobre algumas das obras mais complicadas que a humanidade já produziu, e no momento de uma “simples” (?) despedida, não sabem o que dizer. Temos que acrescentar, além disso, que somos quatro verborrágicos incorrigíveis (pelo menos juntos!). Então, como explicar o que ocorreu?


Não posso falar pelos outros – afinal, você conseguiu faze-lo, tempo depois, com um belo texto – mas, no que diz respeito a minha parte, isso com certeza se deve a minha dificuldade de expressar sentimentos. Especialmente, em me despedir. Eu não me despedi (pelo menos não de forma apropriada) porque não queria me despedir. Porque eu sabia que iria sentir falta de vocês, não queria, não sabia como dizê-lo. Nesses momentos, o “bad-ass-mothefucker” entra em confronto com a “figura encantadora” (que odeio admitir, mas talvez o seja mesmo. Pois, ouvi a mesma coisa da minha terapeuta e de uma colega de trabalho) e tudo que resulta desse confronto é um “se cuida”. Isso mesmo! Despedi-me de pessoas - com as quais, durante quatro anos, passei mais tempo que com minha própria família - com um “se cuida”. Despedi-me como se fosse vê-los no dia seguinte. E, se assim o fiz, foi porque realmente queria vê-los no dia seguinte. Mas, não os vi. Não os vi nunca mais. Pelo menos até agora.


No post original, você diz que exagerou ao utilizar a música e imaginar a cena. Digitando esse texto agora, ao som dela, eu discordo de você. Você não exagerou. Você estava certo. Nós merecíamos uma despedida épica. Nós éramos o Quarteto Fantástico (e eu era o Coisa!). Merecíamos mais. Disso, me arrependo até hoje. Infelizmente, nada posso fazer para mudar o passado. Mas, posso mudar como eu me lembro do passado. E, afinal, para nós, filósofos, qual é a diferença? Enfim, foi por isso que eu parei de ver “Apocalipse Now Redux” na primeira cena e só continuei três dias depois. Nesses três dias, baixei a canção “This is the end”, escutei-a o máximo que pude – sóbrio e bêbado, com fome e com sono – até que minhas memórias fossem finalmente reescritas. Somente depois de todo esse processo, pude continuar a ver o filme. Somente depois de todo esse processo, meu arrependimento foi aplacado. Porque, agora, é assim que me lembro de nossa despedida (e você achando que você era exagerado, tsc, tsc):


Eu, você, Lívia e César estamos sentados no Giovanetti do Shopping Dom Pedro em uma mesa redonda. A ordem das cadeiras muda toda vez que me lembro. Mas, como diria Arthur2, em uma mesa redonda todos são iguais. O crepúsculo ilumina obliquamente nossa mesa gerando pequenos reflexos em duas pilhas de pires. As maiores de todo o bar. Torres Gêmeas de Pisa. Estamos rindo. Nossos copos vazios. A garçonete chega. Mais quatro chopes. Mais quatro pires. Dois em cada uma das torres. Os últimos chopps. A “caideira”. Ficamos em pé em nossas cadeiras. Erguemos os copos como “santos graais”. A luz do crepúsculo passa por meio deles. Iluminando-os. Sentimos esperança, como se tivéssemos quatro pequenos sóis – e seus respectivos mundos - em nossas mãos. Ao mesmo tempo, sentimos melancolia, pois sabemos que tais mundos estão condenados à extinção, pois assim estão, seus pequeninos sóis.
Fazemos um brinde: “À nós! Quarteto Fantástico forever! Eu sou o Coisa!!!” grito bem alto. Nós quatro rimos. Nossos copos se tocam no ar. A melodia começa. Jim Morrison surge, como se estivesse o tempo todo sentado na mesa ao lado, e começa a cantar “This is the end”. Todos no bar acompanham em coro, como em um delírio de “Ally Mcbeal” ou como em um antigo e cafona musical. Com exceção de nós quatro. Que bebemos em uma única e prolongada golada o melhor chopp de todas as nossas vidas. Os copos vão se esvaziando ao ritmo da melodia. Esvaziam-se. Quatro garçons passam, com quatro bandejas, dançando e cantando ao som da canção. Soltamos nossos copos nas bandejas. Juntamos nossas mãos. Como os Power Rangers, um time de futebol ou o Quarteto Fantástico. Minha mão sempre vai por cima. Porque eu sou o Coisa e é assim que eu me lembro da capa da revista. Fazemos um pequeno cumprimento com as cabeças.

