
por B. F. Teixeira
“Poeta preferida: Silvia Plath”.
Durante a inquisição os caçadores tinham um método bastante interessante para reconhecer uma bruxa: lançavam ao lago mulheres totalmente amarradas para ver se elas eram capazes de flutuar. Caso o fossem, eram bruxas. Agora, imagine-se por alguns segundos na pele de uma inocente jovem amante de gatos pretos: como você provaria aos outros que é incapaz de flutuar?
Que tipo de inocente jovem moradora de Salem você seria? Do tipo que se debateria contra a multidão esbravejando sua inocência, implorando por perdão ou do tipo que apenas direcionaria à multidão um olhar plácido, ciente da inexorabilidade de seu destino? Eu seria o segundo tipo. Sou tímida demais para dar escândalo.
“Autora Preferida: Virginia Woolf”.
É por isso que agora não estou interrompendo Dr. Henrique Villela – meu psiquiatra e psicanalista – aos berros de “eu só errei a dose, só errei a dose”. Enquanto ele lê os arquivos de nossa seção de análise. O mais engraçado é que quando o vi chegando aqui achei que seria minha passagem para fora deste lugar, agora percebo, no entanto, que estava muito enganada. Por isso, só acompanho a leitura de seus arquivos – que mais soam como acusações – com um olhar plácido. Aos poucos vou me tornando cada vez mais ciente da inexorabilidade do meu destino.
“Musica Preferida: Chatterton”.
Mais um gato preto. Eu tenho uma certa afeição por eles. Mas, isso não prova nada. Tudo bem, tudo bem, sou incapaz de provar que não posso flutuar... mas, pelo amor de Deus... uma certa paixão pela morbidade não faz de mim automaticamente uma suicida, faz?
Filme Preferido: “As Virgens Suicidas”.
Ah! E isso faz de mim uma virgem novamente? Chame o meu pai, por favor! Finalmente, algo relacionado a mim vai faze-lo feliz novamente.
“Esse tipo de comportamento não vai te ajudar em nada, Sara”.
Eu falei! Eu falei! Era para ser apenas um pensamento rastejando pelo fundo da minha mente. Mas, pelo olhar do Dr. Villela, não foi. Deve ter sido um grito. Meu olhar agora deve ser tudo, menos plácido. Começo a parecer cada vez menos inocente. Será a bruxa dentro de mim aflorando? Eu não creio nela, mas que ela existe, existe.
“O que quero dizer, Sara, é que é impossível negar que existe um certo culto subconsciente do suicídio em você...”
O que eu quero dizer, seu traidor, é que você me conhece há dois anos. Você me conhece melhor do que ninguém. Você me diagnosticou como limítrofe (meu Deus, não tinham uma tradução melhor para Borderline?). Você disse que eu podia viver sozinha. Você me veio com todas aquelas idéias de auto-estima, imagem de mim mesma e blá, blá, e agora, você me esfaqueia pelas costas!
“O que EU quero dizer é que achei que você estava aqui pra me tirar deste lugar!”.
“Não é tão simples assim”.
“Como é então?”
“Eu não decido sozinho. Não mais. Não depois do que você fez”.
“Eu não fiz...”. Eu paro. Não me debato. Chega de “eu não posso flutuar, não posso flutuar”.
“O que foi, Sara?”
“Nada, Dr. Só pensando alto. Você poderia falar a meu favor”.
“Você parece ter piorado”.
Traidor. Devia ter ouvido a Drª Laura Wippich. O transtorno de personalidade limítrofe não existe. É apenas uma invenção do patriarcado para classificar as mulheres que não se adaptam a psique masculina. Que não se submetem à formação da personalidade por meio da opressão fálica.
“O transtorno de personalidade limítrofe não existe. Como eu posso piorar, hein?”
“Andou lendo os trabalhos da Drª Laura de novo? Por que não continuou o tratamento com ela?”
Filho da puta! Você sabe porque não continuei o tratamento com ela. Por que a desgraçada me assediava. Tenho certeza que a desgraçada me assediava.
