No post anterior, Bruno havia proposto a seguinte troca: eu escreveria um conto e ele um filosofema simples.
Pois bem, minha parte foi feita. Eis meu conto:
O CIRCULO DOS TERAPEUTAS

por Denis Barbosa CaciqueDr. Roberto da Conceição Martins, ou simplesmente “Beto”, não fazia parte do grupo de pessoas que se metem na especialização em psiquiatria movidos pela louvável convicção moral quanto ao dever de ajudar aos outros. Nem ele, nem eu. Ainda que fosse o caso, a ilusão teria durado muito pouco, talvez não mais que um semestre. Convicções morais não costumam resistir ao escrutínio filosófico que precisa ser promovido pelos desbravadores da mente humana, sobretudo os mais jovens deles. O pior cego, ensina o provérbio, é aquele que não quer ver. Mas Beto e eu víamos o bastante. Nossa única convicção moral tinha os olhos voltados para dentro e fitava nossas próprias dores, jamais as do mundo. Tínhamos, então, uma tola esperança de que um dia encontraríamos cura, talvez num livro velho e empoeirado da biblioteca da faculdade de ciências médicas. Mas a cura definitiva só vem amanhã, sempre amanhã, ou depois de depois de amanhã, nos livros das próximas edições, ad infinitum. Pois o tal livro, real apenas por entre as brumas da esperança, parece ainda não ter sido escrito, e, quiçá, sequer terá nascido o seu iluminado autor. É claro que demora certo tempo até que se comece a desconfiar que, por trás das brumas da esperança, nada há além de um gigantesco espelho convexo. Beto e eu, por exemplo, ainda não tínhamos considerado seriamente essa possibilidade quando ingressamos no curso de psiquiatria movidos pela necessidade urgente de salvação. A salvação haveria de ser sofistica. E a psiquiatria é sofisticada. Um leva ao outro. Xeque-mate! Futuro do pretérito. Futuro condicional. Mas a salvação é como a verdade de Drummond, cuja porta estava aberta, mas só deixava passar meia pessoa de cada vez:
Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.
Além de colegas no curso de medicina, Beto e eu morávamos no mesmo lugar, uma república construída nos arredores da Unicamp e na qual ainda moravam outros tantos alunos. O pequeno prédio tinha três andares, com quartos e banheiros individuais, mas com uma lavanderia e um refeitório coletivos. As refeições estavam incluídas no aluguel dos quartos. Já as roupas, lavávamos nós mesmos, contanto que encontrássemos ao menos uma das três lavadoras disponível. Eu costumo lembrar e, às vezes, até mesmo sonhar, não sei ao certo o porquê, com os desenhos que se formavam por meio da união dos azulejos da lavanderia. Minha imaginação bem que poderia ser capaz de produzir diversos outros objetos com tamanha fidedignidade. Alguns deles certamente seriam muito mais interessantes do que aqueles azulejos. Que tal as circunferências irregulares de Beatriz, demarcando as periferias em torno de seus bicos rijos, porém macios, e com sabor de perfume caro? Mas ela, a memória, insiste em me mostrar o desenho dos azulejos, em especial uma imitação grosseira da pintura de Michelangelo no teto da Capela Sistina, a qual retrata Deus e Adão com os braços estendidos um em direção ao outro.
Entre goles de vodka, enquanto esperávamos as máquinas encerrarem seu chacoalhar entediante, Beto aponto para o azulejo e disse de um jeito mole e cômico:
“Eis aí o sonho de todo homem.”
“Adão nu?” - perguntei-lhe sem conter o riso.
“Não.” – respondeu ele – “Adão nu é o sonho de alguns homens, de fato, mas não o de todos eles. Eu, por exemplo, prefiro a nudez parcial da enfermeira Deborah, suada sobre a mesa do consultório, grunhindo com os olhos, espalhando os formulários pelo chão, e olhando apavorada vez ou outra para a porta meramente encostada do ambulatório. Á, se alguém sabe de nós, estamos fritos. Mas é tão bom. E eu a amo.”
“Aonde você quer chegar, misturando Deus, Adão e Deborah?”
“Eu teria ido direto ao ponto, não fosse sua incontrolável mania de socar piadas em tudo. É difícil ter uma conversa séria com você, sabia?”
“Sim. Sabia. Sempre soube. O álcool agrava um pouco essa tendência, mas a predisposição para a idiotice me é totalmente natural, embora às vezes passe do ponto e, às vezes, despercebida. Mas você dizia, apontando para os azulejos, que esse é o sonho de todo homem. Aonde quer chegar com isso?”