Eu e Lívia: “Quarteto Fantástico”.

Você e César: “Forever!”

Descemos das cadeiras em uma manobra hábil, sincrozinada e suave. A melodia já está em seu acelerado final – bateria, teclado, guitarra. Caminhamos cada um em uma direção. “This is the end, my beautiful friend”. A melodia desacelera de novo. “The end of laughter....” Vamos caminhando. Os extras e Morrison continuam cantando. Caminhamos cada um em direção a uma saída diferente. Em direção ao por do sol. (Estranhamente, naquele dia o sol se pôs nos quatro pontos cardeais). Caminhamos até eles...

“THIS IS THE EEEEEEEEND...”

Notas
1 - Procurei a citação original em um site que tem um tradução do texto feita por um fã. Li isso há muito tempo. Tanto que o site já saiu do ar. Posso ter errado alguma coisa, mas o espiríto das palavras de Moore é aquele.

2 - Obviamente, o Rei de Camelot e não aquele que estudou conosco....rsss

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

A volta dos que não foram

Sinto ter perdido o jeito com esse negócio de Blog. É que faz um bom tempo desde que apareci por aqui pela ultima vez. Quase dois meses, se não erro a conta. Não sei muito bem o que houve. Sou assim. Às vezes me desencanto com as coisas. Eu poderia dizer que esse meu semestre na faculdade está exigindo muita dedicação e que estou muito atarefado com a reforma da minha casa e com o trabalho no hospital e no Comitê de Ética. Mas a verdade talvez seja bem mais simples. De repente, perdi o encanto com o blog. Isso deve ser comum. Comigo, desencantamentos com tudo e com todos, inclusive comigo mesmo, são bastante freqüentes.

Mas estou de volta. Cansei de esperar o retorno do encantamento. Às vezes ele não volta, ou volta só quando quer, e isso costuma demorar.

Retorno ao Nobre Ordinário sei lá porquê. Tem a ver, eu acho, com os mimos que recebi. Gente me perguntando quando eu postaria novos textos. Garotas frenéticas segurando cartazes em frente ao portão de casa e me deixando em situação complicada com a patroa. Caixa de e-mail lotada com e-mails de fã-clubes. Aviões puxando faixas enormes: “Queremos o Nobre Ordinário de volta”. Tudo na minha mente, claro. Mas funcionou.

O texto que vou postar fala sobre o exercício da democracia por meio das eleições. É um texto sério. Não sei se é um texto certo, mas é sério. Espero que os leitores do Nobre Ordinário o aprovem, se é que restou algum leitor, claro.

O circulo vicioso da democracia brasileira


O exercício da democracia por meio do voto não é infalível. Não raramente, a opinião da maioria incide em erros graves. É lugar comum, por exemplo, lembrar que, numa das primeiras decisões democráticas de que se tem registro, absolveu-se Barrabás, crucificou-se Jesus. De modo semelhante, acontece que do fato de o povo poder escolher seus representantes políticos não se seguem, necessariamente, boas escolhas. No Brasil, é comum a eleição de sujeitos sem a menor condição moral ou técnica para governar o país, desde artistas falidos e ex-políticos sabidamente corruptos até anônimos excêntricos. O espaço concedido pela sociedade para a ascensão desse tipo de gente sinaliza que, ou eleitor brasileiro não está suficientemente preparado para participar, livremente e conscientemente, do processo eleitoral, ou o faz de modo indiferente e irresponsável. É o caso de verificar mais de perto como isso acontece.


O erro começa com o fato de o voto ser uma obrigação, e não exatamente um direito. Com isso, eleitores sem o menor interesse por política dão um jeitinho de encaixar a votação na concorrida agenda de domingo e, sem qualquer convicção sobre em quem votar, escolhem seus candidatos de modo totalmente irresponsável, aceitando o primeiro santinho que lhe entregam numa boca de urna. Somados, votos desse tipo fazem bastante diferença, freqüentemente pesando a favor de maus candidatos.