“Você sabe o porquê”.
“Ela alega que você estava delirando”.
“Como eu poderia estar delirando, se o transtorno limítrofe não existe?”
“A defesa da Drª Laura fala contra o trabalho dela. As cicatrizes de automutilação em seus braços falam contra o trabalho dela. Seu histórico de abuso de álcool e drogas fala contra o trabalho dela. Sua atual tentativa de suicídi...”
Chega! Agora eu atingi meu limite. Levanto-me num repente e atinjo a mesa com um soco.
“Eu não tentei me matar. Estou tentando dizer isso desde ontem. E ninguém me escuta! Ninguém! Achei que pelo menos você me escutaria antes de me amarrar e atirar ao lago!”
“O que?”
“Ah! Deixa para lá!”
Sento na cadeira e assumo posição fetal. Admito, não foi a mais adulta das atitudes que já tomei.
“Sara...”
“Não!”
“Sara...”
“Sai daqui!” – Levanto-me e empunho a cadeira como um domador de feras. Ameaço golpeá-lo com fúria insana. Sua calma de psicanalista se esvai por um instante e ele recua. Eu avanço. “Saí daqui! Traidor! Inquisidor! Inquisidor! Inquisidor!” – Ameaço golpeá-lo com a cadeira.
A porta se abre. Dois enfermeiros entram. São muito rápidos, antes que eu possa voltar a cadeira contra eles, me rendem, me seguram, me perfuram com uma agulha, me drogam. Eu me debato. Grito. Mudo rapidamente. Não sou mais a moça inocente. Eles queriam a bruxa. A bruxa existe.
“Vocês não queriam a bruxa!? Aqui está. Aqui está a bruxa. Eu amaldiçôo todos vocês! Todos vocês! Todos....
* * * * *
Ainda estou cruzando a fronteira de volta do reino de Morfeu quando escuto o ruído de uma cadeira sendo arrastada. Não preciso me voltar para o lado para saber que é o "nem-tão-bom" doutor retornando.
"Boa tarde, Sara" - Hmmm. Ainda é tarde. Não devo ter dormido muito.
"Boa tarde, Dr" - digo sem me voltar para ele, continuando a encarar a parede.
"Se importa de olhar para mim, Sara?"
"Sim, me importo".
"Sara... esse tipo de atitude não vai te ajudar."
"E você!? Você vai me ajudar!?"
"Não é assim que funciona. Eu não decido sozinho. Já te disse".
"Quem decide, então?"
"E mesmo eu... tenho agora minhas dúvidas... a maneira que você se comportou... que está se comportando..."
"Você mereceu. Está merecendo!"
"Sara, isso não..."
"Você mereceu!"
"Tudo bem...". Ele alonga o Beeeemm para ganhar tempo. De modo a evitar o silêncio constrangedor. "Bom..." - outra técnica terapêutica para evitar o silêncio constrangedor - "Nós ainda não tivemos sessão essa semana. Podemos aproveitar o ensejo".
"Seu divã é mais confortável que esta cama, mas tudo bem”.
Ele sorri. Não preciso voltar meu olhar para saber quando sorri. Coisas que vêm com a intimidade.
"Este lugar... é completamente diferente do que eu imaginei".
"E como você o imaginava, Sara?"
"Não sei... menos parecida com um hotel, celas, paredes acolchoadas, pessoas babando... essas coisas... estilo "Um estranho no ninho" ou "Bicho de sete cabeças".
Ele ri novamente. E espera que eu comece. Eu o frustro. Não começo. Um pequeno silêncio constrangedor cai sobre nós.
"Sara... Se você quer que eu te ajude, você tem que me contar sobre o que aconteceu. Sobre o que aconteceu naquela noite... a sua versão... só assim eu vou poder te ajudar..."
Fecho os olhos e as palavras do Dr. Villela rebatem na minha cabeça como bolas de Pinbal. Gritei tanto pela minha inocência, porém quando é hora de contar o meu álibi vejo que ele não é bom. Minha história é fantasiosa, difícil de acreditar. Os gatos pretos, o caldeirão no centro da cozinha... de repente, as evidências parecem fortes demais e minha história tão fraca. Parece que vou ter que continuar me limitando ao “Eu só errei a dose, só errei a dose”.