“Á, sim, idiota. Deus e Adão, a um centímetro de tocarem seus indicadores, representam a salvação para toda humanidade, o remédio para grande parte das nossas angústias. É isso.”
Mais vodka. As máquinas continuavam chacoalhando. Entrou uma moça. Botou suas roupas na ultima lavadora disponível e saiu apressada, prevendo, certamente, que os bêbados lhe importunariam. Beto continuou:
“Não sei como lhe explicar. Na verdade, talvez não seja preciso. Você sabe do que estou falando, só que me quer ver travar a língua, para depois me denunciar numa roda de amigos. É assim que você arruma assuntos, constrangendo aos outros. Mas tudo bem. Eu não me importo. Não tenho vaidades.”
“Á, sim, você tem. Não seja cínico. É o sujeito mais vaidoso que conheço. Beira o feminino, até. Anda sempre engomado aonde quer que vá. Engraxa os sapatos diariamente. Faz a barba todas as manhãs. Não fica mais de três semanas sem aparar o cabelo. E tem sempre esse hálito exagerado de menta, exceto quando toma uns goles, é claro.”
“Elas gostam da menta, cara. Já te disse. E gostam também de sapatos lustrados, suéteres macios e cheirosos, barba feita, cabelos penteados e unhas aparadas. Você bem sabe que é difícil manter a higiene quando se está metido num maldito plantão de 24 horas. Ó, pobres doentes do transtorno obsessivo compulsivo. Se soubessem que lhes toco os ombros com as mesmas mãos de carícias de um sexo recente, e que não há torneiras entre um e outro, me agarrariam o pescoço com toda força e me lançariam ao chão num só golpe. Eu desmaiaria com o impacto da cabeça no piso recém encerado do hospital, e mesmo assim eles manteriam o estrangulamento até que meu corpo estrebuchasse sob eles, e um fio de saliva, tendo fugido por entre meus lábios, lhes tocasse de leve um polegar. Então eles levantariam enlouquecidos e correriam pelos corredores do hospital até encontrarem um banheiro onde pudessem se meter. Lá dentro, lavariam e secariam as mãos por quase uma hora, até que se acabassem o sabonete líquido e os papeis toalhas. Então eles abririam a porta do banheiro e, tranquilamente, tomariam o caminho de volta até o balcão do ambulatório. Mas estariam descamisados, porque suas camisetas, sujas nos ombros do esperma do doutor, tirariam do corpo com nojo e, segurando-as com as pontas dos dedos, jogariam no chão do banheiro. Aí, então, eles chegariam seminus ao balcão do ambulatório e aguardariam ser atendidos por um terapeuta que tenha feito voto de castidade.”
“Fique tranqüilo quanto a isso, Beto. Eles sequer desconfiam que você tem bolas. Se as pessoas se dessem conta da humanidade dos terapeutas, abandonariam profundamente desiludidos os tratamentos, e dariam um jeito de conseguir receitas falsas para comprar as drogas de que precisam. Para que a terapia funcione, é preciso acreditar que o médico possui algo de sobre humano. É realmente preciso endeusá-lo para acreditar que, numa consulta de 15 minutos, ele daria conta dos problemas que as pessoas arrastam durante toda a vida.”
“Então você quer dizer que somos todos picaretas?”
“Não exatamente, cara. Somos ensinados que a doença mental tem um componente biológico que responde a tratamento médico, assim como um diabetes ou uma doença cardíaca. Muitas vezes, porém, a situação não é direta e a medicação não é o problema. Que remédio cura a saudade de alguém que se foi, por exemplo? Na maioria das vezes, Beto, a vida é que é o problema. E é aí que os terapeutas conseguem seu suado dinheirinho, esticando inutilmente um tratamento por longos anos, fazendo o cliente acreditar que sentar o cu no divã uma vez por semana irá mudar para melhor o sabor da vida. Mas tudo não passa de uma enganação. Dá-se um jeito, com as palavras, de mudar o ponto de vista das pessoas. E funciona. Um dia elas aparecem sorridentes no consultório e pedem alta. Aí o terapeuta estica o tratamento por mais uns meses, sob a alegação de que o tratamento não pode ser interrompido abruptamente, e não pode mesmo, e libera o cliente das seções de sofismas, falácias e retóricas. O cara está feliz, é o que importa. Lembra do Cypher, do Matrix? Ele fez um pacto com os agentes da Matrix. Ele trairia seus colegas do mundo real caso os agentes fizessem dele um homem rico e famoso dentro do mundo ilusório da Matrix. De que importa saber a verdade se ela não traz felicidade? Feliz daquele que sabe aquietar o pensamento, e ser, desse modo, feliz, alimentando-se diariamente de um banquete de terabites.”