O descrédito dos políticos junto à opinião pública também é determinante do descaso dos eleitores e, conseqüentemente, da enorme quantidade de votos realizados de maneira irresponsável. Mas não é difícil compreender a apatia de quem vota. Eleição após eleição, as notícias são sempre iguais, não dando conta de descrever o lamaçal de corrupção em que se atolou a política brasileira. E não adianta nada a alternância entre partidos. Se, nos palanques e nos programas eleitorais, oposição e situação gaguejam discursos adocicados com princípios de ética e compromisso social, nos corredores do congresso, nos prédios dos ministérios, nas câmaras, nos gabinetes e nos palácios, tagarelam fluentemente o amargo dialeto da corrupção. Não por acaso, portanto, o senso comum e seus perigosos chavões se inflam de razão: “político é tudo igual”, “político é tudo ladrão”.


Outro importante fator de insucessos em consultas democráticas são as graves deficiências educacionais da população brasileira. Privados de um aguçado discernimento político, que se adquire mais com os livros do que com as novelas das oito, os eleitores se tornam presa fácil para toda forma de manipulação. É por isso que campanhas políticas abusam do poder hipnótico da propaganda, substituindo os argumentos, as propostas, a discussão e o convencimento pela ilusão que cores e músicas meticulosamente escolhidas pela ciência do marketing são capazes de produzir. É impossível, por exemplo, calcular quantos votos foram ganhos com jingles do tipo “Chico Amaral é o prefeito ideal” e “dois patinhos na lagoa, vote Afif, 22”. Outra estratégia comum é o uso da máquina pública com fins de propaganda. Políticos que constroem rodoviárias e teatros faraônicos não podem estar pensando em outra coisa senão no uso político dessas construções. Vale lembrar, ainda, o famigerado “Fome Zero”, política social indissociavelmente misturada com marketing eleitoral do Governo Lula. O processo de manipulação das massas por meio da propaganda marca a vitória de gente como o publicitário Duda Mendonça e de obscuras arrecadações de recursos para custear as campanhas.


Todavia, embora passivo de erros, o exercício da democracia por meio do voto é uma das mais importantes conquistas da população brasileira. Ele é um símbolo da igualdade entre os cidadãos, independentemente das diferenças de gênero, de raça e econômicas. Mas é preciso compreender duas coisas. A primeira é que a democracia não nasce pronta. Ela se consolida e amadurece aos poucos, às vezes lentamente, no mesmo ritmo em que a população amadurece, sobretudo do ponto de vista da educação. A segunda é que o voto é apenas uma face da democracia. Exercê-la apenas de quatro em quatro anos, durante as eleições, abrindo mão de fiscalizar os eleitos e de agir com eles, dá margem ao desenvolvimento de um círculo vicioso que tem, de um lado, desencanto para com a política e, de outro, corrupção e incompetência.


Denis Barbosa Cacique – Campinas, 2 de setembro de 2008

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Profissionais da Área de Saúde e o Minúsculo Território Entre a Banalização e o Amor aos Pacientes


Na aconchegante nova copa do Same, durante uma dessas conversas apressadas em que se intercalam goles de café e olhadelas no relógio, Vergínia me narrou uma história comovente. Recém formada em Terapia Ocupacional e contratada pelo Hospital e Maternidade Celso Pierro, sua filha, Priscila, já começa a colecionar histórias. A que ouvi, em especial, lembra em muito o quotidiano de alguns profissionais do Caism, sobretudo os das especialidades de Oncologia e Neonatologia. Tendo em vista esse ponto de contato, sugeri à Vergínia que sua filha me enviasse um e-mail com os detalhes do acontecido. Muito gentilmente, a Priscila me os enviou poucos dias depois, concordando também com a publicação da história.

No e-mail, Priscila conta que parte do seu processo de trabalho consiste em visitar pacientes internados a fim de verificar se algum deles necessita de acompanhamento terapêutico. Foi assim que conheceu uma jovem de 28 anos, casada, doente de um grave aneurisma e com um prognóstico nada otimista. Ela seria submetida a uma cirurgia extremamente delicada, na qual se tentaria pinçar a artéria que apresentava o problema.