"Eu só errei a dose, só errei a dose".
"Sara, conte-me a história inteira, desde o princípio".
Respiro fundo. Cedendo às insistências, resolvo arriscar. Começo pelo que eu acredito que seja o começo.
* * * * *
O começo, ou pelo menos o que eu acredito que tenha sido o começo, foi meu rompimento com Alan. Meu mais longo relacionamento. Dez meses. Quase um ano. Ele tinha um emprego fixo, horário fixo, salário fixo, religião fixa – católico apostólico romano – e foi meu primeiro relacionamento fixo. Na verdade, era a única coisa fixa em toda minha vida. Já que não tenho emprego fixo – vivo da mesada de papai e da venda de alguns quadros (para amigos ricos de papai), horários fixos, nem ao menos um temperamento fixo. Durante os dois primeiros meses, eu me perguntava (e ao Dr. Villela) o que um homem como ele via em mim. Depois, simplesmente parei. Talvez, fossem nossos opostos que se atraíssem ou, talvez, lhe agradasse o modo como eu acordava despenteada pela manhã ou o fato de que fazia sexo oral olhando em seus olhos. Sei lá! Quem entende ou quem se importa com os podres meandros da mente masculina?
Durante os dois últimos meses, passei a me perguntar (e, também, ao Dr. Villela) o que uma mulher como eu via em um homem como ele. Dessa vez, cheguei a uma conclusão. Concluí que me relacionava com Alan pelo mesmo motivo pelo qual tomo sertralina e clozapina toda manhã: ajudava-me a ser mais estável, a agir e a me sentir mais normal. Porém, como todo psicotrópico, tinha uma dúzia de efeitos colaterais, e eu já estava começando a ficar incomodada com a diminuição da libido (ele também preferia fazer sexo em horário fixo). Porém, mesmo com essa minha constatação, o relacionamento continuou até minha epifania.
Estranho como algo tão significativo e tão sonoro – “epifania” – possa vir de um fato tão pequeno. Pelo menos a minha veio. No dia do acontecimento, ou melhor, na véspera dele, Alan passou em casa na volta da Igreja. Beijou-me. Conversamos normalmente. Fizemos tudo normalmente. Até que um dado momento ele se levantou e se posicionou em frente ao espelho. Começou a arrumar a gola da camisa. Desamarrotando-a. Todo metódico. Metódico não, religioso. E aquele momento me “iluminou”. No desamarrotar daquela gola, pude ver todo o meu futuro. Não gostei. O que eu vi? Jornal Nacional, Novela das nove, sábados no clube, igreja aos domingos.... Não há nada de errado com essas coisas, claro. Só não é a vida que eu quero para mim. Só não é uma vida que eu seria capaz de viver. Aquilo tudo me atingiu como um corte de navalha – e eu conheço bem a dor de um corte de navalha – e fiquei ali, parada, olhando, pensando, até que pulasse do fundo da minha mente, como às vezes acontece, aquilo que deveria ser só um pensamento furtivo:
“Não posso mais passar um segundo ao seu lado”.
Logo soube que não tinha sido só um pensamento furtivo no fundo da minha mente, pelo seu olhar. Um olhar perdido com o qual me encarou por uns dois segundos. Depois, devagar, como que pedindo permissão para pensar que era tudo uma brincadeira, foi abrindo um largo sorriso. Eu, sincronizada, fui fechando o semblante, para garantir que era sério. O sorriso desfez-se num repente. O olhar perdido voltou. Bateu-me o arrependimento.
Meu arrependimento não durou um segundo. Logo ele veio com toda aquela história de “eu não mereço isso”, “eu tenho direito àquilo”, “não pode terminar assim”, etc, etc. Por fim, meu arrependimento transformou-se em rancor. Alan era do tipo grudento. Não aceitaria um simples “acabou e ponto final” como ponto final de nossa relação. Ele acreditava merecer uma explicação. Então, resolvi dar-lhe uma. Não a verdadeira, mas aquela que seria mais eficiente para meus objetivos, aquela que terminaria tudo, que o magoaria mais:
“Preciso de alguém que me toque como se tocasse uma mulher de verdade e não a Virgem Maria”.