Fez silêncio por uns minutos. Uma das máquinas completou a lavagem. Era a minha. Girei os botões. Programei para centrifugar e voltei a beber. Beto retomou, enfim, seu raciocínio:
“Também estão felizes as pessoas que acreditam nisso.” – disse ele apontando para os azulejos – “Poucas respostas solucionam a angústia humana como o faz o cristianismo. A angústia humana, você bem sabe, o medo da morte, as saudades, os arrependimentos, as privações, as frustrações sentimentais e a fragilidade do corpo.”
“Mas o cristianismo tem seus problemas.” – contestei – “Aliás, para mim, toda manifestação de fé tem seus problemas. Sempre é possível apontar uma contradição ou outra, ou ainda uma verdade que se desfaz com os avanços do saber. A chuva não tem nada a ver com o martelo de Thor, por exemplo. E, além disso, depois que agente se acostuma à metodologia científica, fica quase impossível ter fé. Agente fica mais exigente. Passa a requerer testes estatísticos. E busca por provas, além de referências em teses e em artigos. Mas não há experimentos envolvendo grupos duplos cegos, a fim de verificar a eficiência da sagrada eucaristia. Aliás, para quê ela serve mesmo?”
“Não importa o porquê agora. O fato é que você parece não ter lido David Hume. Até a ciência empírica se assenta, em ultima instância, nos alicerces da fé. A diferença é meramente probabilística. Você deveria considerar ao menos um pouco a filosofia humeana.” – foi a vez da máquina do Beto interromper a lavagem. Ele a programou para centrifugar e recomeçou sua explanação de onde havia parado – “Veja, a idéia de Deus como origem ultima de tudo que existe é, a meu ver, a melhor explicação que temos para a origem do universo. As teorias do Big Bang e da Evolução Natural são apenas formulações metafóricas sofisticadas do criacionismo. O problema é que eu não sou cristão. E essa pintura nos azulejos, embora eu reconheça nela a salvação para as angústias da humanidade, é apenas meia verdade para mim. Muitos dos meus pacientes são cristãos. E, às vezes, parte dos seus tratamentos consiste em fazê-los se apegar à fé e aguardar pacientemente os seus efeitos possivelmente placebo. Enfim, eis uma meia salvação, porque ela salva meus pacientes, mas não a mim. É como aquele poema de Drummond sobre a verdade, conhece?”
“Não.” – lhe disse resignado.
“Mas deveria.” – censurou, ele.
“Beto, você é o bêbado mais pedante que eu conheço! O mais lúcido também. Pro inferno sua erudição e sua lucidez inabalável. Pro inferno!”
“Não basta que eu fale mole e troque os “esses” pelos “zes”?” – ele me perguntou entre gargalhadas.
“Não. Eu quero vê-lo tropeçar nas idéias e dar de cara com o chão. E que fique aí esticado, beirando o coma alcoólico, encharcado pela própria urina, com um pé descalço, a camisa pra fora da calça, o cabelo despenteado, a barba por fazer, e as barras da calça sujas de lama. Eu quero que você me dê uma boa piada. Basta à sua filosofia amadora e entediante!