O fato de a paciente estar bastante debilitada, associado à sua baixa idade e ao empenho que seu marido demonstrava ao acompanhá-la, comoveu toda equipe multiprofissional responsável por ela, em especial, minha colega. Assim, surgiu entre terapeuta e paciente um vínculo afetivo que, embora seja difícil de definir num termo simples como “amizade”, de certo era algo diferente do respeito técnico que os profissionais da área de saúde desenvolvem ao longo de suas carreiras. As palavras da própria Priscila fazem notar o surgimento de um vínculo profissional, mas também afetivo, entre elas. Cito-a: “o envolvimento com a situação dela foi tão intenso e tão difícil para uma pessoa que está começando na profissão, como é meu caso, que, quando eu ia ao leito para atendê-la, já não sabia se era como terapeuta ou como amiga que eu estava lá.” Sinal desse envolvimento ambíguo foi o fato de que, chegado o dia da cirurgia, a paciente solicitou o acompanhamento de sua terapeuta preferida, Priscila, até o Centro Cirúrgico. Embora o acompanhamento seja um procedimento rotineiramente realizado pelos terapeutas ocupacionais, há de se ressaltar que o desejo de ser acompanhada surgiu por iniciativa da própria paciente. É de se notar, ainda, que aquele vínculo mostrou-se de grande importância para que a paciente encontrasse a determinação necessária para se submeter à cirurgia, que, embora fosse de grande risco, era o ultimo recurso de que a ela dispunha para salvar sua jovem vida.

Infelizmente, contudo, a paciente veio a falecer em decorrência de complicações surgidas ao longo do procedimento. Para descrever a reação da minha colega, cito-a novamente: “soube da notícia dois dias depois, pois todo este procedimento fora realizado no domingo e eu não estava no hospital. Isto me abalou profundamente, pois não estava ao lado da família da paciente para dar o suporte necessário no momento que precisaram. Acompanhei o caso de perto durante todo o tempo e, no final, não consegui dar a cobertura de que a família necessitava. Essa foi minha maior decepção. Sei que fiz o que pude, mas sei também que poderia ter feito muito mais por aquela mulher e pelos seus familiares”. É curioso notar que o profundo abalo e decepção sentidos por minha colega, no fundo, nada têm a ver com a dedicação e responsabilidade com que ela realizou seu trabalho: ela fez o melhor que pode.

A história compartilhada por Priscila ilustra o quotidiano de vários profissionais da área da saúde. Eles têm de estar face a face com os sentimentos de impotência, de medo da morte e de infelicidade. Esforçam-se por amenizar a dor física e psíquica, o desconforto e a angústia dos pacientes. Assistem repetidas vezes o fenômeno da morte e, aos poucos, desenvolvem um faro sombrio que lhes permite antevê-la a quilômetros de distância. Eles devem dedicar atenção humanizada aos seus pacientes, arrebatando, às vezes, centenas de corações. Todavia, se são eles que se apaixonam e, se vier a ser preciso dizer “adeus”, haja lágrimas.

Denis Barbosa Cacique – 28 de julho de 2008

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Perdidos no Tempo


por César Eduardo Zambon

Antes de qualquer coisa, é bom deixar claro que esse post é dedicado (quase que) exclusivamente aos nerds em geral, mais especificamente àqueles que curtem sci-fi, e ainda mais especificamente aos fãs de Lost. Quem não acompanha a série ficará totalmente “lost” – embora os que acompanham talvez fiquem também.

Fato é que, na semana passada, durante a “Comic Convention 2008”, os produtores de Lost divulgaram um vídeo, para variar, muito esquisito. A princípio, parece que se trata de mais uma daquelas filmagens toscas da Dharma Initiative, em que nosso conhecido japa, vestido de jaleco, se apresenta e, em meio a muita estática e cortes nas imagens, dá algumas orientações sobre como devem agir aqueles que irão trabalhar na determinada estação de pesquisa.

No entanto, logo no começo já vemos que dessa vez será diferente, muito diferente. A começar pelo cenário e figurino: não vemos ao fundo nenhuma estação de pesquisa. Nosso japa encontra-se vestido com roupas casuais em um ambiente doméstico, provavelmente sua própria casa – inclusive, sua família parece estar presente ali. Dessa vez, ele nem sequer se apresenta com um de seus pseudônimos como de costume – até pensa em fazer isso, mas rapidamente muda de idéia. Nada de Edgar Halliwax, ou Mark Wickmund, nem Marvin Candle: o japa finalmente revela seu nome verdadeiro – Pierre Cheng.