A performance sexual. O mais profundo dos sujos meandros da mente masculina. O único que você deve se importar em conhecer, pois é onde o sexo forte torna-se mais frágil. Tal colocação mentirosa foi eficiente e limpa como horas e horas de conversas sinceras jamais seriam. Não que Alan não merecesse a verdade. Merecia. Mas, eu mereceria paz e aquela foi a única maneira que pude imaginar para consegui-la.
Alan abaixou a cabeça em uma tentativa inútil de esconder o olhar marejado. Saiu com andar apressado, pisando duro, quase me atropelando. Abri caminho. Não me disse nada. Não olhou para mim quando passou. Não olhou para mim depois. Não olhou para trás. Não pegou suas coisas. Bateu a porta. Eu estava livre. Eu estava só.
* * * * *
Estava só. Estava livre. Decidi tornar verdade ao menos parte do que havia dito a Alan. Precisava precisar de alguém. Ia procurar. Liguei para minha amiga Jéssica e logo marcamos um encontro em frente a um clube. Jéssica é o tipo de “mulher-garota” que conhece todos os bares, clubes, restaurantes, enfim, todos tudo da moda. Uma mulher superficial, mas capaz de entender meus momentos ruins de modo que muitas pessoas profundas não o são. E eu? Bom... eu sou capaz de ver através do disfarce de mulher devoradora de homens e ver a menina que ainda espera pelo príncipe encantado. Onde todos os outros vêem Carrie (ou, às vezes, Samantha) eu vejo Ally Mcbeal.
Encontramo-nos por volta da meia-noite. Deixei o carro no estacionamento. Ela já me esperava por lá. Transbordava ansiedade. Mal esperou que eu acionasse o alarme, agarrou-me pelo braço direito e quase correu guinxando-me em direção a entrada ignorando a grande fila. O segurança olhou para ela como se a conhecesse (e, talvez, realmente a conhecesse) e deixou que passássemos sob os olhares furiosos e invejosos do restante da fila. Uma vez lá dentro, riu como uma menina de quinze anos que consegue entrar pela primeira vez na balada com o RG falso. Ri de sua risada. Ela ergueu a mão livre, soltou um gritinho empolgado e voou arrastando-me em direção ao bar. Abriu caminho como alguém em abstinência e pediu duas bebidas. Ri ainda mais. Àquela altura ainda achava que teria uma excelente noite.
Eu bebi. Bebi demais para quem ainda ia dirigir de volta para casa. Bebi demais para quem toma clozapina e sertralina para estabilizar o comportamento. Bebi demais para quem toma Lexotan para aliviar a ansiedade. Bebi demais para qualquer um com o mínimo de responsabilidade. E eu dancei. Dancei como quem nunca dançara antes. Dancei como se tivessem anunciado e garantido que o mundo iria se acabar. Era uma grande noite. Durante a dança, um jovem tocou meu braço, percorrendo-o todo com a ponta dos dedos. Meus pelos se eriçaram. Virei-me para ele, pois me tocara como se eu não fosse uma santa...
* * * * *
Dançamos com movimentos sinuosos. Beijava-me com uma volúpia pagã que Alan tentara, mas jamais atingira. Havia em sua língua invadindo minha boca e roçando a minha, em suas mãos passeando por meu corpo com certa vulgaridade, em seus elogios xulos, em seus passos de dança ritualísticos, havia, enfim, no conjunto da obra, algo de excitantemente herege – um certo nível de sexualidade mundana – que eu sabia, Alana jamais seria capaz de alcançar. E eu teria ficado com esse belo estranho a noite toda, teria visto até onde iria essa mundanidade que Alan jamais fora capaz de me oferecer, se não tivesse tido uma epifania. Sim, outra. Ali! Circundada de música em volume ensurdecedor e cores em intensidade cegante. Ali! Tato amortecido pelo álcool. Paladar sobreposto por outra língua. Olfato empanturrado pela mistura de perfumes caros, baratos, suor e hormônios. Ali! Outra epifania! A segunda do dia!