Poucos dias depois daquela conversa de bar, mas travada fora de bar, encontrei Beto aos berros na mesma lavanderia. Estirado no chão e com a cabeça encostada desconfortavelmente na parede, ao invés de uma poça de urina, havia sob ele uma mancha crescente do sangue que escorria timidamente do seu pulso esquerdo. O corte era raso demais para matá-lo. Mas profundo o bastante para causar-lhe dor e impressionar o aglomerado de curiosos que se formou rapidamente à sua volta. E ele gritava, fazendo com que o hálito de menta misturada com álcool e marijuana saltasse de sua boca e contaminasse o ambiente com o fedor adocicado dos corações partidos. Ele implorava que o salvassem, que chamassem Deborah, que ela visse que ele não podia viver sem sua amada. Era uma cena ridícula, de um sujeito que, caso quisesse, de fato, dar cabo de si, faria como tantos outros alunos de medicina, trancando-se num banheiro do hospital e anestesiando-se em excesso, até a morte. Mas uma coisa era certa, Beto havia encontrado sua salvação no curso de psiquiatria, mas não nos livros, e sim na enfermeira que, tendo entrado em seu consultório, mal fechava a porta atrás de si e lhe despia os seios e o sexo, e se lhe entregava sobre a mesa como café da tarde. E ele estava disposto a morrer por ela, embora, na prática, fosse incapaz a fazê-lo. Na tarde daquele mesmo dia, antes de arranhar o pulso com um bisturi esterilizado, tentou, em vão, subir na caixa d’água da faculdade para ameaçar se jogar de lá de cima. Já a caminho do hospital e com o sangramento do pulso contido, ele me confessou, entre risos e soluço de choro, que não havia conseguido alcançar a escada externa da caixa d’água:
“Quando muito” – dizia ele – “tocava o primeiro degrau da escada, mas sem conseguir me agarrar a ela. Eu sou um fraco.”
Tenho dificuldades para definir uma posição moral sobre o suicídio. Meu trabalho é evitar que ele aconteça, desmotivando aqueles pacientes depressivos que fixam a idéia da morte na imaginação, e assim eu tento fazer. Às vezes tenho sucesso, noutras, não. Certa vez, um sujeito procurou atendimento porque havia ganhado na loteria, mas isso tinha feito com que sua vida virasse às avessas. Antes que fosse premiado com a fortuna repentina, ele estava passando por uma séria crise no casamento. Beirava já a separação. E seu filho, um pré-adolescente de gênio difícil, se afastava cada vez mais dele, chegando ao ponto de chamá-lo pelo primeiro nome, ao invés de chamá-lo de “pai”. Mas o dinheiro mudou tudo. O sujeito se viu, de repente, casado com uma mulher carinhosa e disposta a tudo na cama. Seu filho também mudou o jeito de ser, da água para o vinho. Ia até mesmo presenteá-lo com um poema de autoria própria quando encontrou, no fundo de casa, uma mansão à beira mar, meu cliente pendurado pelo pescoço. Eu recebi a notícia com naturalidade. A fortuna repentina removeu as poucas coisas que, embora penosas, davam sentido à sua vida. Todo mundo quer significado e sentido em suas vidas. Isso requer a possibilidade de fazer escolhas, agir e buscar projetos de uma forma que dê à vida um sentido de propósito e de mérito. Mas, quando não há limites nem restrições àquilo que se pode fazer, então não pode haver conquista, nem senso de realização, e nem, portanto, sentido em viver. Desse modo, Richard Norman matou meu cliente, e eu me dei por satisfeito com a hipótese da perda de sentido, sem remorso pela morte, nem condenando seu laço apertado na corda de nylon trançada. Albert Camus dizia que só existe um problema filosófico realmente sério, o suicídio. O problema, ao que me parece, requer que decidamos se a vida merece ou não ser vivida. Eu não sei a resposta. E, ainda que soubesse, certamente não teria coragem de lançar-me do topo da caixa d’água da faculdade de medicina. Sou tão fraco quanto meu amigo. Meus dedos apenas resvalariam o primeiro degrau e eu logo desistiria, aliviado, de cruzar o rio Estige a nado e sem moedas nos olhos. De qualquer modo, estou longe de definir uma posição quanto ao suicídio. Como pode? Vai ver é assim que me mantenho vivo e confortado. A ignorância é uma proteção. Viva à ignorância e ao medo e à preguiça de saber. Eu digo aos meus pacientes o que precisa ser dito. Soa esquisito. Mas a sisudez e o avental branco os convencem. Faço-lhes minha única real contribuição para a cura, receito uma dose generosa de um antidepressivo eficiente e caro. Não há qualquer segredo nisso. Dane-se a verdade. O juramento de Hipócrates segue imaculado, emoldurado na parede do meu consultório. Mas que verdade? Não há salvação no curso de psiquiatria, a não ser Deborah, que se comoveu com o sangue de Beto e, poucos meses depois, casou-se com ele. A salvação é resignar-se. Eis a verdade.
“Só meia verdade.” – me disse Beto, ao mesmo tempo em que entrava sorridente pela porta do meu consultório. Já fazia muitos anos desde os tempos de faculdade. E a pequena cicatriz no pulso esquerdo ele escondia usando uma camisa de manga comprida. Malha importada, roupa de grife, de muito bom gosto e extremamente cara – “Você não vai sair desse inferno de lugar enquanto não encontrar a verdade inteira, meu caro!”