O tom do monólogo também é completamente outro. Nada de sorrisos ou daquelas tranqüilas orientações de sempre. O clima é tenso, tudo parece ser uma questão de vida ou morte. No lugar das instruções de praxe, um apelo desesperado. Clique aqui para assistir ao vídeo.

De tudo que foi dito, sem dúvida o que chama mais a atenção é essa história de “talvez vocês possam nos salvar, mudar o passado...”. Mais uma vez o tema “viagens no tempo” pede passagem. Mas não é que dessa vez uma grande dica foi dada, justamente quando Cheng fala sobre o motivo pelo qual foi levado à ilha? Diz ele que foi “para estudar a solução da Métrica de Kerr para as equações de campo do Einstein”. Uma frase aparentemente sem muita relevância e que mal pôde ser ouvida com clareza, mas que talvez traga a resposta para os maiores mistérios da ilha envolvendo tempo. Vamos ver algumas observações sobre essa tal Métrica de Kerr.

A Métrica de Kerr

“Na Relatividade geral, a Métrica de Kerr descreve a geometria do espaço-tempo ao redor de um objeto massivo em rotação. De acordo com essa métrica, tais objetos em rotação devem apresentar ‘Arrasto de Referência’ – arrastam o espaço-tempo em torno de si mesmos. Grosso modo, esse efeito prediz que qualquer objeto que se aproxima da massa em rotação tende a seguir a mesma rotação, não por causa da aplicação de alguma força que possa ser sentida, mas sim por causa da curvatura do espaço-tempo associada aos corpos em rotação. Dentro de distâncias suficientemente pequenas, todo objeto – inclusive a luz – tem de entrar em rotação junto com o corpo. A região onde isso se passa chama-se Ergoesfera”. (Traduzido e adaptado da Wikipedia em inglês, verbete “Kerr Metric”).

Já percebeu? Sim, a ilha se encontra dentro de uma “Ergosfera”. O seu globo é um buraco negro em rotação. Isso já explicaria a invisibilidade da ilha para observadores externos, o que se deve à velocidade incrivelmente alta de rotação a que ela está submetida. Ela gira tão rápido que ninguém consegue vê-la – como no caso de um ventilador girando muito rápido, quando você olha não vê as pás.

E mais: o tal “arrasto de referência” explicaria porque a ilha “suga” os objetos – mesmo os de grande massa – que passam próximos dela (o Oceanic 815 e possivelmente o Black Rock). Antes nós achávamos que isso tinha a ver com eletromagnetismo, mas agora tudo fica mais bem explicado. Esses corpos são atraídos pela ilha não por causa de alguma força que ela exerce – como o magnetismo – mas sim porque o espaço-tempo que a circunda é encurvado.

“Fenômenos ainda mais estranhos podem ser observados dentro da região mais interna do espaço-tempo, como por exemplo, algumas formas de viagem no tempo. Por exemplo, a Métrica de Kerr permite circuitos [loops] temporais fechados, nos quais um grupo de viajantes retorna para o mesmo local, depois de se moverem durante um tempo finito – de acordo com seus próprios relógios. Contudo, eles retornam não apenas para o mesmo local, como também para o mesmo tempo, do ponto de vista de um observador externo”. (Traduzido da Wikipedia em inglês, verbete “Kerr Metric”).

Isso ressuscita a teoria do Loop Temporal no seu principal argumento – embora não totalmente. Essa teoria defende basicamente que a Estação Cisne foi construída justamente para manipular esse efeito descrito acima. Só que, no caso, não seria apenas um grupo de viajantes, mas sim todo o conteúdo da Ergosfera que participaria da viagem. Portanto, aquele botão que o Locke ficava apertando seria, grosso modo, uma maneira de “resetar” o tempo na ilha a cada 108 minutos, mantendo o loop – ou seja, durante 108 minutos a ilha ficava viajando e, após esses 108 minutos ela estava de volta ao mesmo lugar no mesmo tempo.