Não, não é uma brincadeira, uma mentira, um exagero ou um truque para chamar a atenção. Não é nenhuma dessas coisas. Eu realmente tive duas epifanias na mesma noite. Mais do que uma pessoa pode ter em uma vida toda, eu tive em uma única noite. Eu estava ali, olhando para as luzes, para o cara que dançava comigo, para Jéssica, para o cara que dançava com ela e a minha segunda epifania me atingiu de forma rápida e grave como uma batida de música tecno, psy ou trance, sabe se lá como se chama o ritmo eletrônico da moda. Pude ver, então, o quanto aquilo que eu fazia era patético. Eu estava dando vida e cores a uma mentira!
“Isso é patético!”. Pulou do fundo da minha mente. Porém, desta vez, não havia ninguém para ouvir. Ninguém para magoar. Isso me magoava e tornava tudo ainda mais patético.
Desvincilhei-me dos movimentos sinuosos de meu colega de dança sob seus protestos: “Não pode me deixar assim!” Estranho como eles são tão rápidos em pular de seus desejos para direitos ignorando os nossos. Cruzei a pista de dança com passos rápidos e decididos. Não me despedi de Jéssica, não quis estragar sua noite, não queria que decidisse vir embora comigo. Ligaria-lhe quando chegasse em casa, esse era o plano. Parecia um bom plano na hora. Era um plano razoável. As coisas só saíram um pouco erradas.
Não sei como, exatamente, dirigi até em casa. Devia ter chamado um táxi, mas achei que estava em condições de dirigir. Além do mais, precisava pensar. Dirigir sempre me ajudar a clarear as idéias. Foi uma decisão errada, irresponsável, eu sei. Não me recordo do caminho. A próxima recordação que tenho após deixar o clube? Eu, guardando o carro na garagem. Procurando em minha bolsa pelo meu porta-pílula, pelo meu Lexotan. Então, na rádio, começou:
Eu andava meio estranho
Sem saber o que fazia, eu não sei
Andava assim eu não sei
Se era feliz
Decidi não desligar o rádio. Achei, tomei uma mãozada de pílulas.
Eu achava que faria uma canção
E a melodia, eu não sei
Andava assim, eu não sei
Se era feliz
Reclinei a poltrona e recostei-me para apreciar a música e os efeitos do Lexotan e do álcool.
Eu achava que faria tudo que não sei
Que amaria, eu não sei, fazer desenhos com giz
Adormeci. Esqueci de desligar o motor do carro.
Eu achava que faria uma canção nissei (não sei)
Eu me sentia, eu não sei, um americano em Paris
* * * * *
“Deixa eu ver se eu entendi... você está culpando Oswaldo Montenegro, Johnie Walker e os laboratórios Roche por sua tentativa de suicídio”?
“Não foi uma tentativa de suicídio! Quantas vezes vou ter que dizer isso... eu só errei a dose... de ‘Drops de Hortelã’, de Whisky ou de Lexotan... não sei ao certo...”
“Você estaria morta se Jéssica não tivesse ido atrás de você”.
“Eu sei! Eu devia estar em um hospital, mas não nesse tipo de hospital! Eu estaria se não fosse meu histórico!”
“Não é assim”.
“É assim, sim! Você não é a doença! É o que você vive me dizendo. O que você me disse para me convencer a morar sozinha. Mas, é tudo mentira! Tudo o que você vê é a doença. Tudo o que você vê é BORDERLINE!”
“Não, Sara. Eu mantenho tudo o que eu disse”.
“Então, por que você não acredita em mim? Por que diabos eu tenho que provar que não posso flutuar? Por que flutuar não pode ser algo bom? Hein!? Hein!? Pensei que você fosse diferente dos outros. Mas, você é igual ao resto da multidão com suas tochas e rastelos!”