O inferninho de lugar é uma saleta asquerosa onde eu atendo meus clientes, muito deles de graça, no Centro de Campinas. Fica espremida no 5º andar de um prédio espremido entre outros tantos prédios da Av. Dr. Campos Salles, pela qual carros e transeuntes se espremem uns aos outros até contornarem o antigo fórum, situado na Praça Guilherme de Almeida, largo de engraxates idosos e de desempregados que usam bonés e que levam sempre consigo uma pastinha com vários currículos muito mal redigidos; tendo contornado o fórum, desembocam na Av. Dr. Francisco Glicério ou na Rua José Paulino, e daí para o diabo que os carregue. Eu gosto de lá, da saleta, da praça, da avenida, do burburinho e do suor da cidade. Passo horas debruçado na janela, fitando o ir e vir da multidão que se arrasta pela calçada estreita. Os, chineses, de uns anos para cá, tomaram conta de todo o quarteirão. Todos os comércios são deles. E todos os comércios deles são iguais, lojas de R$ 1,99 nas quais qualquer porcaria made in China custa pelo menos R$ 2,99. Eu entro por uma portinha discreta entre duas dessas lojinhas e subo os cinco andares degrau por degrau. Não há elevador. O prédio é velho e escuro. No mesmo piso do meu consultório, mas um pouco à esquerda, uma meretriz de meia idade e pernas grossas atende seus clientes. Seu urro exagerado não atravessa as paredes grossas que separam nossas salas, mas as contornam, saindo por uma janela e entrando por outra enquanto eu fito os transeuntes e um pombo que vem cagar sobre eles, equilibrando-se no fio de alta tensão que passa a alguns metros abaixo do meu andar. Ele acerta o ombro de um office-boy que andava apressado na calçada, mas que pára a fim de conferir a merda esbranquiçada no seu ombro. Uma moça sai do meu prédio, desvia do office-boy, e atravessa a avenida fora da faixa de pedestre. Sua cintura fina, nádegas arrebitadas e pernas cumpridas despertam a atenção dos homens e a inveja das mulheres na calçada. Um desses homens se distrai com ela. Quando dá por si, quase tromba com o office-boy, ainda parado sob a minha janela, limpando a merda da camisa. O homem que havia se distraído com a moça consegue desviar do office-boy, mas acaba trombando com uma senhora que vinha no sentido contrário da calçada. Cai uma sacola de laranjas. As frutas saem rolando pela calçada, perigosamente ameaçadas pelos passos da turba. A turba é indiferente. Duas laranjas são chutadas para longe. O sujeito se agacha no meio da multidão e vai colhendo tantas frutas quanto pode. Quase lhe pisam a mão. Entrega para a senhora as pouco mais de meia dúzia de laranjas que conseguiu recuperar e lha diz alguma coisa, se desculpando, talvez, pelo esbarrão, e também por não ter dado conta de pegar todas as laranjas. É uma boa senhora. Não guarda rancores. Ela fuça em uma das outras sacolas que carrega consigo e tira de lá um lírio, que coloca cuidadosamente no bolso da camisa do sujeito que a ajudara. O homem agradece e se desculpa novamente. É o que suponho. Não posso ouvi-los daqui de cima. Depois disso, cada um retoma seu caminho. A senhora toma o sentido da Rua José Paulino. O office-boy, perdi de vista. A moça formosa atravessou a praça e desceu pela Av. Dr. Francisco Glicério. Já o sujeito generoso entra pela porta do meu prédio e começa a subir as escadas. É Beto. Psiquiatras são seres humanos. E, enquanto tais, às vezes têm de se ajeitar no divã para ajustar uma frouxidão qualquer nos parafusos da mente. Beto vem aqui tratar um transtorno obsessivo compulsivo evidente há muito tempo em suas idiossincrasias perfeccionistas.
Meu velho amigo me conta que se tornou um médico de sucesso. Tem um consultório no Cambuí, bairro nobre da cidade, onde atende a nata da sociedade campineira. Cobra caro, mas todos pagam sem se queixar. Na vida pessoal também vai bem. Tendo se casado com a enfermeira que amava, continua vivendo com ela Estão esperando a primeira netinha, filha precoce do seu filho mais velho, de apenas dezesseis anos.