“Para o observador externo à Ergosfera o corpo viajará a sua velocidade própria somada à da rotação do espaço. Este fato, segundo a teoria da relatividade, implica em curiosas conseqüências. A observação de um corpo que viajara suficientemente rápido sobre a ergosfera poderia dar uma velocidade relativa, com respeito a nós, superior inclusive à velocidade da luz. Nesse caso, tal objeto simplesmente desapareceria de nossa vista e chegaria a seu destino antes que houvesse partido. O que, em termos físicos, significa que haveria viajado ao passado. Por essa surpreendente idéia, as Ergosferas se concebem, pelos físicos teóricos, como verdadeiras máquinas do tempo naturais. Máquinas onde, em qualquer caso, não se pode viajar mais além do momento em que se formou o buraco negro em questão”. (Retirado da Wikipedia em português, verbete “Ergosfera”).

Aqui está a resposta para o estranho fato de o médico do cargueiro ter chegado na ilha morto, “antes” mesmo de ter morrido no cargueiro. Também deve explicar o experimento do foguete feito pelo Faraday e o fato de Sayid e Desmond terem demorado mais de um dia para chegar ao cargueiro vindo da ilha no helicóptero – contudo esses pontos ainda não ficam muito claros, pelo menos não para mim.

De qualquer modo, há também uma relação desses fenômenos descritos pela Métrica de Kerr com a teoria dos “wormholes”. Um wormhole (ou “buraco de verme”) é uma espécie de túnel, gerado por uma curvatura no espaço-tempo, que une dois pontos distantes do espaço-tempo, possibilitando, na teoria, viagens no tempo. Pode ser que a Ergosfera da ilha possua uma infinidade desses wormholes, já que no vídeo da Orquídea o japa menciona o Efeito Casimir, teoria relacionada a esse fenômeno. Isso poderia explicar a viagem de Ben dez meses para o futuro ao girar a roda, dentre outras coisas.

De volta para o passado

Enfim, dessa vez parece que fomos brindados com algumas respostas, ou pelo menos algumas boas pistas que podem conduzir a respostas. Todavia, como não poderia deixar de ser, várias outras dúvidas e especulações ficaram no ar. A principal delas diz respeito ao sujeito que faz a filmagem e conversa com Cheng durante o vídeo. Preste atenção na voz dele. Parece a voz de alguém conhecido, não? Sim, muita gente defende tratar-se de Daniel Faraday.

Isso faria sentido, já que Faraday se encontrava no bote, entre a ilha e o cargueiro, quando a ilha foi movida. O que significa que ele pode não ter sido movido junto com a ilha, mas sim “arremessado” para o passado, conforme o fenômeno que foi descrito acima. E outra: Faraday se encaixaria bem no papel da “fonte que já provou ter credibilidade”, como diz Cheng, após mencionar fatos do futuro. Ora, se essa fonte fosse alguém da Dharma que viajara ao futuro e depois voltara, ela não precisaria provar sua confiança. É mais lógico que se trate de um sujeito que surgiu do nada, vindo do futuro e precisou provar para os caras que realmente era um viajante do tempo.

Por fim, vemos no vídeo que o interlocutor de Cheng não tem nenhuma esperança de que aquilo vai dar certo. Sua paciência se esgota justamente quando japa diz que é preciso “mudar o passado”. Lembremos do episódio “The Constant”, quando Faraday diz claramente a Desmond que NÃO é possível mudar o futuro, deixando evidente que ele não acredita na possibilidade de se alterar a cadeia de eventos. Para ele, portanto, a tentativa de Cheng seria inútil e tola.

Outras Especulações

- O bebê que chora durante a gravação. Seria ele Miles, filho de Cheng?
- Os vídeos de orientação das estações teriam sido remendados, de acordo com as informações trazidas do futuro por Faraday.
- Se Cheng tem tantas informações sobre o futuro, por que ele precisa de alguém do futuro para mudar o passado? Não poderia ele próprio, junto com seus colegas, tomar providências nesse sentido?
- Quando exatamente o vídeo foi gravado? O formulário de recrutamento no site da Dharma dá uma dica. No campo da data de nascimento, a data padrão que aparece lá é 17 de Julho de 1978.
- “Time is not of the essence. It is the essence”. What the f***????????????