“Sara, eu não estou entendendo nada”.
“Não precisa entender!”
“Você tem que admitir que sua história é bem impressionante...”
“Eu sei... mas, você tem que admitir que se eu não fosse... espere um momento. Não há carta! Não há carta” – Viro-me. Sento-me na cama e olho em seus olhos, encaro-o pela primeira vez desde que acordei.
“Sara, por favor, deixe de lado, por um momento, suas metáforas”
“Não, não tem metáfora. Não tem carta. Carta de suicídio. Ninguém achou nenhuma”.
Seu semblante assume uma feição de surpresa. O Dr Villela me olha com atenção.
“Agora, com tudo que você conhece de mim, de minha doença, acha provável que eu tenha tentando me matar sem deixar ao menos um bilhete? Sem um grito final?”
Um dos meus inquisidores balança, demonstra piedade.
“Eu sei que minha história parece extraordinária, mas esse não é um ponto forte a favor dela? Eu só errei a dose, Dr. Eu só errei a dose. E agora, você sabe que é verdade!”
Eu sei que eu posso flutuar. Mas, é que meu pai era marinheiro...
* * * * *
“75 reais e 25 centavos”.
“Tenha uma boa noite”.
Abro a porta do carro e acomodo Johnie no banco do passageiro. Era para ser apenas uma saída para clarear as idéias, mas acabei vindo parar neste supermercado. Estou fora daquele lugar há dois dias, mas não consigo parar de pensar nele. Nem enquanto dirijo. Nem menos enquanto estava pedindo – inutilmente – perdão para Alan pelo telefone. Nem mesmo enquanto estava revendo Jéssica. Inútil. Tudo é inútil. A coisa toda permanece na minha cabeça.
Ligo o carro e tomo o caminho de volta a casa. Eu estava certa o tempo todo. O Dr. Villela mentira. Desde o começo. Afinal, ele era meu médico. Afinal, ele tem honorários caríssimos. Bastava que ele falasse ao meu favor. Todos iriam ouvi-lo. Mas, não é isso que está na minha cabeça agora. Não é isso que não me deixa dormir. É que todos eles são iguais: minha família, Dr. Villela até mesmo Jéssica. Todos iguais.
Pensei que eles eram diferentes, mas tudo que eles viram foram os gatos pretos. Eram iguais ao resto da multidão com tochas e rastelos. Pode-se dizer que eu estou sendo muito dura com Jéssica, afinal, ela salvou minha vida. Porém, quando eu precisava de compreensão, foi incapaz de acreditar em mim.
Chego em casa. Guardo meu carro na garagem. Procuro no porta-luvas, encontro um CD e ponho-o no rádio.
Eu andava meio estranho
Sem saber o que fazia, eu não sei
Andava assim eu não sei
Se era feliz
Procuro em minha bolsa pelo meu porta-pílula, pelo meu Lexotan. Encontro. Tomo uma mãozada impulsionada pelo Johnie que consumo no gargalo com dificuldade pela garrafa ainda pesada.
Eu achava que faria uma canção
E a melodia, eu não sei
Andava assim, eu não sei
Se era feliz
Você não é a doença, é o que eles vivem me dizendo. Besteira! Tudo que eles vêem quando olham para mim é Borderline! Esse é um mundo onde o importante é ser como a multidão. Um mundo que condenou a magia e glorificou a tocha e o rastelo. Um mundo onde flutuar é uma coisa ruim. Minha família, Jéssica, Dr. Villela tudo que eles querem é arrancar a bruxa de dentro de mim, arrancar minha paixão pelos gatos pretos, me fazer mais uma na multidão. Dar-me uma tocha. Fazer-me uma daquelas que afundam. Trazer-me para esse mundo.
Um mundo onde eu prefiro não viver.
Eu achava que faria tudo que não sei
Que amaria, eu não sei, fazer desenhos com giz
Não desligo o motor do carro.
Eu achava que faria uma canção nissei (não sei)
Eu me sentia, eu não sei, um americano em Paris