Ele retira o lírio do bolso e o deposita sobre minha mesa – “ganhei de uma moça a quem ajudei agora há pouco” – ele diz.
“Mas era uma velha.” – eu contesto.
“É verdade. Era. Mas de quê importa? Eis o lírio, que não é menos lírio só por causa da idade de quem mo deu.”
“Mas e o transtorno?” – pergunto-lhe mudando o assunto.
“É um transtorninho mínimo. Não se preocupe. Meu pulso jamais sentirá novamente o corte da navalha. Dói.” – Diz, ele, erguendo o braço esquerdo e exibindo um Rolex de um dourado hipnotizante. Depois ele volta a pegar o lírio e o deposita no bolso, momento durante o qual é possível perceber um leve tremor de mão, causado, muito provavelmente, pelo medicamento que lhe estou receitando. Médicos não podem receitar a si mesmos, mas podem, facilmente, contar com a colaboração irresponsável de amigos médicos para se drogarem até o ponto de confundirem lagartixa com jacaré. Não era o nosso caso, no entanto. Beto fazia questão da dose mínima necessária, definindo, às vezes, ele mesmo, quantos miligramas diários eu lhe receitaria. Além da droga, ele me visita a fim de contar vantagem, chacoalhando seu relógio de ouro a poucos centímetros da minha cara. Mas minha cara é sínica. Vejo o Rolex com um olhar rápido e desdenhoso. Não quero dar-lhe o prazer da minha admiração. Para mim, pouco importam a barba sempre tão bem aparada, a roupa engomada e o hálito de menta. Toda a minha admiração já está em uso. Poucos minutos antes que Beto se ajeitasse no meu divã de couro sintético, esteve no meu consultório, Beatriz. Ele não a conhece. É a gerente de uma loja de perfumes aqui do Centro. Jovem, negra e alta. Formidável. Depois da segunda consulta, transamos como bestas por todos os poucos cantos desta saleta. Fizemos inveja à velha meretriz. E assim tem sido há mais de dois anos. Encontrei, enfim, minha salvação. A psiquiatria era mesmo o caminho para a minha felicidade. Mas eu estava errado quanto à salvação. Ela não tem de ser sofisticada. Pelo contrário, remete aos princípios mais básicos da natureza. Um casal de gatos com seu sexo escandaloso e casual sobre as telhas de zinco é mais feliz que a humanidade inteira.
“Você não vai acreditar.” – diz meu amigo – “Num dia desses, apareceu no meu consultório um terapeuta que havia enlouquecido, isso se a loucura já não for requisito da profissão. Pois bem, o sujeito havia a tal ponto se envolvido com os problemas de seus pacientes que já não conseguia dormir à noite. Ficava lembrando rosto após rosto, nome após nome, problema após problema.”
“Foi o Dr. Gabriel, não foi?”
“Sim, ele mesmo. Como sabe?”
“Freqüentei seu consultório por uns tempos, tratando minha boa e velha distimia. Era um garoto recém formado. Havia se convencido de que ajudaria as pessoas a serem felizes. Um sujeito realmente de bom coração. Mas ingênuo. Pouco inteligente para a profissão. Eu lhe induzia a me receitar tanta venlaflaxina quanto eu queria, 300mg se eu quisesse. Coisa que não seria possível com você, médico incorruptível, razão pela qual nunca te procurei no Cambuí.” – era mentira. Eu evitava seu consultório porque seria incapaz de pagar pelas consultas, mas também era orgulhoso demais para aceitar o tratamento gratuito que ele certamente me ofereceria.
“Então quer dizer que, no fim das contas, eu é que sou seu médico?” – perguntou-me, ele.
“Sim, é verdade. Mas você conhece a idéia do silogismo hipotético? Se “a” cuida de “b” e este, por sua vez, cuida de “c”, então “a” cuida de “c”. Mas, aí eu lhe pergunto: se “c” cuida de “a”? Aí “c” também cuida de “b” e de si mesmo. E “a”? Ele também cuida de si mesmo. Então quem é mesmo que cuida de quem? Todos cuidam de todos, porém, ao mesmo tempo, ninguém de ninguém.”
Beto fingiu não ter entendido o problema. Talvez nos faltasse a vodka que tornava agradáveis nossas conversas em tempos de faculdade.
“No frigobar atrás de você, pegue, por favor, duas garrafas.” – lhe pedi.
“Que bom que você não perdeu o bom hábito.”
“Jamais!” – lhe respondi e tomei o primeiro gole.
“Mas nos tempos de faculdade o sabor era melhor.”
“É que você sofisticou seu gosto, Dr. Roberto. O Sabor é o mesmo. A marca é a mesma. Nós é que não somos. Heráclito!”
O bom humor se restabelecia aos poucos.
“O problema da ciência em torno da saúde mental é o circulo dos terapeutas” – disse-lhe.
"Que circulo?”
“Justamente esse de que acabei de lhe dizer e você fingiu não ter entendido. Você está orgulhoso pelo fato de tratar o médico que me trata, pois, desse modo, você trata dele e de mim. Mas, dado que sou eu quem te trata, então eu trato você e meu próprio pobre terapeuta, e também a mim mesmo.”
“Desafio-te a dizer “próprio pobre” dez vezes e bem rápido.” – disse-me, ele.
“Deixe-me beber mais um pouco, Dr. Roberto, que te digo até o que dá sustentação ao circulo vicioso dos terapeutas.”
“Não é necessário. Eu sei. É a vodka!”
“Pelo jeito, você adquiriu meu mal hábito de meter piada em tudo, não foi?”
“Não chega a ser um hábito. Só acontece de vez em quando. Eu juro!”
“Pois bem. Preste atenção. Na mitologia hindu, havia a suposição de que a Terra não caia porque estava nas costas de um grande elefante.”
“Devo lhe perguntar o porquê de o elefante não cair no vazio do espaço?”
“Não. Já basta que você tenha se dado conta do problema. Acontece que o elefante está nas costas de uma gigantesca tartaruga, e é por isso que ele não cai.”
“E a tartaruga está sobre as costas de um animal maior ainda, numa sucessão de animais imensos montados um no outro que vai ao infinito. É isso!”
“Não, não é isso. A tartaruga não cai porque é a exceção absoluta à regra de que os corpos caem. Ela sustenta-se por si mesma, assim como Deus é causa de si mesmo. E é por isso que ela dá conta de sustentar o elefante e todo o planeta Terra.”
Beto arqueou as sobrancelhas, bebeu mais um gole e, enfim, demonstrou interesse pelo problema:
“Pois bem. Diga-me logo o que esse zoológico gigantesco tem a ver com o circulo dos terapeutas. Não há outra alternativa senão ouvi-lo, porque que essa vodka, agora me dou conta disso, tem o delicioso sabor do passado, e eu não sairei daqui enquanto não esvaziar a garrafa!”
“Não posso dizer-lhe toda a verdade.”
“Como não? Enrolou-me com essa história até aqui para nada?”
“Não exatamente. Na verdade, posso lhe contar meia verdade. Mas só meia. Se lhe contasse toda ela, você me agarraria pelo pescoço e me lançaria ao chão. Eu desmaiaria com o impacto da cabeça no piso mal varrido. Mesmo assim você continuaria a me esganar até que eu estrebuchasse. Depois você jogaria suas roupas caras pela janela e sairia correndo por essa porta, trombando, talvez, com um dos clientes da puta que trabalha aqui do lado. Entraria no banheiro coletivo que temos no fim do corredor e ia se lavar com a água da pia, pois não temos chuveiro. Depois, você voltaria aqui para o consultório, nu e molhado. Pegaria sua receita de sobre a mesa e seu lírio, jogado no chão, e desceria pelas escadas como se nada tivesse acontecido. Com a vergonha de fora, caminhando pela Av. Dr. Campos Sales, talvez fosse preso por atentado violento ao pudor. E eu não quero isso.”
“Muito engraçado, você. Vamos, conte-me logo ao menos meia verdade.”
“Sim, conto. Para superar o circulo vicioso é preciso introduzir no sistema uma peça autônoma, semelhante à tartaruga da mitologia hindu. E essa peça, Dr. Roberto, tem a ver com o divã sobre o qual você está confortavelmente estirado. Mas isso é tudo que posso lhe dizer.”
Minutos antes de um pombo ter alvejado um transeunte, saiu da minha sala Beatriz. Ela desviou do office-boy e atravessou a Av. Dr. Campos Sales com sua sensualidade única. As marcas de suas nádegas suadas ainda eram visíveis no divã quando meu amigo ajeitou-se sobre ele com sua roupa engomada, mas suja nos joelhos, posto que ele se agachara na calçada para recolher as laranjas que havia derrubado.